domingo, setembro 21, 2008

Barrigadas adoráveis I

Primeira parte

Relato de aventuras e desventuras na selva amazônica, durante projeto de mapeamento geológico e prospecção geoquímica (Cérbero I), na divisa do Pará com o Amapá, no ano de 1982. Os nomes verdadeiros dos personagens foram omitidos, mas os fatos aqui narrados são reais e recriados com a maior fidelidade que o tempo e os neurônios permitiram.




O nome de batismo do Barriga? Sinceramente, não sei. Mas isso não tem a menor importância, pois todos que o conheceram sabem que ele será sempre o Barriga. Ponto final. Piloto de teco-teco na Amazônia, década de 80. Sua base era Macapá. Bem humorado e brincalhão, vivia zombando do perigo e onde houvesse qualquer brechinha na mata, ele pousava. Desafio era com ele mesmo. Aliás, ele dizia já ter caído várias vezes. Se é verdade, não posso garantir.

Seu volumoso abdômen dificultava abotoar a camisa e por isso ele andava mesmo era de peito nú, de bermuda, óculos Ray Ban legítimos, sandálias havaianas e um indefectível palito na boca, onde brilhavam vários dentes de ouro, fruto dos anos de trabalho nos garimpos perdidos naquela Amazônia de meu Deus.

Naquele projeto, o Cérbero I (1982), na divisa do Pará com o Amapá, área endêmica de malária, ele cumpriu um papel importantíssimo: fazia um vôo diário, no mínimo, de Macapá até a pista do Carecurú, onde tínhamos uma base. Carecurú era um antigo garimpo da região, do qual só restava a velha pista esburacada, cheia de carcaças de aviões em suas duas cabeceiras. O Barriga e o Comandante Flávio, de Santarém, eram dois dos poucos pilotos que se arriscavam nessa pista. Além de curta, ela tinha um “quebra-mola” bem no meio, que exigia, além de perícia, muita coragem do piloto.

Cada vôo do Barriga, para efeito de controle de custos, era registrado como uma “barrigada”. De Macapá, trazia provisões, correspondências, encomendas e os peões liberados pelo Hospital de Doenças Tropicais. Na volta, levava os peões caídos (que estavam com malária) e as amostras de solo e sedimento de corrente. Dentro da área do projeto, havia barcos que percorriam todas as sub-bases, diariamente, levando os peões curados e recolhendo os caídos (e as amostras), para trazer ao Carecurú. Assim era a rotina dos projetos na Amazônia naquela época. Não sei se hoje é muito diferente.

Cérbero, o guardião do inferno

Toda a logística do projeto fora montada a partir de Belém, usando fotografias aéreas da USAF, escala 1:70.000. Sete equipes se espalhariam ao longo do rio Ipitinga, afluente do rio Jarí. O acampamento-base ficaria na boca do Igarapé do Inferno e uma sub-base fixa ficaria na pista do Carecurú, nosso elo com o mundo externo. Cérbero, segundo a mitologia, era o nome dado ao cão que guardava a porta do inferno. Daí o nome do projeto. Bastante encorajador, não acham?

Do Carecurú ao Inferno era um dia de barco, com vários obstáculos terríveis de corredeiras (pedras no leito do rio). Conseguimos contratar um índio, nas proximidades, que era o único piloto que se arriscava com os barcos pelas corredeiras. Ele tinha de passar todos os barcos, pois conhecia os canais e as pedras, como se fosse a cozinha de sua choça. Mesmo, assim, no primeiro dia, um dos barcos virou e perdemos todos os mantimentos. Por segurança, os equipamentos eram transportados a pé pelas margens.

No Inferno, ficamos dois dias montando o acampamento, refinando a programação, separando o material e os peões. Éramos sete geólogos, mais o chefe do projeto. Quando o acampamento ficou pronto e instalamos a estação-base de rádio, me lembro que o chefe do projeto mandou fincar um mastro bem alto, no centro da praça e promoveu uma inusitada solenidade de hasteamento da bandeira, ao som de improvisado e desafinado Hino Nacional. Com direito a perfilagem geral e mãos sobre o peito. Mas que foi emocionante ver nossa bandeira tremulando naqueles cafundós, isso foi!

No dia da partida das equipes, o primeiro acidente. Ao tentar fazer pegar um dos motores de popa, um peão teve o dedo polegar decepado pela hélice, bem no meio do rio Ipitinga. Aí eu pude constatar a utilidade dos rádios que levávamos. Ali mesmo, no leito do rio, estendemos a antena (dois barcos, cada um puxando para um lado) e ligamos o rádio Telefunken portátil. Em minutos, o Barriga foi acionado e dali mesmo um dos barcos desceu para o Carecurú, com a primeira baixa das dezenas que teríamos nos próximos 70 dias que durou aquela aventura.

Chefe passa no teste

Já haviam me prevenido que não é fácil trabalhar com os peões na Amazônia. Eles costumam testar sua competência e liderança e se você não despertar confiança, fica acuado e sujeito a chantagens de todos os tipos. O meu teste se deu logo no segundo dia, quando a equipe da picada regressou dizendo que havia encontrado aviso de índios, e que era perigoso prosseguir dali para frente. Para dar maior dramaticidade, disseram que os índios tinham tocado fogo na picada. Na verdade, notei que um dos peões parecia incomodado, ficando sempre calado e não me encarando.

Bom, confesso que me deu um friozinho na barriga, mas lá em Belém, tínhamos feito contato com a FUNAI, mostrando a área de trabalho e nos foi declarado, com documentos, tratar-se de área livre de qualquer presença indígena. Mesmo assim, pelo rádio, fiz contato com o chefe do projeto que me recomendou ir pessoalmente ver os “avisos” antes de qualquer decisão.

Dia seguinte, lá fui, cheio de cautelas, fazer o reconhecimento. Importante frisar que quando determinei a volta ao local, senti certo nervosismo na equipe. Percebi certos cochichos e trocas de olhares suspeitos. Quando chegamos ao local do incêndio, não vi as tais palmeiras cruzadas, os avisos, segundo disseram. Mais ainda, bastou andar um pouco ao redor e encontrei uma caixa de fósforos vazia, ao lado de embalagens de cigarros. Mais algumas perguntas e logo me confessaram que foi um incêndio involuntário e, com medo de punições, inventaram a história toda. Apenas um peão não concordara com a lorota, por isso ficara incomodado, mas não entregara os colegas.

Ali na picada mesmo, disse que não haveria punições, por ser a primeira vez, mas determinei que contornassem a área incendiada e continuassem a picada. Retornando ao acampamento, contatei o chefe do projeto, na base do Inferno e pedi para me mandar três peões de picada. À tardinha, quando a equipe voltou, devolvi os três mentirosos e preservei o que não entregara os colegas, apesar de não fazer parte da trama. Foi meu teste de fogo e serviu para deixar claro que eu não era um bocó da capital.

Mas adquiri o respeito inconteste da equipe, alguns dias depois, quando, ao fim de um dia complicado, ao longo de drenagens, para coleta de amostras geoquímicas, ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho por onde tínhamos vindo, propus voltar por outro caminho, sob meu comando na bússola. Garanti para eles que, se seguíssemos exatamente por onde eu indicasse, sairíamos bem perto do acampamento, em muito menos tempo. Vi a dúvida estampada nos rostos e até certa torcida para que as coisas não dessem certo e assim, me desmoralizar. Mas, o resultado é que tudo saiu conforme eu prometera e isso me deu a liderança inconteste da equipe. Todos me cumprimentaram e queriam saber como funcionava a bússola. A partir dali, minha palavra era sagrada e nunca mais tive problemas de comportamento entre os peões. Aliás, ficamos grandes amigos e acabei, com o tempo, tornando-me confidente e conselheiro de todos eles.

(Continua... Veja sequência do relato na próxima postagem)

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