Página despretensiosa. Porta-retrato cibernético de um brasileiro inquieto, que gosta de dizer coisas. E de escrever coisas. Não sei se me entendem. Mas não importa. Importa participar do mosaico cultural do Brasil desse início de Século. Não sou poeta, nem literato, nem colunista. Não sou nada, sou apenas um geólogo aprendendo com as pedras do caminho. Mas também não sou bobo. Caminhando e assuntando, aprendi a dar minhas marteladas. Relaxe, não vai doer.
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Rio arde e Brasília cai
sábado, novembro 15, 2008
Deu a louca no ministro
Li a mensagem ali mesmo, na frente do mensageiro: “Sr. Pereira* pede pro senhor ligar pra ele urgente.” Naquele tempo, 1986, os postos telefônicos do interior tinham um mensageiro que distribuía recados em toda a cidade. Através do pessoal da Sede, o Pereira me localizara ali, no hotel daquela pequena corrutela, interior de Goiás. Dei a gorjeta, tomei um banho e fui ligar.
Hoje, em plena era do celular, é difícil imaginar como eram as comunicações de antanho. A muito custo conseguia-se completar a ligação, mas era só o começo. Depois, era preciso ter a sorte de ela não cair e ainda ter bom ouvido para conseguir distinguir seu interlocutor, no meio dos ruídos intergaláticos que se interpunham na conversa.
- Oi Regis (era assim que ele me chamava), olha aqui, conseguimos uma audiência com o Ministro de Minhas e Energia, Dr. Aurélio Porto*, em Brasília, depois de amanhã. Você tem de vir. A audiência é em seu nome.
Conversamos mais uns dez minutos e desliguei, para supremo alívio dos meus tímpanos.
Então, finalmente iríamos ter um tête-à-tête com o Dr. Aurélio! Há meses vínhamos tentando. Eu era o presidente da nossa entidade nacional dos empregados e precisávamos do apoio do Ministro pra ver se saíamos do zero a zero naquele Acordo Coletivo. A coisa tava braba e as negociações paralisadas. Era nossa última cartada.
Naquela noite, não dormi direito. Pensava no encontro com o Ministro, na importância do acontecimento e na responsabilidade. E se falhássemos? Comecei a sentir um friozinho na barriga. E a ferida na perna começou a latejar. Tanto que tive de trocar o curativo, pra colocar mais anestésico.
Deixe-me explicar. Eu tinha, na verdade, uma leishmaniose.
Dois meses atrás, ao voltar de uma campanha no nordeste de Goiás, notei cinco feridas na perna esquerda. Pequenas, coisa de menos de meio centímetro cada, mas que não cicatrizavam. Fui ao médico, que me receitou um antiestafilococos. Tomei a medicação, percebi que a cicatrização começara e viajei de férias, pra rever a família no interior da Bahia. Depois de uma semana na Boa Terra, estranhei que uma das feridas não cicatrizara. Na verdade, havia se formado uma crosta enorme no local.
Uma parenta, bioquímica, ao ver o estrago, me inquietou:
- Desconfio o que seja, mas só posso afirmar após fazer uma lâmina. Vamos ao meu laboratório!
Algo me dizia que minhas férias tinham ido pro beleléu.
Quando Laura* removeu a crosta da ferida, levamos um susto, nós dois. Embaixo, havia um buraco, mas não era um buraco qualquer. Parecia aberto com uma broca, de tão bem feito e regular. Um canal de meio centímetro de diâmetro, que ia quase até o osso.
- Vou fazer a lâmina só por desencargo de consciência, mas já sei o que é.
Eu nem ouvia direito... Fiquei meio enjoado, querendo vomitar.
Ela fez uma raspagem super dolorida e em poucos minutos estava debruçada no micrsocópio.
- Leishmânia! Exatamente o que pensei! Venha ver... Ela se parece com os glóbulos vermelhos...
Conforme minha intuição, as férias foram mesmo pro beleléu. Voltei urgentemente pra Goiânia, onde dispunha de um hospital de doenças tropicais. O caso era de saúde pública e o medicamento era distribuído pela SUCAM, Superintendência de Campanhas de Saúde Pública.
Como me tratei, já é outra história, mas o fato é que agora estava ali, naquela madrugada quente no interior de Goiás, trocando o curativo e verificando que a danada era bastante resistente. O buraquinho ainda estava lá, bonitinho da silva. Apenas parara de crescer.
Dois dias depois, estava na ante-sala do Dr. Aurélio, aguardando para a audiência. De terno emprestado, sentia-me desconfortável naquele ambiente. Ao lado dos companheiros que vieram do Rio de Janeiro, tínhamos traçado todo um plano de ação. O tempo do Ministro era curto e precisávamos ser objetivos e convincentes. Ficou combinado que Pereira seria o nosso porta-voz. Os demais somente complementariam, quando solicitados, para não tumultuar.
A Audiência finalmente começou. O Dr. Aurélio, muito educado e atencioso, derramou-se em elogios aos geólogos e à geologia. Na primeira deixa, o Pereira desfiou o discurso que havíamos combinado. E foram 20 minutos relatando a difícil situação em que nos encontrávamos, a falta de projetos, orçamento minguante, salários defasados, a Empresa parada, a Diretoria intransigente, a categoria em estado de greve, enfim...
Dr. Aurélio assentia com a cabeça e quando começou a falar, foi naquele tom de que o momento era mesmo de grandes dificuldades, devido à necessidade de redução de gastos públicos, que não tinha margem para ir além do que o orçamento permitia e que havia uma política salarial governamental que era preciso ser obedecida e foi por aí nos jogando água fria.
Estávamos todos desanimados e eu comecei a me cobrar por ter feito aquela viagem tão corrida. De repente, em sua fala, o Ministro, referindo-se ao geólogo disse:
- O geólogo é um profissional privilegiado, trabalha em contato com a natureza, leva uma vida saudável...
Pereira pegou a deixa e partiu pro tudo ou nada:
- Que nada Doutor. Aí é que o Senhor se engana. O geólogo é uma vitima! Além de sacrificar a família e arriscar-se aos acidentes naturais da vida no campo, vive exposto a todo tipo de doenças tropicais.
Pereira viu que achara uma boa linha de argumentação, pois o Ministro mostrou-se vivamente interessado, fazendo perguntas. Pereira, então, deitou e rolou:
- Olha Dr. Aurélio, o Senhor não faz idéia do que é viver no meio do mato. O geólogo enfrenta diariamente cobras, feras, insetos, grileiros, posseiros, índios. Há muitos colegas que sofreram acidente de carro, outros nas máquinas de sondagem. Recente pesquisa feita por nossa entidade revelou que 70% dos geólogos já sofreram algum tipo de trauma profissional. E nada disso é reconhecido! Mas saiba que as minas que abastecem as indústrias, têm o suor, o sangue e a vida dos geólogos!
Vendo que o Ministro estava se mostrando sensível o Pereira arrematou, para surpresa de todos nós:
- Para o Senhor não pensar que estou exagerando, tá aqui esse colega – apontou para mim. Para estar aqui hoje, viajou diretamente do interior de Goiás e com uma baita leishmaniose na perna!
- Leishmaniose?!
-É... Mesmo doente, está trabalhando no campo. E por conta dessa vida é um rapaz separado, vive só. É difícil uma mulher se adaptar à vida do geólogo. O índice de separação é altíssimo!
Eu fiquei pasmo, mas o Ministro estava mesmo interessado era na leishmaniose.
- Como é isso?
Rapidamente expliquei. Aí foi ele que nos surpreendeu:
- Posso ver a ferida?
Quase em coro, meus colegas disseram:
- Mostra!
Aí foi minha vez de pagar mico. Levantei a perna da calça, afrouxei o curativo e expus aquela coisa horrível. Nunca me esqueço o cenho franzido e a cara de nojo do Ministro, quando me perguntou:
- Dói?
Enquanto eu me recompunha, o Ministro perguntou:
- Tem muitos geólogos com essa doença na CPRM?
Aí o Pereira deu o golpe final:
- Ministro, só na Amazônia temos duzentos geólogos. Todos, sem exceção, já tiveram leishmaniose ou malária. Muitos já perderam a conta das malárias. São mais de dez mortes por malária, duas por ataques de índios, duas por afogamento, uma por ataque de onça e dois desaparecidos na floresta.
Fez-se silêncio. O Ministro ficou uns segundos tamborilando a caneta sobre a mesa e, finalmente, chamou seu assessor:
- Seu Roberto, me ligue, por favor, com o Dr. Márcio*.
Dr. Márcio era o Ministro do Planejamento, onde nossas negociações estavam emperradas.
Ali, na nossa frente, depois de uma curta conversa, os dois ministros acertaram um reajuste bastante razoável para nós. Longe do que pedimos, mas o suficiente para distensionar o clima e levar o Acordo a bom termo.
Quando saímos, satisfeitos com o resultado, fui em cima do Pereira:
- Que negócio é esse de dizer que me separei duas vezes e que vivo só? Tá ficando louco cara? E aquela quantidade de mortos na Amazônia?
- Regis, se a conversa demora mais, até eu ia me separar, cara. Eu não podia era perder essa chance!
Dizem que de médico e de louco todos temos um pouco, Sei não, mas acho que o geólogo é mais louco que a média. Um peão com quem trabalhei muitos anos me disse, certa vez, que o geólogo vive dentro dos matos, procurando o que não perdeu, pra fazer não sei o quê. Não é que ele tem toda a razão?
* Nomes fictícios
terça-feira, outubro 28, 2008
Nos tempos do rádio II
sexta-feira, outubro 24, 2008
Nos tempos do rádio I
Pois é... Sem o rádio, seria como ir para o campo hoje, sem o celular. Dá pra imaginar? Tinha os fixos, que eram, na verdade poderosas estações de comunicação, e os portáteis, menores e mais leves, que transportávamos em pequenas mochilas e que tinham incrível poder de transmissão, bastando, para isso, estender pequena antena, em direção perpendicular à reta imaginária do local até a estação receptora. Certa vez, em emergência, estendemos uma antena desse tipo dentro do rio Ipitinga, usando duas voadeiras e, graças a isso, acionamos socorro, em Macapá, para um peão que tivera o dedo decepado pela hélice de um motor de popa, no extremo sul do Estado, fronteira com o Pará (veja o post Adoráveis barrigadas).
Tínhamos o sistema oficial de comunicação por rádio, cuja base eram as mensagens por formulários, denominados radiogramas. Os radiogramas eram lidos por operadores práticos, que transmitiam, geralmente, boletins de andamento de serviços e pedidos de material. Como as transmissões não eram límpidas, pelo contrário, sempre carregadas de muito ruído, o operador normalmente ditava a mensagem por códigos: alfa, era a letra "a"; beta a letra "b"; charles, o "c" e assim por diante. Dinheiro era QSJ. Ficar na espera, era QAP e tome sopa de letras!. Assim como fazem hoje, os motoristas de táxi.
Domingo nos acampamentos dos projetos era dia de descanso e melancolia. Geralmente, suspendiam-se as atividades de campo e cada um buscava o lazer possível, a depender de onde se estava. E aí, batia a saudade da família, da namorada, dos amigos, enfim, aquele banzo! O jeito era minimizar o estrago com uma branquinha, que ninguém é de ferro e reunir a família, à distância, usando o rádio e a maricota. Calma que eu explico! Maricota, era uma geringonça, acoplada ao rádio da sede, que, ao comando do operador, transferia a comunicação para um aparelho telefônico. E, dessa forma esquisita, sem privacidade, já que o operador e o resto do Brasil que estivesse na frequência a tudo ouvia, era possível matar a saudade da patroa, da gurizada e saber das últimas. O diabo é que tinha o Dentel - Departamento de Telecomunicações, que era uma espécie de big brother, sempre atento e na escuta. Era o órgão que concedia as licenças e fiscalizava a comunicação. Lembremo-nos que a ditadura ainda vigia e espalhava seus tentáculos até pelos inocentes acampamentos de pesquisa da CPRM. No termo de concessão de licença, uma cláusula draconiana estabelecia que "as comunicações deveriam ser no exclusivo interesse da CPRM, vedado qualquer assunto de natureza particular, política, religiosa, etc". E não pensem que era uma cláusula morta. Quem assim pensa, não sabe o que foram os anos de chumbo.
A primeira vez em que constatei a ostensiva presença do Dentel, eu estava acampado no interior do Pará. Meninos, eu ouvi! Estávamos em plena apuração das primeiras eleições diretas para governador, desde o golpe militar de 64. Um companheiro de outro projeto entrou na frequência e quis saber do operador da Sede, em Belém, a quantas iam as apurações. Havia a grande expectativa de que o candidato da oposição (MDB), Jáder Barbalho, derrotasse a situação. Ainda não tínhamos urnas eletrônicas e as apurações, no Norte, duravam semanas. Éramos todos da oposição, claro! O diálogo, surrealista, foi mais ou menos assim:
- Atento 698, 794 chamando, câmbio!
Depois de várias tentativas, a Sede responde:
- Ok 794! 698 na escuta, câmbio!
- Okapa 698! Acá é Sinval* operando. Quem opera por aí, câmbio!
- Boa tarde Sinval! Acá é o Borges*. Adiante, câmbio!
- Boa tarde, Borges! Tenho três radiogramas, ok?
- Ok Sinval, pode mandar, câmbio!
Após a complicada transmissão dos boletins de sondagem, o técnico de campo quis saber, naturalmente, como ia a marcha das apurações e arriscou inocente indagação:
- Positivo Borges, positivo! Radiogramas encerrados. A propósito, aproveitando, o Jáder continua na frente, câmbio!
Nesse exato momento a comunicação foi interrompida por um infernal ruído extragalático. Após restabelecida a normalidade, o próprio Deus assumiu a operação, de algum lugar do universo:
- Atenção operador da estação 794 da CPRM! Aqui fala o capitão Dantes*, do Dentel. Repetindo, aqui é o capitão Dantes, do Dentel. Matrícula 010100001-111, DCC/DCCI/SVC/PA. Copiado, câmbio!
O técnico, naturalmente, não copiou porra nenhuma. Apenas respondeu desconfiado:
- Adiante, câmbio!
- Por favor, identifique-se e passe o prefixo completa de sua estação, câmbio!
Ih! Aí pegou! O técnico desconfiou que tinha feito alguma m...
- O que o senhor quer mesmo? Câmbio!
Percebendo o clima, o operador de Belém, que a tudo ouvia, resolveu ajudar o Borges e meteu a colher na sopa:
- Atenção Dentel, atenção Dentel, 698, Sede CPRM Belém chamando, câmbio!
Mas o burocrata do Dental não estava pra brincadeira:
- Um momento CPRM Belém! Estou numa conferência de notificação com uma estação móvel de vocês e preciso de informações locais, câmbio!
Embora a comunicação estivesse muito ruim, o Sinval ouvira a conversa e viu que a coisa era com ele:
- Pois não, Dr. Dentel, aqui é 698, Sinval operando, câmbio!
- Corrigindo... Dr. Dantes, do Dentel... Dentel! Entendido? Câmbio!
O ruído extragalático voltara, como se todos os grilos e cigarras da floresta resolvessem se meter na conversa:
- Positivo, hem! Mas não captei tudo, hem! Muito ruído! Só entendi até Pimentel, câmbio!
- Okapa, 698! Tudo bem. Por favor informe o prefixo completo da estação, câmbio!
- Ah.... Negativo! Muito ruído... Mas estou são sim. Tudo bem comigo, câmbio!
Agora foi o Dentel que pediu a interferência de Belém:
- Atento 698! Por favor peça a 794 para informar o prefixo da estação que se encontra no verso da licença do Dentel. Entendido, câmbio?
- Atenção 794, atenção 794! Favor ler o número no verso da licença que se encontra embaixo do aparelho, câmbio!
- Ok, 698, perfeitamente entendido... Já achei a licença, câmbio!
- Positivo 794, positivo! Agora leia o verso, câmbio!
- Ok 698, QAP!
Com esse código, Sinval pedira um tempo. Cinco minutos depois:
- Atento 698, 794!
- Adiante 794!
- Olha Borges, li a licença todinha e não tem nenhum verso. Só tem umas letrinhas miúdas, mas nada de verso, câmbio!
Borges, como se diz na minha terra, "queimou as priquita":
- Verso significa do outro lado! Outro lado, entendido, câmbio!
- Perfeitamente entendido... do outro lado... Mas qual lado? Já olhei os dois, de cabo a rabo... Não tem verso nenhum, câmbio!
Vendo que a comunicação não iria a lugar nenhum, o Capitão Dantes resolveu ser pragmático:
- Atenção 698! Capitão Dantes do Dentel chamando, câmbio!
- Adiante Capitão!
- Está complicada a comunicação direta... Sendo assim, através de Vossa Senhoria, o Dentel, no uso de suas atribuições legais, adverte a CPRM de que a licença para uso de estações móveis de rádio transmissor é para exclusivo uso no interesse da Companhia, vedada qualquer comunicação de conteúdo político. Entendido, câmbio?
- Positivo, câmbio!
E foi por aí afora, passando um sabão na CPRM, pelo fato "inusitado" de um cidadão querer acompanhar a marcha das eleições. E pensar que hoje as TVs mostram tudo, a cores a ao vivo, para todos os rincões do país. Pois é... Mas houve um tempo, é bom não esquecer, em que os grotões só recebiam aquelas informações, via Rádio Nacional, devidamente embaladas e acondicionadas pelos donos do poder. Acredite se quiser.
domingo, setembro 21, 2008
Barrigadas adoráveis II
Chefe não passa no teste
Não foi o que aconteceu com o geólogo da área contígua à minha, o Lula, nome fictício. Por não ter jogo de cintura, acabou angariando a antipatia da equipe. Um dia, ao voltar para o acampamento, começou a se sentir mal, com falta de ar. Ele era meio gordinho. Mesmo percebendo o cansaço do geólogo, os peões não se abalaram e continuaram em marcha avançada, deixando o chefe para trás. Este, não suportando mais, deitou-se no chão e ali ficou semi-acordado. Ao chegarem ao acampamento e relatarem o ocorrido, o cozinheiro apiedou-se e entrou na picada para resgatar o chefe, no que foi seguido pelo caçador (peão que, na equipe, tinha a incumbência de caçar).
Quando cheguei ao meu acampamento já tinha um aviso pelo rádio, de que o Lula não estava bem. Veio se arrastando na picada, amparado nos dois assistentes. Convoquei meu piloto e subimos o Ipitinga até o próximo acampamento, já noite fechada. O colega estava de fato muito debilitado, sem energia, suando em bicas com falta de ar. Avisei ao chefe do projeto e mandamos o piloto do colega adoentado descer à noite mesmo, levando o Lula para a base do Inferno. Dia seguinte, desceu para o Carecurú, de onde foi resgatado pelo “anjo” Barriga. Devolvi todos os peões, menos os dois que demonstraram solidariedade humana. O trabalho restante dessa área foi rateado entre os demais geólogos de modo que nem precisou enviar substituto. Depois, ficamos sabendo que o Lula tivera um princípio de infarto.
Malária não dá trégua
Mas a malária nos rondava, assim como a pintada e o Mandaguari, figura lendária, meio homem, meio macaco, que habita as matas amazônicas, aterrorizando os incautos. Ninguém jamais o viu, mas também ninguém tem a menor dúvida de sua existência. Bastava alguém reclamar de frio, ao final da tarde, não tinha erro: malária. Era arrumar a trouxa e descer no próximo barco. Mais de cem peões circularam pelas sete equipes, mais as bases, em rodízio, por causa da malária. Curiosamente, nenhum geólogo caiu de malária no campo, embora, ao retornar para Belém, dois deles estivessem contaminados.
Os trabalhos estavam previstos para durar um mês e meio, mas duraram exatos 69 intermináveis dias. A partir do trigésimo dia, mais ou menos, apareceu-me um caroço na coxa direita, tipo uma espinha, mas que doía muito à noite e expelia um líquido claro. Padeci com isso, em segredo, sem dizer aos peões, com medo de novo trote. Mas estava ficando insuportável e a espinha crescendo mais e mais, parecendo já um pequeno furúnculo. Porém, esse problema só será resolvido no último dia da campanha. Garanto que não será uma solução ortodoxa.
Últimas barrigadas
Finalmente, os trabalhos chegaram ao fim. Desmontados os acampamentos, todos descemos para o Inferno e de lá, em comboio, para o Carecurú. Parecia um sonho, voltar à civilização, depois de mais de dois meses. Ficamos três dias na pista, despachando o material e os peões através das “barrigadas” diárias para Macapá e aguardando o Comandante Flávio, que viria com uma aeronave um pouco maior, de Santarém, para pegar os geólogos.
Era impressionante ver o Barriga “calibrar” o peso da aeronave. Primeiro, ele testava cada saco de amostra, com suas próprias mãos, para estimar o peso. Ia separando os sacos de lado e depois determinava:
- Dá pra ir esses sacos e mais três peões.
Algumas vezes ele abortava a decolagem e pedia, de dentro do monomotor:
- Manda mais um peão!
Ou então:
- Não dá! Temos de descer um saco ou um peão!
Esse era o Barriga. Os peões confiavam cegamente nele e devo dizer que suas “barrigadas” foram todas tranqüilas e bem sucedidas, sem nenhuma ocorrência digna de relato.
Foi aí que um peão, vendo minha “espinha” na perna, diagnosticou, com aquela segurança de quem sabe das coisas: - O senhor tem um ura, doutor.
- Ura??
Um dos geólogos da região me explicou que ura é o mesmo que berne. É um bichinho minúsculo que se instala no corpo e se fixa com uma espécie de cílios. É muito comum
Todo o acampamento se reuniu para acompanhar a operação. Por mais que tivesse sido advertido, posso garantir que doeu muito mais do que eu esperava. E o bicho resistiu, aferrando-se a seus inúmeros cílios, que são, na verdade, minúsculas pernas. Finalmente prevaleceram a força e a perícia do meu cirurgião. Do pequeno olho da espinha, emergiu algo semelhante a um bicho de goiaba, só que cheio de pernas. O alívio foi imediato. Comemoramos com uma rodada de excelente cachaça que o Barriga tinha trazido de Macapá.
No último dia, tudo resolvido, tudo despachado, chegou o Comandante Flávio para nos resgatar. E chegou trazendo sinais da civilização que nos aguardava: um isopor cheio de cerveja em lata e sanduíches. Sabe o que significa esse reencontro, depois de 70 dias no meio da mata? Uma sensação de recompensa, de dever cumprido, de felicidade.
A cortina do tempo
Hoje, relembro esses fatos com funda nostalgia, mas com orgulho. O sofrimento que a mata e distância da família impõem se apequenam quando penso que fiz um trabalho importante para o país, que poucos teriam condições de fazer, que me engrandeceu como ser humano e como profissional e que me abriu o coração da Amazônia. Ali deixei mais do que companheiros de trabalho. Deixei amigos de verdade. Nunca mais os vi, mas tenho certeza de que se os revisse, em qualquer lugar, haveríamos de trocar aquele abraço gostoso e compartilhar um monte de histórias que não deu pra contar aqui. Como se o tempo não tivesse passado. Jorildo, Cara Azeda, Bartolo, Dias, Ganã... Brasileiros simples, peões das matas amazônicas, que temem o Mandaguari, como a Deus. Seus ensinamentos ainda estão comigo e as lembranças das nossas aventuras são um patrimônio de cultura e sabedoria, cujo privilégio de ter vivenciado muito me honra e engrandece.
(Fim)
Barrigadas adoráveis I
O nome de batismo do Barriga? Sinceramente, não sei. Mas isso não tem a menor importância, pois todos que o conheceram sabem que ele será sempre o Barriga. Ponto final. Piloto de teco-teco na Amazônia, década de 80. Sua base era Macapá. Bem humorado e brincalhão, vivia zombando do perigo e onde houvesse qualquer brechinha na mata, ele pousava. Desafio era com ele mesmo. Aliás, ele dizia já ter caído várias vezes. Se é verdade, não posso garantir.
Seu volumoso abdômen dificultava abotoar a camisa e por isso ele andava mesmo era de peito nú, de bermuda, óculos Ray Ban legítimos, sandálias havaianas e um indefectível palito na boca, onde brilhavam vários dentes de ouro, fruto dos anos de trabalho nos garimpos perdidos naquela Amazônia de meu Deus.
Naquele projeto, o Cérbero I (1982), na divisa do Pará com o Amapá, área endêmica de malária, ele cumpriu um papel importantíssimo: fazia um vôo diário, no mínimo, de Macapá até a pista do Carecurú, onde tínhamos uma base. Carecurú era um antigo garimpo da região, do qual só restava a velha pista esburacada, cheia de carcaças de aviões em suas duas cabeceiras. O Barriga e o Comandante Flávio, de Santarém, eram dois dos poucos pilotos que se arriscavam nessa pista. Além de curta, ela tinha um “quebra-mola” bem no meio, que exigia, além de perícia, muita coragem do piloto.
Cada vôo do Barriga, para efeito de controle de custos, era registrado como uma “barrigada”. De Macapá, trazia provisões, correspondências, encomendas e os peões liberados pelo Hospital de Doenças Tropicais. Na volta, levava os peões caídos (que estavam com malária) e as amostras de solo e sedimento de corrente. Dentro da área do projeto, havia barcos que percorriam todas as sub-bases, diariamente, levando os peões curados e recolhendo os caídos (e as amostras), para trazer ao Carecurú. Assim era a rotina dos projetos na Amazônia naquela época. Não sei se hoje é muito diferente.
Cérbero, o guardião do inferno
Toda a logística do projeto fora montada a partir de Belém, usando fotografias aéreas da USAF, escala 1:70.000. Sete equipes se espalhariam ao longo do rio Ipitinga, afluente do rio Jarí. O acampamento-base ficaria na boca do Igarapé do Inferno e uma sub-base fixa ficaria na pista do Carecurú, nosso elo com o mundo externo. Cérbero, segundo a mitologia, era o nome dado ao cão que guardava a porta do inferno. Daí o nome do projeto. Bastante encorajador, não acham?
Do Carecurú ao Inferno era um dia de barco, com vários obstáculos terríveis de corredeiras (pedras no leito do rio). Conseguimos contratar um índio, nas proximidades, que era o único piloto que se arriscava com os barcos pelas corredeiras. Ele tinha de passar todos os barcos, pois conhecia os canais e as pedras, como se fosse a cozinha de sua choça. Mesmo, assim, no primeiro dia, um dos barcos virou e perdemos todos os mantimentos. Por segurança, os equipamentos eram transportados a pé pelas margens.
No Inferno, ficamos dois dias montando o acampamento, refinando a programação, separando o material e os peões. Éramos sete geólogos, mais o chefe do projeto. Quando o acampamento ficou pronto e instalamos a estação-base de rádio, me lembro que o chefe do projeto mandou fincar um mastro bem alto, no centro da praça e promoveu uma inusitada solenidade de hasteamento da bandeira, ao som de improvisado e desafinado Hino Nacional. Com direito a perfilagem geral e mãos sobre o peito. Mas que foi emocionante ver nossa bandeira tremulando naqueles cafundós, isso foi!
No dia da partida das equipes, o primeiro acidente. Ao tentar fazer pegar um dos motores de popa, um peão teve o dedo polegar decepado pela hélice, bem no meio do rio Ipitinga. Aí eu pude constatar a utilidade dos rádios que levávamos. Ali mesmo, no leito do rio, estendemos a antena (dois barcos, cada um puxando para um lado) e ligamos o rádio Telefunken portátil. Em minutos, o Barriga foi acionado e dali mesmo um dos barcos desceu para o Carecurú, com a primeira baixa das dezenas que teríamos nos próximos 70 dias que durou aquela aventura.
Chefe passa no teste
Já haviam me prevenido que não é fácil trabalhar com os peões na Amazônia. Eles costumam testar sua competência e liderança e se você não despertar confiança, fica acuado e sujeito a chantagens de todos os tipos. O meu teste se deu logo no segundo dia, quando a equipe da picada regressou dizendo que havia encontrado aviso de índios, e que era perigoso prosseguir dali para frente. Para dar maior dramaticidade, disseram que os índios tinham tocado fogo na picada. Na verdade, notei que um dos peões parecia incomodado, ficando sempre calado e não me encarando.
Bom, confesso que me deu um friozinho na barriga, mas lá em Belém, tínhamos feito contato com a FUNAI, mostrando a área de trabalho e nos foi declarado, com documentos, tratar-se de área livre de qualquer presença indígena. Mesmo assim, pelo rádio, fiz contato com o chefe do projeto que me recomendou ir pessoalmente ver os “avisos” antes de qualquer decisão.
Dia seguinte, lá fui, cheio de cautelas, fazer o reconhecimento. Importante frisar que quando determinei a volta ao local, senti certo nervosismo na equipe. Percebi certos cochichos e trocas de olhares suspeitos. Quando chegamos ao local do incêndio, não vi as tais palmeiras cruzadas, os avisos, segundo disseram. Mais ainda, bastou andar um pouco ao redor e encontrei uma caixa de fósforos vazia, ao lado de embalagens de cigarros. Mais algumas perguntas e logo me confessaram que foi um incêndio involuntário e, com medo de punições, inventaram a história toda. Apenas um peão não concordara com a lorota, por isso ficara incomodado, mas não entregara os colegas.
Ali na picada mesmo, disse que não haveria punições, por ser a primeira vez, mas determinei que contornassem a área incendiada e continuassem a picada. Retornando ao acampamento, contatei o chefe do projeto, na base do Inferno e pedi para me mandar três peões de picada. À tardinha, quando a equipe voltou, devolvi os três mentirosos e preservei o que não entregara os colegas, apesar de não fazer parte da trama. Foi meu teste de fogo e serviu para deixar claro que eu não era um bocó da capital.
Mas adquiri o respeito inconteste da equipe, alguns dias depois, quando, ao fim de um dia complicado, ao longo de drenagens, para coleta de amostras geoquímicas, ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho por onde tínhamos vindo, propus voltar por outro caminho, sob meu comando na bússola. Garanti para eles que, se seguíssemos exatamente por onde eu indicasse, sairíamos bem perto do acampamento, em muito menos tempo. Vi a dúvida estampada nos rostos e até certa torcida para que as coisas não dessem certo e assim, me desmoralizar. Mas, o resultado é que tudo saiu conforme eu prometera e isso me deu a liderança inconteste da equipe. Todos me cumprimentaram e queriam saber como funcionava a bússola. A partir dali, minha palavra era sagrada e nunca mais tive problemas de comportamento entre os peões. Aliás, ficamos grandes amigos e acabei, com o tempo, tornando-me confidente e conselheiro de todos eles.
(Continua... Veja sequência do relato na próxima postagem)
domingo, agosto 17, 2008
Cinzas
Último tango, último trago...
O furacão que nos varreu um dia,
Hoje é só poeira.
Findo o carnaval,
Finda a fantasia,
Fica o gosto amargo
Da manhã de cinzas
Da quarta-feira.
E a minha vida é esta.
Uma fogueira me queimou por dentro,
Um tsunami fez de mim seu epicentro
E tudo devastou...
Eis o que resta.
Nosso amor, abandonado,
Agonizou no chão, ignorado,
Triste fim de festa!
Em vão te supliquei... Estavas bêbada.
De braços com o Palhaço... Trôpega,
Esqueceste o Arlequim tristonho,
Seu olhar pidão, seu canto enfadonho,
Sua vã seresta.
E então te foste, na clara manhã...
Nem viste o bobo nas calçadas da cidade
A rabiscar no chão sua saudade.
Nem o viste chorar, cruel cunhã!
Distraída,
Nem ouviste seu canto de dor.
Tu, a musa de todas as musas,
Que inspiraste os mais puros poemas,
Tu, a fonte de todos os temas,
Te perdeste nas ruas confusas
Da cidade sonolenta, sem cor.
Distraída,
Não o viste pisar a poesia,
Sob o céu de luz rajado,
E tristemente, esbanjar alegria,
Lançar serpentina e dançar...
Nem o sentiste exalar
Bêbado ai resignado.
Nem o viste a cantar, resoluto,
Apesar da dor e da careta,
Senhor de si, absoluto:
"Deixa a vida me levar..."
Seguindo gentil Borboleta.
Ah! Pena... Nem o viste
A se esgoelar na praça,
Sambando com as morenas,
As derradeiras Helenas
Do Bloco do “Tudo Passa”,
A cantar um samba-chiste:
- Aqui jaz um grande amor.
Levou para a eternidade
Os clarins de um carnaval
Que viveu intensamente
Em traição e poesia...
Agonizou quarta-feira,
De ressaca, indiferente,
Causa mortis natural,
Vomitando a fantasia...
Sem remorso, sem saudade.
Bsb, 03/08/2009