quinta-feira, dezembro 20, 2007

Dez metros fatais

Era um fim de noitada naquela cidade do interior paraense. Caminhava pela rua de terra vermelha, ainda atordoado de tanta bebida e farra. A noite tinha sido boa, mas já era dia claro. Dirigia-me, sonolento, mas sóbrio, ao jipe que me aguardava, adiante, para retornar ao acampamento.
De repente, notei um homem, sentado na guia da calçada, com o rosto entre as mãos. A princípio, julguei tratar-se de mais um bêbado, mas, ao me aproximar, percebi que ele chorava convulsivamente, em soluços entrecortados.
Meio constrangido, passei por ele, mas um súbito sentimento de compaixão me tomou e eu voltei, devagar, até tocar levemente seus ombros, já que ele não levantava a cabeça.
- Desculpe amigo! Mas posso fazer alguma coisa? Por que chora tanto?
Um rosto de seus 40 anos olhou-me, com surpresa, examinando-me como se ouvisse e não me visse. Um olhar de pura dor. Barba espessa, meio grisalha, vincos de sofrimento visíveis nas feições precocemente envelhecidas, lábios comprimidos, no esforço de conter o pranto. Quase me agradecendo, falou com infinita amargura:
- Ninguém pode me ajudar, amigo É muito grande a aminha dor!
Havia tanta dignidade em sua recusa, que restou no ar apenas o eco de uma decisão definitiva, inquestionável. Ainda assim, insisti:
- Precisa de algum dinheiro? Sente dor? Gostaria de tomar um café?
Acho que não foram exatamente essas minhas palavras, mas foi certamente o que eu gostaria de ter perguntado.
Novamente ele me olhou, por breves segundos e sua expressão de dor pôs um ponto final em minha impertinência. Sem outro comentário, ele apenas gemeu:
- Ai! É muito grande a minha dor!
E retomou seu lamento compungido.
Absolutamente desconcertado, afastei-me, em respeito àquele choro digno, que não queria outra coisa, que não fluir, como água na cachoeira.
Vinte metros adiante, meu carro me aguardava, com dois companheiros dormindo a bordo. Eu era o último retardatário. Mas, enquanto caminhava, com as mãos nos bolsos, a imagem e o som da cena de há pouco me afligiam, como espinho no pé, incomodando, exigindo atitude. Minha compaixão desdobrou-se em motim de sentimentos. Não se pode deixar um homem assim, aos prantos, no meio da rua, à mercê de tamanha dor. Em segundos, me vieram à mente os temores daquela noite nas dependências do DOI-CODI... O quanto eu não teria gostado se recebesse a solidariedade de alguém!
Instintivamente me voltei. Havia uma resolução irremovível em mim. Porém, para meu espanto, embora eu tivesse andado meros dez metros, a calçada estava vazia. O homem não estava mais lá, nem em qualquer outro ponto à vista.
Confesso que aquilo me atordoou ainda mais. Onde diabos se metera? Procurei nas ruas vizinhas, nos botecos ainda abertos, mas... Nada. Simplesmente ele desaparecera.
Já no carro, contei o ocorrido aos companheiros, mas eles juraram não ter visto ninguém ali.
Foi tão chocante o impacto daquele encontro-fantasma, que nem consegui dormir, ao chegar ao acampamento. A dor daquele rosto barbudo não me saia da visão, nem seus soluços, nem sua descrença.
Mas, existira mesmo tal homem ou teria sido imaginação de minha mente ressacada? Poderia ter sido apenas uma ilusão, aquela cena inesquecível? Efeito inconsciente de uma noite de esbórnia?
Anos depois, em conversa com psicólogo amigo, fiquei sabendo que sim, que, em certas circunstâncias, a mente pode criar cenas que nos iludem, principalmente sob o efeito de drogas, o que não foi o caso, juro.
Por mim, não acredito nisso e lhes afirmo que o tal homem era de carne e osso e se o visse ainda hoje, o reconheceria.
O fato, contudo, é que, por mais que tenha indagado, nunca obtive uma única pista do tal chorão. Sei que a tela do tempo embaça a visão, mas não os sentidos da alma. A dor do rosto de um homem rude jamais se esquece.
Mas nada disso vem mais ao caso. Ter existido ou não, não importa mais. Importa é que aprendi uma lição. Quando tiver oportunidade de ser solidário, não leve dez metros para decidir. Dez metros podem ser fatais. Podem causar um vazio, uma incerteza que te acompanharão pelo resto da vida. Dez metros podem te deixar uma interrogação na alma, como a cicatriz de uma facada na barriga. Irremovível.
Como já disse, para mim tornou-se irrelevante a dúvida das pessoas, sobre a existência do meu amigo chorão. O que me mata hoje é não poder responder à seguinte pergunta:
- O que aconteceria se eu apenas tivesse me sentado a seu lado e permanecido ali até poder fazer algo? Estaria aqui contando esse causo?
O que me aflige são as minhas dúvidas e não as dos outros.

domingo, dezembro 09, 2007

Homem-anta

O acampamento ficava na beira de um córrego com densa mata ciliar, no coração da Bodoquena, Mato Grosso, ano da graça de 1975, se não me falham os neurônios. Quase 17h00, as equipes de campo já tinham regressado, menos uma, a do Gilsinho*.
De repente, o silêncio do entardecer bucólico do cerrado foi quebrado. O barulho indicava que um bicho de grande porte avançava pelo córrego, aproximando-se do acampamento. A um sinal do chefe do projeto, dois peões empunharam as espingardas calibre 38 e se postaram estrategicamente na embocadura da última curva do leito, onde o bicho se faria visível à mira. Pelo barulho descuidado e apressado, ninguém duvidava de que era uma anta, provavelmente em perseguição ao filhote desgarrado. De qualquer forma, era absolutamente estranha a situação. Os animais não costumam dar bandeira assim. Mas enfim...
Dez minutos depois, o barulho tornou-se tão intenso, que todos correram para assistir ao inevitável abate, já que, além da ameaça ao acampamento, uma anta proveria carne de excelente qualidade para muitos dias.
Quando a marola do bicho atingiu o barranco dos atiradores, estes apuraram as vistas e só o esperavam apontar a cabeça na curva para a execução. Seriam dois tiros convergentes e fatais. A anta não teria a menor chance.
Respiração suspensa... Dedos em riste nos gatilhos... Mira fixa na curva... É agora! E então... Gilsinho surge feito uma anta na curva do córrego, caindo sobre as pedras e quebrando galhos, provocando uma barulheira dos demônios. Por pouco, muito pouco mesmo, os atiradores não abriram fogo. Segundo eles, o que salvou mesmo o Gilsinho foi a camisa vermelha.
O Juca*, chefe do projeto, bocão como ele só, foi ao encontro do homem-anta:
- Gilsinho! Seu filho de uma anta! Tu não tem juízo não, porra? Quer levar um tiro, é? Que diabo aconteceu? Por que você veio por dentro do córrego? Cadê seu carro e o motorista?
Gilsinho, com a cara mais simplória do mundo, sem nenhuma ruga de preocupação, revelou que o Toyota em que ele e o motorista voltavam ao acampamento ficara enganchada num tôco, na passagem de uma cancela, a cerca de cinco quilômetros dali, pela estrada. Então, para ganhar tempo, viera pelo vale, cortando pelo menos dois quilômetros. Juca não entendeu direito:
- Peraí Gilsinho. Como é que é a história? O jipe enganchou num tôco? Como assim?!
- É Juca. Não tem aquele tôco que fica no chão, entre os mourões, para segurar a cancela? Então... Esse tôco era muito alto e pegou no diferencial do Toyota. O bicho travou de tal maneira que não vai nem pra frente, nem pra trás. Nem reduzindo a primeira o carro venceu o tôco! Tá lá entalado. Falei pro Miranda* (o motorista) não fazer nada e aguardar socorro.
Juca passava as mãos pelos cabelos, sem acreditar no que ouvira, pois, conhecendo o Gilsinho, já deduzira o ocorrido. Mesmo assim perguntou.
- Veja se eu entendi bem. O carro ficou entalado no tôco e não vai nem pra frente nem pra trás. É isso mesmo?
- Hã hã...
- Só mais uma coisinha, seu carro tem macaco?
- Hã hã...
- E vocês não tentaram usar o macaco não? Pra suspender o carro....
Aí, foi o Gilsinho que fez a maior cara de surpresa do mundo:
- Ué! Mas eu não sabia que podia usar o macaco pra isso... Pensava que macaco só servia pra trocar pneu! O motorista ainda sugeriu, mas eu não deixei...
Acredite se quiser.
Juca ia dar um esculacho, mas daí se lembrou que diante dele estava uma pessoa que teve de superar um grave acidente de carro, no passado, que lhe lesou parte do cérebro. Resolveu não discutir e despachou um motorista pra resgatar o Toyota do Gilsinho e seu motorista que, pelo visto, devia ter alguma lesão cerebral também. Disse simplesmente:
- Tá bom Gilsinho. Vai tomar seu banho, que nós vamos resolver essa bronca. E vê se passa mertiolate nesses arranhões!
Quando o Gilsinho se afastou, a turma caiu na risada e a vida voltou ao normal no acampamento, sob os últimos pios das siriemas e das juritis, antes da noite cair de vez, naquelas vastidões matogrossenses.

* Nomes fictícios

quinta-feira, novembro 22, 2007

Receita de Pai André

E então fui ao Preto Velho, Pai André,
Pra lhe falar da minha dor... Essa paixão
Que me adoece. Nem me mata e nem se cura,
Meu contra-senso: minha vida e meu caixão.
E ali, no breu do Pajeú, em pleno vale,
Á luz da lua e ao pio do caburé,
Sangrei o peito do veneno e da tortura,
Mas o velho me atalhou; - Nada me fale,
Tua dor é incurável... É uma mulher

- Tiro encosto, afasto mau-olhado,
Desavesso home afeminado,
Encontro coisa perdida,
Fecho a mais funda ferida,
Curo maleita, malária, caxumba,
Tifo, sezão... Desfaço macumba.
Rezo febre, catapora e sarampo.
Rastreio gado sumido no campo.
Tenho ervas pra dor de cabeça,
Mesinhas pra tudo que o corpo padeça.
Saro a picada da cobra mais mortal,
Seja cascavel, urutu, cobra coral...

- Mas, meu filho, vou lhe ser bem franco:
Te acalma, te assenta aqui nesse banco.
Pra esse mal que se aninha em seu peito,
Pra esse mal... O velho não dá jeito.
Até hoje procuro e não acho
Uma reza, uma erva, um despacho,
Uma porção, talismã ou lambedor,
Que extirpe e cicatrize esse tipo de dor,
Mas tu, meu filho, só tu podes te curar.
- Mas como, pai André!? Pode falar!

-Não há, em todo o recurso disponível,
Algo que cure o amor impossível,
Mas, há um jeito, se quiser ter paz,
Pra que não morras cedo, pois és tão rapaz,
Porém, é muito mais difícil que parece:
Esquece essa mulher, meu filho, esquece!
Fica a ferida, mas a dor estanca.
Arranca essa mulher do peito, filho, arranca!

- Como essas marcas perenes de caliça,
O amor é uma marca na alma, irremovível,
Ferida latente, que adormece apenas.
Mas quando um sonho, uma lembrança o atiça,
Acorda em fúria, quais loucas sirenas,
A estourar o peito, num sufoco horrível!
Te devorando... Abutre na carniça.

Então, seguindo velho instinto,
Me embrenhei na mata mais sombria,
Para espanto da cotia e da graúna,
O peito a explodir de dor, não minto.
Junto ao tronco da mais grossa baraúna,
Enfim, quando já o sol se abria,
Empunhei meu machado mais distinto

Em secreto transe, ali orei,
Implorando a Deus força e vontade
Para o fim descomunal que me propus:
Seja o tronco que escolhi e que beijei,
O objeto do meu mal, meus urubus,
Que me devoram vivo, sem piedade,
Mas que agora, decidido, enfrentarei.

E tome uma machadada!
E tome duas machadadas!
E tome dez, e tome cem e tome mil!
E tome minhas noites sem dormir!
E o que a vida me trouxe e que nem vi!
E tome minhas horas de agonia!
E tome o desespero desses dias!
E tome as respostas que não deste!
E tome meu sorriso, que murchaste!
E tome as cachaças que tomei!
E tome os prantos todos que chorei!
E tome esta saudade que me mata!
E a dor que me sufoca e arrebata!

E tome dez mil machadadas!
E tome os pesadelos mais terríveis!
Os monstros dos infernos mais horríveis!
Tome os versos loucos que te fiz!
Tome meus rabiscos, meus croquis!
E todas as bobagens que nem viste!
E tome os dias que passei, tão triste!
E tome meus suores, meus tremores,
Meus cuidados, meus silêncios, meu temores!
E tome as canções que nem cantei,
E os beijos – tantos - que nunca te dei!
Tome, enfim, meu verso, teu escravo
Em troca me liberto... Enfim, me salvo.

E quando a velha baraúna enfim, caiu,
Caí, também, prostrado de cansaço.
No céu, morria o dia em tépido mormaço...
Senti que algo do peito, em dor, também ruiu
E tive a nítida impressão que, do espaço,
Nívea estrela e me fitar, me dera o braço
E o firmamento todo, solidário, a mim sorriu.

Saí da mata leve, embora triste
Pois lá no fundo o teu olhar vivia e vive.
Não consegui matar o amor que em mim convive
E se eu existo, se eu respiro... Ele existe.
Mas decidi que a vida continua
E a dor não apaga o sol, a rima, a lua
E todo o Belo, que afinal, persiste

Era uma noite linda, de São João
Uma fogueira só, todo o Sertão
Cantores versejando no terreiro,
Meninos festejando o padroeiro,
Folguedos, brincadeiras e alegria
E então... Vi um sorriso... Uma magia.

O amor de um só, como já disse, é incurável.
E o teu há de morrer aqui comigo,
Cordão pra sempre atado ao meu umbigo.
Mas entendi que existe um amor a dois, estável,
Não aquele que é o maior do mundo,
O mais fatal, mais tudo e mais profundo,
Mas o que torna a dor mais suportável

Não sei se sou feliz... Não me pergunto.
Apenas vivo e os dias me são leves.
Não busco mais o que não posso ter,
Nem busco explicação de complicado assunto.
Que corra livre o rio! Não o vou deter.
Se não me queres, pena! Não me serves.
O amor é muito mais que viver junto.



Rio, nov/2007

quinta-feira, novembro 08, 2007

O quinto poste

Durante a semana, ele só tomava água. Mas, quando tirava o sábado para ir à cidade, todos já sabíamos que a cidade não seria a mesma. Porque ele aprontava todas que tinha direito e mais algumas. E além do mais, era brigão, e tínhamos de ficar de olho, pra evitar problemas mais graves. Enfim, por conta disso, passaremos a chamá-lo, nesse relato, de Dr. Bronca. Afianço-lhes que nome mais adequado não há.
Pois bem, num desses sábados, o encrenqueiro se excedeu. Éramos convidados de honra de uma grande festa social na cidade, na praça em frente ao único colégio local, com direito a discurso do prefeito, presidente da câmara, padre, diretor do colégio, representante dos alunos e etc.
Na qualidade de convidados especiais, eu e o chefe do projeto chegamos no horário exato do início da cerimônia, cumprindo assim nosso papel de relações institucionais avançados da Empresa, naqueles confins do Brasil.
Após uma hora de discursos, loas, homenagens e emocionados agradecimentos, era chegado o momento do encerramento solene, quando um grupo de garotas do colégio exibiria um jogral da Oração de São Francisco, regida por uma freira visitante. Fez-se um silêncio de alcova no recinto, quase se ouvindo o pulsar cardíaco dos orgulhosos pais, vendo suas pimpolhas se exibindo naquela noite de gala.
Mas de repente, não mais que de repente, quando já ia avançado o jogral, um jipe Toyota se aproxima, com um barulho infernal e estaciona bem na entrada principal do recinto, cercado a palha de coqueiros, fazendo desaparecer o som das jogralistas, para desespero dos pais – esqueci de dizer que não havia microfone na cerimônia. Não satisfeito em parar em local inconveniente, o tal motorista (advinha quem?) deu dezenas de acelerados no monstrengo, antes de desligar, inundando o ambiente de fumaça de óleo diesel – era um carro antigo que mais parecia um trator, provocando acesso de tosse em metade dos presentes. Corri ao local, mas cheguei tarde. Já dei de cara com o Dr. Bronca cheio da manguaça, adentrando o salão, depois de dar um carteiraço no pobre porteiro, perguntando por que a festa ainda não tinha começado, porra! Tão alto que as jogralistas encerraram a apresentação, antes do programado, sem graça, ante o riso geral que se instalou.
Finalmente, superado o inesperado incidente, instalaram o som e a festa começou. Dr. Bronca, que já chegou mamado, partiu logo pro crime e começou a azarar uma jovem balzaquiana que chamava a atenção geral, pelo ousado decote nas costas. E todos se admiravam por que, na verdade, a noite estava muito fria, para os padrões do sertão goiano. Era pleno mês de junho. Mas ela não estava nem aí. Rodopiava nos braços fortes do Dr. Bronca, com a leveza das borboletas, aos ventos outonais. E ele, com a graça exótica de um tatu-peba bípede. A harmonia do feliz casal só foi quebrada, quando o entusiasmado galã resolveu explorar por sob o decote traseiro, deixando suas delicadas mãos de lavrador escorregarem pelos glúteos, quase à mostra, da fogosa parceira.
O salão inteiro ouviu os lamentos decepcionados da dançarina, sua repreensão chorosa, arrematada pela indefectível pergunta:
- Quem você pensa que eu sou?
Sentindo a mancada, Dr. Bronca apertou-a gentilmente contra o peito e segredou-lhe, sob as ondas dos seus cabelos anelados:
- Penso que você é a coisa mais apetitosa dessa cidade e não tenho culpa de cair na tentação de sua beleza estonteante. Você me enfeitiça e me deixa descontrolado, como o beija-flor, ante um botão carmim recém-aberto, marchetado de orvalho, num jardim primaveril...
Nem precisou continuar. A senhorita costa-nua se desmilinguiu como manteiga na frigideira quente e respondeu ofegante, já sem defesas:
- Você é o homem da minha vida. Que sensibilidade! Olha, não podemos sair juntos daqui. Você sabe... Cidade pequena, cheia de gente fofoqueira. Preciso me preservar. Vou sair agora. Você marque 20 minutos e vá me apanhar no quinto poste, a partir da frente do colégio tá bom meu amor? Vê se não vai me decepcionar, hem!! Quinto poste!!
- Claro, minha Deusa! Apesar da eternidade desses 20 minutos, irei ao teu encontro, com a volúpia do inocente Romeu e o fogo do impetuoso Dirceu. Vá minha linda Marieta!
- Marieta?!!!!
- Sim! Mistura de Marília, de Dirceu, com Julieta, de Romeu.
Com as pernas trêmulas de paixão, a esvoaçante dançarina disfarçou um pouco e saiu, tal e qual combinado, deixando o Dr. Bronca em brasa viva. Só então ele foi à nossa mesa, quando tomou várias doses de uísque e me segredou os detalhes, que compartilho agora com vocês, sob a condição sine qua non, de que morra aqui, entre nós, por favor!.
Depois de olhar mil vezes no relógio, Dr. Bronca me implorou:
- Me quebra esse galho, por favor. Olha aqui, meu jipe tá uma desgraça, queimando óleo e dando entrada de ar toda hora. Vou sai com uma tetéia que merece um carro mais confortável... Pô! Troca de carro comigo! Só hoje!
Depois de alguma relutância, acabei concordando, até para me ver livre da figura, que já estava queimando o filme da nossa mesa. Fui com ele lá fora, mostrar onde estava meu jipe, que, na verdade, ficara um pouco distante, numa ruela transversal, cerca de 20 metros da entrada do improvisado salão de festas. Fizemos a troca de chaves e voltei, aliviado. E a festa rolou, porém, mais ou menos uma hora depois, me reaparece o Dr. Bronca, puto da vida, berrando aos quatro cantos. Inconsolável, nos narrou seu drama.
Na verdade, o local da festa era um praça, onde se cruzavam duas ruas, logo, havia quatro possibilidade de um quinto poste, a partir dali. Além disso, a rua onde deixara meu Toyota saía nos fundos do colégio e ele, atrapalhado pelo álcool, que desnorteia e pela paixão, que cega, andara um tempão na rua errada, contando e recontando os postes, sem nunca ter certeza se a contagem era confiável ou não. Inúmeras vezes, voltara para reiniciar a contagem.
Quando finalmente se apercebeu do erro de rua, voltou para a praça do colégio e aí teve de decidir qual dos quatro braços de rua tomar primeiro. Em cada braço, mesma história: contagem incerta, volta ao começo, desistência. Enfim, perdeu a dama da noite que conquistara com tanto esforço e poesia. E ainda passou por um perigo de vida. Num dos postes, avistou um vulto feminino e não teve dúvida. Encostou o Toyota e galanteou:
- Enfim, minha gazela do cerrado!
A garota então se apresentou, saindo do lado escuro. Maior mico, pois nesse instante uma porta se abre e sai o dono do material, querendo saber o que estava havendo. Dr. Bronca começou a contar sua história inverossímil, mas o desconfiado marido puxou uma peixeira de 15 polegadas e o mandou “virar no rastro” como se diz por lá.
Sem jeito a dar, apenas tomamos mais umas lapadas juntos e curtimos as últimas músicas, pois a festa já estava no fim. Mas nada consolou o Dr. Bronca.
A tal costa-nua era amiga de uma amiga de um amigo do Zé, que vem a ser meu amigo. Através dele, fiquei sabendo depois, que a coitada, após esperar por mais de uma hora sob um bruxuleante poste, expondo-se aos carros que passavam, ao vento e ao frio da madrugada garoenta, acabou pegando uma crise pulmonar e foi baixar no posto de saúde, no dia seguinte, sendo aconselhada a ir para a capital, para prevenir pneumonia.
Nessa noite, Dr. Bronca ficou tão puto, mas tão puto, que quando chegamos de volta ao acampamento, dia já claro, ele cismou que não ia descer do carro, que o deixássemos lá. Assim o fizemos, depois de tirar as chaves do carro, claro. Pois muito bem, assim nos deitamos e adormecemos, sob o rápido efeito etílico, ele resolveu vir se deitar também. Mas, não se sabe por que cargas d’água, ao invés de passar pela porta do barraco, como todo mundo, decidiu passar por uma pequena abertura na parede dos fundos, uma abertura rente ao chão, que mal dava pra passar um cachorro de porte médio. Aliás, essa abertura era justamente a porta usada por Dique, um cachorro que circulava livremente pelo acampamento, nosso mascote, botando a correr ratos e gatos noturnos.
Essa cena me foi narrada pelo cozinheiro que a ela presenciou, estupefato. O Dr. Bronca ficou de quatro e se meteu pela passagem do cachorro. Ficou enganchado. O buraco era de fato muito estreito e resistiu, claro. Ele forçou, forçou, forçou, até que rompeu a resistência, arrebentando umas palhas, e atravessou, jogando-se pra dentro. Quando nos acordamos, ao meio dia, para o almoço e o Dr. Bronca se dirigiu ao banheiro, sem camisa, somente aí, vimos o estado lastimável de suas costas e vimos também muito sangue em sua cama e roupas. E o pior: ele não se lembrava de nada. Se não fosse o cozinheiro, essa história ficaria envolta num mistério indecifrável.
Resultado: tivemos de levar nosso infortunado amante ao posto de saúde, para curativos e vacina anti-tétano. Adivinhem o que aconteceu então!!! Isso mesmo! Ali, na enfermaria principal do posto de saúde, os dois fogosos namorados se viram cara a cara, curtindo o efeito do desastroso desencontro. Olharam-se com a mesma interrogação, visível no ar, a meio metro entre ambos. Ela tentou falar algo, mas teve um acesso de tosse. Ele levantou o braço, mas uma fisgada nas costelas o conteve. Nesse breve segundo, um pequeno drama humano se desenrolou. Nada se falaram. Seus olhares envergonhados desviaram-se. Sem resposta, a interrogação permaneceu no ar por um tempão, até se desfazer, vencida. E cada um seguiu seu rumo, porque os dramas humanos nem sempre têm respostas.
Quando o jovem doutor medicou os incríveis cortes nas costas do Dr. Bronca, nem podia imaginar que acabara de selar o fim tragicômico de uma versão burlesca do mini-romance da Julieta sem tranças com o Romeu desnorteado. Os dois quase-amantes nunca mais se viram. Mas, mesmo assim, Dr. Bronca, quando comentava o episódio, entre um uísque e outro, deixava escapar um suspiro do fundo d’alma, contemplando o teto do boteco:
- Mas foi eterno enquanto durou...
É... E por que não haveria de ser?

quarta-feira, outubro 31, 2007

Filosofando em Goianésia

Todos têm suas manias. Eu também.
Quem trabalhou comigo, nos meus tempos de martelo, sabe que na primeira página de minhas cadernetas de campo, sempre escrevia uma frase estimulante ou filosófica, ou um verso inteligente, ou um ditado popular. Não me perguntem por quê. Como já disse, mania. Para mim, amenizava a leitura de umas tantas descrições insossas de afloramentos. Outras vezes, lá no meio das páginas, inseria a letra de uma música de que vinha tentando me lembrar, há tempos e que, justamente quando descrevia um maciço granítico, me aflorava que era uma beleza. Então, tinha de registrar, e assim o fazia. É engraçado, por exemplo, ler, lá pelas tantas, a seguinte página:

Afloramento RL-115: Margem esquerda do córrego Pindorama. Matacões graníticos com avançada esfoliação esferoidal, cinza-claro, grã média... “Serenata (Capiba): Levo a vida em serenata, somente a cantar. Quem não me conhece tem a impressão de que eu sou tão feliz, mas não é isso não. Se eu canto em serenata é para não chorar...” Textura porfirítica, medianamente alterados, de aspecto homogêneo...

Conseguiu entender?
Mas tergiversei. Quero falar dos textos de abertura das minhas, amareladas e sujas de terra, cadernetas de campo. Meus colegas achavam interessante essa minha mania e às vezes pediam pra ver a “atual”. Certa vez, por não me lembrar de nada que valesse a citação e por falta de material para consulta, sapequei o seguinte verso, numa manhã de segunda-feira de ressaca:

“Páginas limpas,
Imaculado banco:
Sois o inverso
De um cabelo branco (RL)”

Não sei por que cargas d’água, o Adão* se encantou com essa brincadeira poética e depois de copiar para a sua caderneta, atentou para o RL e se admirou:
- Não vai me dizer que o verso é seu!!!
- Claro que não! Quem me dera ter tão elevada inspiração!
Como eu sabia que o Adão era tão ignorante em matéria de filosofia quanto eu, soltei esse verdadeiro crime de lesa-cultura mundial:
- Esse verso é do grande filósofo e poeta pré-revolucionário francês, Regis de Lion. Já ouviu falar?
- Claro... Isso é dele? Esse verso eu não me lembro de ter visto... Mas é de uma beleza lírica tocante.
Ah! Frágil natureza humana!
Nunca desfiz a mentira e nunca mais voltamos ao assunto, de modo que, para todos os efeitos, Regis de Lion povoou, por algum tempo, o universo romântico do meu amigo. Isso é real, não é nenhuma mentira.
Outra vez, estava na cidade de Goianésia, em happy hour com os anfitriões da mineradora Unigeo, na varanda elevada de uma dessas casas típicas de interior, com jardim na frente. Enquanto deliciávamos uísque, cerveja, cachaça de Minas, tira-gostos e canapés, resolvendo os problemas do mundo, uma algazarra na rua chamou-nos a atenção. Um bando de meninos provocava um desses doidinhos que tem em todo o interior, com palavras de ordem que faziam o ofendido brandir impropérios e avançar sobre a turba, que, por sua vez, se deliciava e redobrava as ofensas.
O doidinho era uma figura de idade indefinida, barbuda, esquelética, cabelos negros desgrenhados, torso nu, calça amarrada na cintura por uma corda. Depois que escorraçou a garotada com um pedaço de pau e com a intervenção de um dos pais, ficou imóvel, sob imensa mangueira da alameda, cofiando a barba e olhando para o céu, como se tentasse distinguir algo especial, de difícil visibilidade. Após um bom tempo nessa contemplação, baixou as vistas e passou a contemplar o chão a seus pés. Nessa posição se demorou mais outros tantos minutos e, por fim, saiu caminhando calma e lentamente, atravessando a rua em nossa direção. Era tão magro que dava pra contar suas costelas.
Em frente à casa onde nos achávamos, havia um tambor de lixo, sob um fícus de copa larga e sombrosa. Ali, bem na nossa frente, que o olhávamos do alto da varanda, o doidinho fez nova parada contemplativa, fixando o lixo. Depois do exame externo do conteúdo, com a vara que espantara as crianças, remexeu-o profunda e longamente, como se procurasse algo específico. Revirou tudo, com meticulosa atenção. Em determinado momento, debruçou-se sobre o tambor e aspirou o cheiro exalado. Repetiu o gesto várias vezes e, por fim, virou-se em nossa direção. Anunciaria o veredicto do exame.
Mirou-nos sem pressa, sem deixar de cofiar a barba. Avaliou cada um de nós, com um olhar superior e perscrutante. Quando julgou-nos convenientemente avaliados, posicionou-se como um orador no púlpito, brandiu a vara na mão direita e falou, alto e bom som, como moderno Conselheiro:

“Estão jogando gente no lixo. Precisamos organizar essa limpeza.”

E mais não disse e nem foi preciso. Com seus passos calmos subiu a rua e desapareceu. Foi filosofar em outra freguesia. Mas suas palavras ficaram ali, ecoando em nossos ouvidos. E não sei dizer por que, as gravei indelevelmente e as transcrevi para a abertura de uma das minhas cadernetas, colocando entre parênteses as inicias DG. Para mim, significavam Doidinho de Goianésia. Mas, quando o Adão viu e se maravilhou e perguntou quem era DG, não resisti:
- Essa frase é do grande filósofo grego pré-socrático, Diógenes de Gorgias. Claro que você conhece, né?
- Claro, claro. Mas, sinceramente, é uma das reflexões mais profundas que já vi sobre a natureza humana.
Adão passou para o andar de cima, sem que eu tivesse a oportunidade de desfazer mais essa pegadinha lítero-filosófica. Quando nos reencontrarmos, tenho certeza de que ele me perdoará.
Por minha vez, confesso que inúmeras vezes me debrucei sobre essa máxima, sem conseguir extrair, por inteiro, seu real significado. Porém, algo lá no fundo me diz que há nela uma sentença filosófica muito acima da minha capacidade de entendimento. Sinto-me aliviado hoje, quando revelo o esquelético frasista de Goianésia, compartilhando a lição que ele tentou nos passar, naquele inesquecível fim de tarde. E ainda longe de alcançar sua mensagem, pergunto-me, do alto da minha pequenez: afinal, nessa sociedade de valores voláteis e volúveis, quem é doido e quem é normal?
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* Nome fictício

terça-feira, outubro 16, 2007

O Sonho de dona Alquinã

De todos os tipos de jornada de campo, nada há que se compare, em desgaste e aventura, ao trabalho que exija avançar e acampar todos os dias. Isso acontece pela injunção de dois fatores: inviabilidade da área e escala de trabalho. Todos os dias levantando acampamento de manhã e baixando no final da tarde. Primeiro, há que se ter uma logística complexa, com uma equipe só para coordenar o deslocamento. Segundo, o geólogo tem de prever o local do possível acampamento, sem nunca ter estado na área, passar a localização para a equipe de rancho e programar seu perfil, de modo que tudo bata no final da tarde, sem atropelos. Uma bobeira, e a confusão estará instalada, o desencontro consumado. E tudo isso a pé, levando a tralha nas costas. Evidentemente, nem tudo sai como planejado. Surpresas acontecem com freqüência.
Foi assim, numa campanha desse tipo, que um dia chegamos a um rancho de palha, tipo oca indígena, bem no sopé da serra do Cabeças, na tríplice divisa Bahia, Goiás (hoje Tocantins) e Piauí, às margens de soberbo riacho de águas cristalinas e geladas. Além da minha equipe, de geologia e recursos minerais, havia a turma da geoquímica, comandada pelo Adão*, que Deus o tenha! Marcou-me muito esse dia, porque era véspera do meu aniversário. Como já estávamos no limite da área, resolvemos fazer base ali pelos dois dias seguintes, pois não havia a menor condição de levar o acampamento para o alto da serra, tanto pela dificuldade logística, quanto pela improdutividade de tal sacrifício, já que seu topo mais se assemelhava ao deserto do Saara. De sorte que, depois de vários dias, iríamos dormir duas noites seguidas no mesmo local e isso precisava ser comemorado. E o pretexto foi meu aniversário.
Antes de prosseguir, apresento-lhes o casal seu Jove e dona Alquinã. Pelo menos, foi isso que entendi e é o que tenho registrado em meus apontamentos. Dois caboclos de idade indefinida, certamente descendentes de índios, pelas feições e costumes. Precocemente envelhecidos, mas ambos ainda muito saudáveis. Ele, de uma cordialidade quase servil, torso nu, sorriso sempre presente no rosto vincado pelo sol. Ela, tímida, mas gentil, chitas mínimas sobre um corpo magérrimo, uma longa trança no cabelo, cachimbo na boca, uns olhos de ciganos e a pele de bronze, cobreada pelo sol do Centro-Oeste. Dos filhos, pouco posso dizer. Nem sei quantos eram. Sei que eram muitos, a maioria do sexo masculino e certamente menores de dez anos. Quando ouviram o barulho de nossa aproximação, correram para os matos, nos contou seu Jove. Usavam algo indecifrável entre um calção frouxo e uma tanga. Ambas as mãos cobrindo os rostos, levaram todo o tempo de nossa presença ali, a sorrir, nos apontando.
Moravam numa espécie de praça, uma clareira no cerrado denso, bem no pé da serra. Criavam porcos domésticos, caititus, capivaras e aves de todo tipo, inclusive patos e guinés. Alimentavam-se de sua cultura de subsistência: mandioca, milho, feijão e derivados. Sazonalmente, colhiam pequi, cajuí, mangaba, puçá, catolé, ouricuri, manga e cagaita. Não dependiam da cidade pra nada.
Já havia um procedimento padrão para a montagem desses acampamentos relâmpagos. Em questão de minutos, os peões cortavam forquilhas e varas e com a ajuda de lonas e palmas, improvisavam um imenso galpão, onde toda a equipe, de uma dezena de pessoas, estendia suas redes. Outro barraco menor era montado, para a guarda do material e a cozinha.
Na primeira noite, ficamos surpresos quando seu Jove trouxe uma rede e se aboletou conosco, contando casos e dando risadas até tarde. Éramos a primeira visita que ele recebia, em meses, e não deixaria passar a ocasião, sem tirar dela o máximo proveito. Na conversa dessa noite, ele disse que dona Alquinã cozinharia para nós e que não nos preocupássemos porque ela conhecia todos os segredos da boa culinária. Claro que não falou nessa linguagem.
No outro dia cedo, deixamos os insumos culinários com dona Alquinã (arroz, charque, óleo e sal) e nos mandamos para enfrentar a serra do Cabeças. Levei os cozinheiros também, já que eles estavam de folga da cozinha. Querendo me surpreender, Adão entregou à nossa cozinheira uma lingüiça especial, do interior de Minas, que ele trouxera especialmente para esse dia. Era pra ela preparar à tarde, na nossa chegada. E assim se deu.
Cinco horas da tarde, logo que chegamos, Adão reuniu todos no centro do barraco, ofertou um garrafão de cachaça, do qual nunca se separava, cantou Parabéns e mandou vir os quitutes, antes do jantar.
Primeira surpresa: o que de manhã era uma apetitosa lingüiça vermelha era agora uns gravetos escuros, irreconhecíveis. Olhamos “praquilo”, olhamos uns para os outros e a cachaça começou a rodar. Como Adão era prevenido, não perdeu tempo. Deixou que a família anfitriã devorasse os “gravetos” e abriu umas tantas latas de sardinha, de sua reserva especial, temperando com farinha e pimenta. Verdadeiro manjar dos deuses naquelas circunstâncias. Estava salva a festa.
Mas, tudo que é bom dura pouco. Fim de festa, hora do jantar. Segunda surpresa: o arroz estava com um aspecto esverdeado, pastoso, bem diferente do que estávamos acostumados. Pra falar a verdade, o gosto não era ruim, mas era muito exótico, um tanto amargo. Enfim, o tempero era algo completamente novo para nós. Com diplomacia fomos esclarecendo as coisas.
O fato é que dona Alquinã usava seus próprios temperos. Óleo era banha de porco ou caititu e no mais, jogava umas folhas na panela que tinham a função de salgar e dar o sabor exótico. Não usou o sal. Ela não deixava o arroz secar completamente, segundo disse, para “guardar” mais o tempero. Até os ovos que nos preparou de manhã, foram fritos em óleo artesanal de pequi, daí termos estranhado o sabor, mas, verdadeiramente delicioso.
Pois é. Aquela família vivia ali isolada do mundo. Tinham vizinhos sim, outros grupos familiares espalhados pelo pé da serra do Cabeças. Estavam perfeitamente situados no calendário. Costumavam fazer encontros festivos e algumas vezes iam à "cidade" – Almas, um povoado remanescente de quilombo a 20 km dali – vender excedentes de mandioca e farinha e comprar roupas, basicamente.
Conforme planejado, dois dias depois era hora de levantar o acampamento. A turma da logística saiu, mal o dia clareou. As equipes técnicas deram um tempo e quando finalmente chegou nossa hora, chamei dona Alquinã e seu Jove, para lhes pagar duas diárias de cozinheira e guia local. Para minha surpresa, eles se sentiram ofendidos e não quiseram receber de jeito nenhum. Tinha sido um prazer nos receber em seu rancho e só lamentavam por não ficarmos mais tempo. Mas, diante da minha insistência, dona Alquinã me fez uma proposta, surpreendendo seu Jove e me comovendo bastante.
- Seu Reginaldo, dinheiro eu não aceito porque isso aqui pra nós não tem valor nenhum. Mas se o quiser me dar um presente eu aceito.
- Claro. Dona Alquinã, pode pedir.
Falei aquilo quase maquinalmente, sem atinar com o que ela pudesse querer. Num átimo, pensei no meu relógio, no rádio portátil, ou algum equipamento de cozinha. Vi que todos estavam surpresos e curiosos, principalmente seu Jove, que lançou um olhar de reprovação pra esposa. Naturalmente, ele não tinha a menor idéia do que se passava na cabeça da mulher. Esta, com uma timidez tocante, as vistas baixas e as mãos juntas, nervosamente na frente, declarou, finalmente seu desejo:
- Bom, desde que casei, eu sempre quis ter uma toalha de banho bonita, como uma que comadre Marta tem... Vi a toalha que o senhor estendeu na cerca, achei linda e se quiser me dar, será a realização de um sonho, mas se não puder não tem nenhum problema.
Antes de responder que claro, que lhe daria a toalha, refleti sobre a relatividade dos valores. E agradeci a Deus, por poder realizar um sonho.
Dei minha toalha a dona Alquinã e nunca vou esquecer o brilho dos seus olhos, quando me agradeceu e o modo como saiu com o presente sobre o peito, cheirando e acariciando seu sonho. Adão, na seqüência ofereceu a dele a seu Jove, que não teve o mesmo entusiasmo, mas ficou agradecido também.
E partimos para as agonias do novo dia, deixando pra trás aquela gente esquecida das estatísticas.
Dizem que a felicidade são momentos. Pois naquele 04 de outubro de 1979, seis e trinta da manhã, eu vivi essa experiência fugaz. Na última volta da trilha, olhei pra trás e vi dona Alquinã, no terreiro do rancho, com a toalha estendida sobre o corpo, sorrindo e passando a mão no tecido felpudo, como uma garotinha curtindo sua primeira boneca. Parecia em êxtase e talvez até estivesse mesmo. Vi um momento feliz, minha amiga e meu amigo. Tenho as sambaíbas, os pequizeiros e as escarpas da serra do Cabeças por testemunhas. E mais não precisa.
Existirão ainda a toalha, dona Alquinã e seu Jove? Não sei. Nunca mais voltei àquele fim de mundo. Mas sei que aquele fim de mundo nunca saiu de minhas gratas lembranças. E agradeço a Deus o privilégio de ter sido geólogo de campo e de conhecer um pedacinho de Brasil que o Brasil nem desconfia que existe!

quarta-feira, outubro 03, 2007

Estúpido espelho

Ontem fiz aniversário.
Sabe quantos?
Muitos! Muitos anos...
Tantos, que já não os conto mais nos dedos.
Mas, enfim, hoje acordei mais velho.
Se mais não fosse, o espelho não mente.
Bigode chinês, pés-de-galinha, rugas na testa,
E os teimosos fios grisalhos...
O inatingível Tempo a nos lembrar
A finitude e a urgência da Vida.
Na verdade, tenho um ano menos de vida.
E o que isso significa?
Não sei... Quem saberá?
Eis a pergunta que rola,
Desde o tempo das cavernas
Afinal, qual é o grande Mistério?
Qual é o fio que liga passado, presente e futuro?
O espelho me cobra.
Não sei se vivi bem, se mal vivi... Não sei.
Se me permitem,
Tenho sido um desastre.
Não que tenha feito planos mirabolantes,
Mas sempre vivi papéis chinfrins,
Em histórias alheias.
Nunca fui protagonista...
Fingindo aqui, ajeitando ali,
Tocando em frente... É isso.
Ao sabor dos ventos,
Mascarando as frustrações nos vapores das noites insones,
No calor do trabalho insano,
Na frieza de amores mundanos.
Mas tergiversei e a pergunta não quer calar:
“E a vida, o que é, diga lá meu irmão?!”
Não sei se o poeta obteve a resposta.
Cá pra mim, sou cheio de dúvidas,
Mas vejo a natureza tão bela e tão simples,
Os animais sem complicação, seguindo seus instintos.
Vejo a beleza do pôr-do-sol e do amanhecer,
E pressinto que o grande Mistério está aí, à nossa vista,
Bem à nossa frente.
Mas não para ser desvendado,
Esse é o Segredo.
O Mistério da vida é para ser sentido, respeitado.
Entendê-lo, decifrá-lo, não é da nossa competência,
Que não somos deuses.
A inteligência devassa os reinos da ciência;
O instinto ratifica as leis atávicas da evolução,
Mas só a intuição explora o campo dos sentimentos superiores,
Carentes de lógica, para a inteligência,
Inalcançáveis para o primarismo dos instintos.
Então retorno ao começo:
Hoje estou mais velho,
Isso é bom ou ruim?
Não sei.
Venci um câncer,
Mas a que custo?
Tudo tem um preço... Não me iludo.
E daí? A pergunta persiste.
Meus instintos só retornam indiferença.
Minha inteligência pede insumos que não tenho,
Logo, ela não processa.
Mas minha intuição se apresenta.
Ela diz que as rugas e os fios grisalhos
São ponteiros do relógio,
Não do tempo que se foi,
Mas do que falta.
São alarmes a me inquietar:
O que és?
O que queres?
Que fizeste?
És feliz?
Que te falta?
Vai à luta, que o dia de hoje pode ser o último!
Queixas-te da tua vida e o que fizeste para mudá-la?
Escreve tua história, cara!
Reage! Ainda é tempo!
....................................
Mas, como dizia, ontem fiz aniversário.
E cortei um bolo,
E soprei muitas velas,
E bebi muitas cervejas,
E me embriaguei de brigadeiros,
E me empapei de empadas,
E me atochei de coxinhas,
E quando todos se foram,
Dormi como um tronco,
E ronquei como um bronco,
E acordei morto,
De certeza, todo torto,
E corri ao banheiro,
E me vi no espelho
E perguntei:
- Amigo, amigo meu, como estou?
E ele, cruel e gozador:
- Um barrigão imenso,
- Uma ressaca infeliz,
- Mas essa afta na ponta da língua está um charme!
.........................................
Quantos anos fiz?
Muitos! Muitos anos...
Tantos, que já não os conto mais nos dedos.
O passado ficou debaixo dos meus segredos.
O futuro se esvai nos cachos dos meus cabelos.
E o presente é o escracho desse estúpido espelho.

Brasília, 03/10/2007