quinta-feira, janeiro 17, 2008

Pessoa tinha razão

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”
Fernando Pessoa


De tanto fingir que é dor
A dor que deveras sente,
O poeta, na verdade,
Vive em desrealidade:
Pensa que nega o que mente,
Nega que mente o que sente:
Um nudista em seu pudor.

Amanhã é seu presente,
Passado é seu amanhã,
Presente é fé e um divã.
Seu tempo é um relógio ausente,
Sua arma é o tiro no peito,
A virtude é seu defeito.

Julgando sentir rancor,
Ignora a flecha da dor
Do amor que o peito ressente.
Pessoa tinha razão,
O poeta é um falastrão,
Que sente tudo o que mente.

Rio, 17/01/2008

sábado, janeiro 12, 2008

Pezão e os javés pigmeus

Estava eu posto em sossego no acampamento de Palmeiróplis, num fim de tarde melancólico de domingo, ainda curtindo a ressaca da noite anterior, quando me anunciam:
- Doutor! Tem um rapaz aí procurando emprego. Diz que é cozinheiro.
Se é um cargo para o qual sempre há vagas num acampamento do tamanho do nosso, é cozinheiro. Primeiro, porque o ofício em si não é fácil. Falta mão-de-obra qualificada. Segundo, porque peão prefere mil vezes a foice ao fogão, por causa do horário de trabalho. E terceiro, porque é necessário equipe de reserva para revezamento, já que os coitados trabalham praticamente 24 horas por dia. De sorte que mandei chamar o candidato para uma entrevista.
Dali a dois minutos me entra um gigante de quase dois metros de altura, espigado e todo desajeitado, com uma camisa rasgada, calção surrado, feições rudes de caboclo e um detalhe especial: seus pés, descalços, eram abertos num ângulo de seus 60 graus, tipo os ponteiros do relógio marcando 10h10. Um saco sujo às costas constituía sua única bagagem.
Me deu vontade de rir daquela figura desengonçada, mas cumprimentei, com cortesia:
- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Qual seu nome?
- Pezão.
- Pezão? Pezão não é nome, é apelido.
- É, mas não tem importância não, sô! Todo mundo me chama assim, por causa do meu pé 46. Olha pro senhor ver!
Assim falando, levantou um pé enorme, cheio de cravos, que, na minha ligeira avaliação, era mais do que 46.
- Mas me conte senhor Pezão, o senhor sabe cozinhar mesmo? Já cozinhou em acampamento pra muitas pessoas?
Então, ele me contou curiosíssima história, que agora compartilho com vocês.
Até dois meses antes, trabalhava num acampamento da Vale do Rio Doce, em um local chamado Caseara, às margens do Araguaia, no então estado de Goiás. Era um acampamento pequeno, com dois geólogos e uma dezena de peões. Ele era o único cozinheiro, muito querido pelo pessoal, a quem acompanhava já há dois anos.
A vida transcorria monótona e sem graça, pois, segundo seu relato, a turma saía bem cedo, ele aprontava o almoço e ficava o dia todo na rede, até o meio da tarde, fim do expediente de campo. Nada de novo acontecia, a não ser raras visitas de pescadores que vagavam pelo rio, ou garimpeiros perdidos, pedindo informações. Dias e mais dias nesse marasmo. Uma solidão de doer.
Pois bem, um belo dia, pra seu infortúnio, essa rotina foi quebrada, mas antes não tivesse sido! Estava lá nosso amigo em sua bucólica rede, quando seus ouvidos, acostumados aos sons da mata, captaram estranho ruído.
- Uma anta? Uma capivara?
Perscrutou os arredores, mas não conseguiu identificar ao certo de onde vinham os sons. Poderia ter sido também só uma rajada doida de vento. Assim, despreocupando-se, voltou a se deitar. Melhor seria se tivesse ficado vigilante!
Dez minutos depois, novo roçar de folhas e galhos, mas de forma muito sutil. Não parecia de bicho conhecido. Como se fosse vento mesmo, mas vindo de todos os lados? Ao mesmo tempo em que se viam galhos balançando ao norte, se viam também ao sul, ao leste e oeste. Mas nada à vista. Só a impressão de passos cautelosos e invisíveis. Meio ressabiado, passou a mão na espingarda, botou na beira da rede e voltou para seu bem-bom e fechou novamente os olhos. Foi seu erro fatal.
Ao ouvir passos no terreiro, já dentro do acampamento, deu um salto da rede, mas sua arma não estava mais lá. Pra seu espanto e pavor, cerca de 20 criaturas pequenas, de seus 1,50 m de altura, porém muito fortes e mal encaradas, seminuas e de borduna nas mãos, o cercavam por todos os lados, fechando o círculo, pouco a pouco, ao seu redor.
- Doutor! O medo foi tão grande que eu nem sei direito o que fiz. Acho que borrei as calças e saí correndo, mas os desgraçados não me deixaram dar nem cinco passos! Esbarrei numa parede humana e quando vi, estava amarrado de embira, pé e mão, sem direito a um pio sequer. Os infelizes não disseram uma palavra. Simplesmente me amarraram e me puseram em pé, bem no meio do terreiro, parecendo uma estátua, com três cães de guarda ao meu redor.
Até aí, nosso amigo tinha sofrido apenas agressão psicológica, imobilizado e sem ter a menor noção do que aquilo significava. Intrigado, assistiu a uma espécie de conferência das lideranças, num palavrório alterado, entre algumas risadas. Volta e meia apontavam para ele e a discussão retomava, acalorada.
Finalmente, decorrida meia hora, parece que os conferencistas chegaram a um consenso. Abraçaram-se e puseram as mãos umas sobre as outras, no centro da roda, como um compromisso de solidariedade. E então, a um sinal do que parecia ser o líder maior, todos os pigmeus colocaram-se em fila e se dirigiram à estátua, isto é, ao nosso amigo imóvel, de borduna em punho. E o espancamento começou. Cada um que passava por ele, descia-lhe a borduna sem piedade e de forma alternada: na batata da perna, na coxa, na bunda, nas costas e no peito. Sem proferirem uma palavra sequer. Batiam e davam vez ao seguinte, como um ritual respeitoso. Preservaram a barriga e o rosto, numa clara demonstração de que não desejavam matá-lo, mas apenas dar-lhe uma surra.
As primeiras pancadas, apesar de doídas, eram suportáveis, me garantiu o interlocutor, mas quando vieram as superposições sobre a carne já macerada, na agonia de não poder se defender, um horror tão pavoroso o dominou, que se transformou em muito mais que dor lancinante. Segundo ele, era a própria sensação das torturas infernais, o corpo e alma no limite do sofrimento. Até que desmaiou.
Acordou livre das amarras, dentro da rede, após um tempo que estimou em no máximo uma hora. Ainda com o pavor nos olhos e na mente, a única coisa que fez foi sair correndo, desesperado, pela estrada, apenas com a roupa do corpo e sem saber direito o que estava fazendo. Andou mecanicamente pela estrada deserta, sem parar. Escureceu por completo e nem a noite cerrada o deteve. Garantiu-me que não sentia dor, nem fome nem sede. Apenas medo... Um medo maior do que qualquer outra sensação.
Somente ao alvorecer encontrou uma alma piedosa, num povoado chamado Barrolândia. Ali, recebeu a primeira assistência: café quente e um catre pra dormir. Ao acordar, cercado de curiosos, contou sua desventura e ficou sabendo tratar-se de uma dissidência da tribo Javaé, se não me falham os neurônios, oriunda da ilha do Bananal, que costuma fazer incursões em fazendas para saquear e amedrontar os moradores.
Logo chegou um carro da Vale, que o levou até Guaraí, onde recebeu tratamento médico num posto de saúde – ele era um hematoma ambulante. Todo o dinheiro que recebera, gastou com medicamentos, de modo que botou, literalmente, seu pezão na estrada e caminhou durante dois meses, ininterruptamente, com o objetivo de chegar em Goiânia. Nesse meio tempo, sobrevivera da caridade alheia e de pequenos bicos em restaurantes, postos de gasolina, borracharias, etc.
Em Santa Teresa, lhe falaram do nosso acampamento e ele resolvera arriscar, após certificar-se de que por ali não havia nem resquícios de índios.
- E é essa a minha história doutor.
Uma grande compaixão me invadiu. Não sei se o achava frágil ou forte, mas apenas vi um ser humano em busca de socorro, com muita dignidade. Lembrei-me de uns versos de Gonzaguinha, sobre a condição humana:

Eta mundo que a nada se destina!
Se maior se faz, mais se arruína,
Se mais quer servir, mais nos domina,
Se mais vidas dá, são mais os danos,
Se mais Deus lhes dá, mais são profanos.
Esses pobres de nós, seres humanos
!

Pezão ficou conosco pouco tempo, pois não era muito chegado a hábitos de higiene e entrou em conflito com o chefe Cabelo. Tinha a mania de cuspir nas mãos para pegar nos cabos das panelas. Tentei levá-lo para abrir picadas, mas não conseguimos botas que lhe coubessem nos pés desmedidos.
E assim nossas histórias se separaram. Mandei deixá-lo em Santa Teresa e nunca mais soube dele e agora me dou conta também de que nem cheguei a saber seu verdadeiro nome. Para mim será simplesmente Pezão, uma lembrança, entre tantos dramas humanos que se cruzaram com os meus, nesses sertões esquecidos do mundo. Mas inda lembro seu sorriso amarelo, quando dizia:
- Doutor! O pior da surra era o gosto de sangue na boca, quando a borduna batia no meu peito.
É... Quem já foi torturado sabe o que isso significa.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Inesquecível visita do Home

Anunciaram que o Home vinha visitar o acampamento. Grande alvoroço. Por toda parte se ouvia o bochicho:
- O Home vem aí!
Mandaram consertar a cerca, capinar a área de servidão, limpar o campo, aplainar o estacionamento, pintar os barracos, reparar a estrada de acesso, enfim... O Home ia chegar e tudo teria de estar nos trinques.
Corria, a boca pequena, que o Home era candidato fortíssimo a presidente da Empresa. Tinha de ser tratado a pão-de-ló.
E finalmente ele chegou. Era um domingo. O chefe do projeto, muito amigo do Home, o levou para um churrasco, às margens do Mocambão. Coisa selecionada... Poucos convivas, só os mais chegados.
O Home enfiou o pé na jaca, isto é, na pinga de cabeça, vinda dos alambiques da região, pouco menos que absinto. Me conseguiram um violão e o samba rolou sereno. O Home era bom de batuque. Pegou um espeto e uma frigideira e improvisou curiosa e original marcação.
Lembro-me bem que por volta de 11hs ele começou uma brincadeira de jogar areia no chefe do projeto e este, revidando, acertou um técnico, que jogou um torrão no motorista, que deu um chute na bunda do peão, que acabou enchendo a churrasqueira de terra e o churrasco virou uma zona, todo mundo bêbado e o Home achando a maior graça. Lá pelas tantas, ele puxou outra brincadeira de subir num barranco, deitar-se e rolar para dentro do rio, como um tapete de terra e areia. E todo mundo foi atrás, imitando-o, claro. Quando o óculo dele caiu nas águas sujas do Mocambão, foi um Deus nos acuda. Era bêbado mergulhando às tontas pra todo lado. Teve um que ralou a cara toda nas pedras. Alguns nem sabiam o que estavam procurando. Até que o motorista falou:
- Ih!! Pisei em cima! Senti um creck!
De fato, o óculo do Home virou dois cotocos de pernas, que o motorista pendurou em cada orelha, fazendo gozação. Mas o Home era prevenido e tinha mais dois de reservas. Afinal, ele tinha (ainda tem, na verdade), um grave problema numa das vistas, perdida ainda na juventude, ao que se comenta. Sem óculos, era um cego completo.
O diabo foi que, às 16hs, quando o grupo de bêbados retornou ao acampamento, empanturrado de cachaça, churrasco e areia, o racha dos peões corria solto no campo de terra e o Home cismou de jogar também. Valha-nos Deus! E agora? Colocaram-no de centroavante, mas sem óculos, por segurança. Nem me lembro de onde saíram as chuteiras que lhe arrumaram. Todos se riam muito de suas pernas muito finas. Pareciam dois cambitinhos.
Devido à sua visão monocular, o Home não tinha noção de profundidade acurada e por isso, nunca conseguia acertar a bola, acabando sempre por se esborrachar no chão de terra batida, a cada furada homérica, para deleite dos peões. Até que, após uma queda mais séria, em que seu nariz começou a sangrar, resolveram tirá-lo de campo. Salvo engano, nos 30 minutos em que atuou, ele não conseguiu tocar na bola uma única vez. Salvo engano, claro!
Devidamente medicado pelo paramédico do acampamento, o Home foi dormir sem jantar e sem tomar banho, só acordando na segunda, para início de sua visita oficial.
Na quarta de manhã, já satisfeito com o que vira, o Home resolveu antecipar seu retorno, pois Brasília o aguardava para contatos importantes. De carona, embarcaram o chefe do projeto, este que vos fala e mais dois técnicos que já estavam há mais de 30 dias no campo. Viagem monótona, mais de 500 km, por estradas horrorosas. Para animar o clima, uma pinguinha de cabeça não faria mal a ninguém, menos ao motorista, claro. E o Home, mais uma vez, enfiou o pé na jaca, isto é, na boca da garrafa. Muito criativo, depois do décimo gole, propôs interessante brincadeira: cada um deveria dizer um sinônimo de “vagina”. A vez corria em roda, tipo mesa de baralho e o que demorasse mais de 30 segundos para apresentar um sinônimo, tomaria um gole. E o jogo começou. Ninguém demorava mais de cinco segundos. E foi nome do arco da velha, nome que ninguém nem imaginou que existisse. Quando a dúvida batia, todos tinham de opinar se aceitavam ou não. Tipo um júri. E assim foi.
Até que o repertório foi minguando. Duas horas depois, o primeiro titubeio:
- Peraí... Lembrei! Biri!
- Biri?!! Não, biri não vale!
- Vale sim! Lá na minha cidade é assim que as meninas chamam.
Consultado, o júri aceitou e o jogo prosseguiu. Uma hora depois:
- Chumbica!
- Não! Chumbica é demais! Isso é invenção, onde já se viu comer uma chumbica?
Mas o júri era generoso e acabava aceitando tudo. E assim passou-se toda a tarde e o jogo só acabou quando a terceira e última garrafa secou.
- Ah! Assim o jogo não tem graça!
Também já estava perto da capital e o jogo foi considerado empatado, com todos bêbados e enriquecidos com um vasto acervo vagino-cultural. Pra encerrar a viagem no clima, o Home cantou uma musiquinha em italiano, cuja letra, isto é, a pronúncia, jamais esqueci:

"Mama, me sinto prenha,
Filha, quem te há prenhato?
Mama, sei um soldato,
Que há sacato a camisola
E há enfiato la pistola.
Ma filha, per que deixato?
Mama, per que gostato.
Filha, agüenta o galho
E daltra volta no te metas com o caralho"

Se o Home veio a ser o presidente da Empresa?! Bem, aí já é outra história. Como dizia um amigo boliviano:
- No le digo si, pero no le digo que no. Quem sabe?
Mas o Home taí, vivinho da silva, pra confirmar tudinho.

Bloquinho de rascunho

Primeiro de janeiro...
Meu primeiro pensamento,
Meu primeiro juramento:
Hei de amar-te o ano inteiro.

Eis meu primeiro registro,
Pra inaugurar o caderno:
Te amo de verão a inverno,
Palavra do teu ministro.

Eis do que logo me lembro
E nisso, sei, não me engano:
Hei de amar-te, neste ano,
De janeiro até dezembro.

Não faço plano distante,
Mas meu primeiro sonhar
Neste ano é continuar
A ser teu poeta-amante.

O beijo do carnaval,
Guardarei em minha boca
Pra devolver, coisa louca,
Num beijinho de Natal.

Paramirim, 01/01/2008

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Dez metros fatais

Era um fim de noitada naquela cidade do interior paraense. Caminhava pela rua de terra vermelha, ainda atordoado de tanta bebida e farra. A noite tinha sido boa, mas já era dia claro. Dirigia-me, sonolento, mas sóbrio, ao jipe que me aguardava, adiante, para retornar ao acampamento.
De repente, notei um homem, sentado na guia da calçada, com o rosto entre as mãos. A princípio, julguei tratar-se de mais um bêbado, mas, ao me aproximar, percebi que ele chorava convulsivamente, em soluços entrecortados.
Meio constrangido, passei por ele, mas um súbito sentimento de compaixão me tomou e eu voltei, devagar, até tocar levemente seus ombros, já que ele não levantava a cabeça.
- Desculpe amigo! Mas posso fazer alguma coisa? Por que chora tanto?
Um rosto de seus 40 anos olhou-me, com surpresa, examinando-me como se ouvisse e não me visse. Um olhar de pura dor. Barba espessa, meio grisalha, vincos de sofrimento visíveis nas feições precocemente envelhecidas, lábios comprimidos, no esforço de conter o pranto. Quase me agradecendo, falou com infinita amargura:
- Ninguém pode me ajudar, amigo É muito grande a aminha dor!
Havia tanta dignidade em sua recusa, que restou no ar apenas o eco de uma decisão definitiva, inquestionável. Ainda assim, insisti:
- Precisa de algum dinheiro? Sente dor? Gostaria de tomar um café?
Acho que não foram exatamente essas minhas palavras, mas foi certamente o que eu gostaria de ter perguntado.
Novamente ele me olhou, por breves segundos e sua expressão de dor pôs um ponto final em minha impertinência. Sem outro comentário, ele apenas gemeu:
- Ai! É muito grande a minha dor!
E retomou seu lamento compungido.
Absolutamente desconcertado, afastei-me, em respeito àquele choro digno, que não queria outra coisa, que não fluir, como água na cachoeira.
Vinte metros adiante, meu carro me aguardava, com dois companheiros dormindo a bordo. Eu era o último retardatário. Mas, enquanto caminhava, com as mãos nos bolsos, a imagem e o som da cena de há pouco me afligiam, como espinho no pé, incomodando, exigindo atitude. Minha compaixão desdobrou-se em motim de sentimentos. Não se pode deixar um homem assim, aos prantos, no meio da rua, à mercê de tamanha dor. Em segundos, me vieram à mente os temores daquela noite nas dependências do DOI-CODI... O quanto eu não teria gostado se recebesse a solidariedade de alguém!
Instintivamente me voltei. Havia uma resolução irremovível em mim. Porém, para meu espanto, embora eu tivesse andado meros dez metros, a calçada estava vazia. O homem não estava mais lá, nem em qualquer outro ponto à vista.
Confesso que aquilo me atordoou ainda mais. Onde diabos se metera? Procurei nas ruas vizinhas, nos botecos ainda abertos, mas... Nada. Simplesmente ele desaparecera.
Já no carro, contei o ocorrido aos companheiros, mas eles juraram não ter visto ninguém ali.
Foi tão chocante o impacto daquele encontro-fantasma, que nem consegui dormir, ao chegar ao acampamento. A dor daquele rosto barbudo não me saia da visão, nem seus soluços, nem sua descrença.
Mas, existira mesmo tal homem ou teria sido imaginação de minha mente ressacada? Poderia ter sido apenas uma ilusão, aquela cena inesquecível? Efeito inconsciente de uma noite de esbórnia?
Anos depois, em conversa com psicólogo amigo, fiquei sabendo que sim, que, em certas circunstâncias, a mente pode criar cenas que nos iludem, principalmente sob o efeito de drogas, o que não foi o caso, juro.
Por mim, não acredito nisso e lhes afirmo que o tal homem era de carne e osso e se o visse ainda hoje, o reconheceria.
O fato, contudo, é que, por mais que tenha indagado, nunca obtive uma única pista do tal chorão. Sei que a tela do tempo embaça a visão, mas não os sentidos da alma. A dor do rosto de um homem rude jamais se esquece.
Mas nada disso vem mais ao caso. Ter existido ou não, não importa mais. Importa é que aprendi uma lição. Quando tiver oportunidade de ser solidário, não leve dez metros para decidir. Dez metros podem ser fatais. Podem causar um vazio, uma incerteza que te acompanharão pelo resto da vida. Dez metros podem te deixar uma interrogação na alma, como a cicatriz de uma facada na barriga. Irremovível.
Como já disse, para mim tornou-se irrelevante a dúvida das pessoas, sobre a existência do meu amigo chorão. O que me mata hoje é não poder responder à seguinte pergunta:
- O que aconteceria se eu apenas tivesse me sentado a seu lado e permanecido ali até poder fazer algo? Estaria aqui contando esse causo?
O que me aflige são as minhas dúvidas e não as dos outros.

domingo, dezembro 09, 2007

Homem-anta

O acampamento ficava na beira de um córrego com densa mata ciliar, no coração da Bodoquena, Mato Grosso, ano da graça de 1975, se não me falham os neurônios. Quase 17h00, as equipes de campo já tinham regressado, menos uma, a do Gilsinho*.
De repente, o silêncio do entardecer bucólico do cerrado foi quebrado. O barulho indicava que um bicho de grande porte avançava pelo córrego, aproximando-se do acampamento. A um sinal do chefe do projeto, dois peões empunharam as espingardas calibre 38 e se postaram estrategicamente na embocadura da última curva do leito, onde o bicho se faria visível à mira. Pelo barulho descuidado e apressado, ninguém duvidava de que era uma anta, provavelmente em perseguição ao filhote desgarrado. De qualquer forma, era absolutamente estranha a situação. Os animais não costumam dar bandeira assim. Mas enfim...
Dez minutos depois, o barulho tornou-se tão intenso, que todos correram para assistir ao inevitável abate, já que, além da ameaça ao acampamento, uma anta proveria carne de excelente qualidade para muitos dias.
Quando a marola do bicho atingiu o barranco dos atiradores, estes apuraram as vistas e só o esperavam apontar a cabeça na curva para a execução. Seriam dois tiros convergentes e fatais. A anta não teria a menor chance.
Respiração suspensa... Dedos em riste nos gatilhos... Mira fixa na curva... É agora! E então... Gilsinho surge feito uma anta na curva do córrego, caindo sobre as pedras e quebrando galhos, provocando uma barulheira dos demônios. Por pouco, muito pouco mesmo, os atiradores não abriram fogo. Segundo eles, o que salvou mesmo o Gilsinho foi a camisa vermelha.
O Juca*, chefe do projeto, bocão como ele só, foi ao encontro do homem-anta:
- Gilsinho! Seu filho de uma anta! Tu não tem juízo não, porra? Quer levar um tiro, é? Que diabo aconteceu? Por que você veio por dentro do córrego? Cadê seu carro e o motorista?
Gilsinho, com a cara mais simplória do mundo, sem nenhuma ruga de preocupação, revelou que o Toyota em que ele e o motorista voltavam ao acampamento ficara enganchada num tôco, na passagem de uma cancela, a cerca de cinco quilômetros dali, pela estrada. Então, para ganhar tempo, viera pelo vale, cortando pelo menos dois quilômetros. Juca não entendeu direito:
- Peraí Gilsinho. Como é que é a história? O jipe enganchou num tôco? Como assim?!
- É Juca. Não tem aquele tôco que fica no chão, entre os mourões, para segurar a cancela? Então... Esse tôco era muito alto e pegou no diferencial do Toyota. O bicho travou de tal maneira que não vai nem pra frente, nem pra trás. Nem reduzindo a primeira o carro venceu o tôco! Tá lá entalado. Falei pro Miranda* (o motorista) não fazer nada e aguardar socorro.
Juca passava as mãos pelos cabelos, sem acreditar no que ouvira, pois, conhecendo o Gilsinho, já deduzira o ocorrido. Mesmo assim perguntou.
- Veja se eu entendi bem. O carro ficou entalado no tôco e não vai nem pra frente nem pra trás. É isso mesmo?
- Hã hã...
- Só mais uma coisinha, seu carro tem macaco?
- Hã hã...
- E vocês não tentaram usar o macaco não? Pra suspender o carro....
Aí, foi o Gilsinho que fez a maior cara de surpresa do mundo:
- Ué! Mas eu não sabia que podia usar o macaco pra isso... Pensava que macaco só servia pra trocar pneu! O motorista ainda sugeriu, mas eu não deixei...
Acredite se quiser.
Juca ia dar um esculacho, mas daí se lembrou que diante dele estava uma pessoa que teve de superar um grave acidente de carro, no passado, que lhe lesou parte do cérebro. Resolveu não discutir e despachou um motorista pra resgatar o Toyota do Gilsinho e seu motorista que, pelo visto, devia ter alguma lesão cerebral também. Disse simplesmente:
- Tá bom Gilsinho. Vai tomar seu banho, que nós vamos resolver essa bronca. E vê se passa mertiolate nesses arranhões!
Quando o Gilsinho se afastou, a turma caiu na risada e a vida voltou ao normal no acampamento, sob os últimos pios das siriemas e das juritis, antes da noite cair de vez, naquelas vastidões matogrossenses.

* Nomes fictícios

quinta-feira, novembro 22, 2007

Receita de Pai André

E então fui ao Preto Velho, Pai André,
Pra lhe falar da minha dor... Essa paixão
Que me adoece. Nem me mata e nem se cura,
Meu contra-senso: minha vida e meu caixão.
E ali, no breu do Pajeú, em pleno vale,
Á luz da lua e ao pio do caburé,
Sangrei o peito do veneno e da tortura,
Mas o velho me atalhou; - Nada me fale,
Tua dor é incurável... É uma mulher

- Tiro encosto, afasto mau-olhado,
Desavesso home afeminado,
Encontro coisa perdida,
Fecho a mais funda ferida,
Curo maleita, malária, caxumba,
Tifo, sezão... Desfaço macumba.
Rezo febre, catapora e sarampo.
Rastreio gado sumido no campo.
Tenho ervas pra dor de cabeça,
Mesinhas pra tudo que o corpo padeça.
Saro a picada da cobra mais mortal,
Seja cascavel, urutu, cobra coral...

- Mas, meu filho, vou lhe ser bem franco:
Te acalma, te assenta aqui nesse banco.
Pra esse mal que se aninha em seu peito,
Pra esse mal... O velho não dá jeito.
Até hoje procuro e não acho
Uma reza, uma erva, um despacho,
Uma porção, talismã ou lambedor,
Que extirpe e cicatrize esse tipo de dor,
Mas tu, meu filho, só tu podes te curar.
- Mas como, pai André!? Pode falar!

-Não há, em todo o recurso disponível,
Algo que cure o amor impossível,
Mas, há um jeito, se quiser ter paz,
Pra que não morras cedo, pois és tão rapaz,
Porém, é muito mais difícil que parece:
Esquece essa mulher, meu filho, esquece!
Fica a ferida, mas a dor estanca.
Arranca essa mulher do peito, filho, arranca!

- Como essas marcas perenes de caliça,
O amor é uma marca na alma, irremovível,
Ferida latente, que adormece apenas.
Mas quando um sonho, uma lembrança o atiça,
Acorda em fúria, quais loucas sirenas,
A estourar o peito, num sufoco horrível!
Te devorando... Abutre na carniça.

Então, seguindo velho instinto,
Me embrenhei na mata mais sombria,
Para espanto da cotia e da graúna,
O peito a explodir de dor, não minto.
Junto ao tronco da mais grossa baraúna,
Enfim, quando já o sol se abria,
Empunhei meu machado mais distinto

Em secreto transe, ali orei,
Implorando a Deus força e vontade
Para o fim descomunal que me propus:
Seja o tronco que escolhi e que beijei,
O objeto do meu mal, meus urubus,
Que me devoram vivo, sem piedade,
Mas que agora, decidido, enfrentarei.

E tome uma machadada!
E tome duas machadadas!
E tome dez, e tome cem e tome mil!
E tome minhas noites sem dormir!
E o que a vida me trouxe e que nem vi!
E tome minhas horas de agonia!
E tome o desespero desses dias!
E tome as respostas que não deste!
E tome meu sorriso, que murchaste!
E tome as cachaças que tomei!
E tome os prantos todos que chorei!
E tome esta saudade que me mata!
E a dor que me sufoca e arrebata!

E tome dez mil machadadas!
E tome os pesadelos mais terríveis!
Os monstros dos infernos mais horríveis!
Tome os versos loucos que te fiz!
Tome meus rabiscos, meus croquis!
E todas as bobagens que nem viste!
E tome os dias que passei, tão triste!
E tome meus suores, meus tremores,
Meus cuidados, meus silêncios, meu temores!
E tome as canções que nem cantei,
E os beijos – tantos - que nunca te dei!
Tome, enfim, meu verso, teu escravo
Em troca me liberto... Enfim, me salvo.

E quando a velha baraúna enfim, caiu,
Caí, também, prostrado de cansaço.
No céu, morria o dia em tépido mormaço...
Senti que algo do peito, em dor, também ruiu
E tive a nítida impressão que, do espaço,
Nívea estrela e me fitar, me dera o braço
E o firmamento todo, solidário, a mim sorriu.

Saí da mata leve, embora triste
Pois lá no fundo o teu olhar vivia e vive.
Não consegui matar o amor que em mim convive
E se eu existo, se eu respiro... Ele existe.
Mas decidi que a vida continua
E a dor não apaga o sol, a rima, a lua
E todo o Belo, que afinal, persiste

Era uma noite linda, de São João
Uma fogueira só, todo o Sertão
Cantores versejando no terreiro,
Meninos festejando o padroeiro,
Folguedos, brincadeiras e alegria
E então... Vi um sorriso... Uma magia.

O amor de um só, como já disse, é incurável.
E o teu há de morrer aqui comigo,
Cordão pra sempre atado ao meu umbigo.
Mas entendi que existe um amor a dois, estável,
Não aquele que é o maior do mundo,
O mais fatal, mais tudo e mais profundo,
Mas o que torna a dor mais suportável

Não sei se sou feliz... Não me pergunto.
Apenas vivo e os dias me são leves.
Não busco mais o que não posso ter,
Nem busco explicação de complicado assunto.
Que corra livre o rio! Não o vou deter.
Se não me queres, pena! Não me serves.
O amor é muito mais que viver junto.



Rio, nov/2007