Mostrando postagens com marcador goiás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador goiás. Mostrar todas as postagens

sábado, novembro 15, 2008

Deu a louca no ministro

Li a mensagem ali mesmo, na frente do mensageiro: “Sr. Pereira* pede pro senhor ligar pra ele urgente.” Naquele tempo, 1986, os postos telefônicos do interior tinham um mensageiro que distribuía recados em toda a cidade. Através do pessoal da Sede, o Pereira me localizara ali, no hotel daquela pequena corrutela, interior de Goiás. Dei a gorjeta, tomei um banho e fui ligar.

Hoje, em plena era do celular, é difícil imaginar como eram as comunicações de antanho. A muito custo conseguia-se completar a ligação, mas era só o começo. Depois, era preciso ter a sorte de ela não cair e ainda ter bom ouvido para conseguir distinguir seu interlocutor, no meio dos ruídos intergaláticos que se interpunham na conversa.

- Oi Regis (era assim que ele me chamava), olha aqui, conseguimos uma audiência com o Ministro de Minhas e Energia, Dr. Aurélio Porto*, em Brasília, depois de amanhã. Você tem de vir. A audiência é em seu nome.

Conversamos mais uns dez minutos e desliguei, para supremo alívio dos meus tímpanos.

Então, finalmente iríamos ter um tête-à-tête com o Dr. Aurélio! Há meses vínhamos tentando. Eu era o presidente da nossa entidade nacional dos empregados e precisávamos do apoio do Ministro pra ver se saíamos do zero a zero naquele Acordo Coletivo. A coisa tava braba e as negociações paralisadas. Era nossa última cartada.

Naquela noite, não dormi direito. Pensava no encontro com o Ministro, na importância do acontecimento e na responsabilidade. E se falhássemos? Comecei a sentir um friozinho na barriga. E a ferida na perna começou a latejar. Tanto que tive de trocar o curativo, pra colocar mais anestésico.

Deixe-me explicar. Eu tinha, na verdade, uma leishmaniose.

Dois meses atrás, ao voltar de uma campanha no nordeste de Goiás, notei cinco feridas na perna esquerda. Pequenas, coisa de menos de meio centímetro cada, mas que não cicatrizavam. Fui ao médico, que me receitou um antiestafilococos. Tomei a medicação, percebi que a cicatrização começara e viajei de férias, pra rever a família no interior da Bahia. Depois de uma semana na Boa Terra, estranhei que uma das feridas não cicatrizara. Na verdade, havia se formado uma crosta enorme no local.

Uma parenta, bioquímica, ao ver o estrago, me inquietou:

- Desconfio o que seja, mas só posso afirmar após fazer uma lâmina. Vamos ao meu laboratório!

Algo me dizia que minhas férias tinham ido pro beleléu.

Quando Laura* removeu a crosta da ferida, levamos um susto, nós dois. Embaixo, havia um buraco, mas não era um buraco qualquer. Parecia aberto com uma broca, de tão bem feito e regular. Um canal de meio centímetro de diâmetro, que ia quase até o osso.

- Vou fazer a lâmina só por desencargo de consciência, mas já sei o que é.

Eu nem ouvia direito... Fiquei meio enjoado, querendo vomitar.

Ela fez uma raspagem super dolorida e em poucos minutos estava debruçada no micrsocópio.

- Leishmânia! Exatamente o que pensei! Venha ver... Ela se parece com os glóbulos vermelhos...

Conforme minha intuição, as férias foram mesmo pro beleléu. Voltei urgentemente pra Goiânia, onde dispunha de um hospital de doenças tropicais. O caso era de saúde pública e o medicamento era distribuído pela SUCAM, Superintendência de Campanhas de Saúde Pública.

Como me tratei, já é outra história, mas o fato é que agora estava ali, naquela madrugada quente no interior de Goiás, trocando o curativo e verificando que a danada era bastante resistente. O buraquinho ainda estava lá, bonitinho da silva. Apenas parara de crescer.

Dois dias depois, estava na ante-sala do Dr. Aurélio, aguardando para a audiência. De terno emprestado, sentia-me desconfortável naquele ambiente. Ao lado dos companheiros que vieram do Rio de Janeiro, tínhamos traçado todo um plano de ação. O tempo do Ministro era curto e precisávamos ser objetivos e convincentes. Ficou combinado que Pereira seria o nosso porta-voz. Os demais somente complementariam, quando solicitados, para não tumultuar.

A Audiência finalmente começou. O Dr. Aurélio, muito educado e atencioso, derramou-se em elogios aos geólogos e à geologia. Na primeira deixa, o Pereira desfiou o discurso que havíamos combinado. E foram 20 minutos relatando a difícil situação em que nos encontrávamos, a falta de projetos, orçamento minguante, salários defasados, a Empresa parada, a Diretoria intransigente, a categoria em estado de greve, enfim...

Dr. Aurélio assentia com a cabeça e quando começou a falar, foi naquele tom de que o momento era mesmo de grandes dificuldades, devido à necessidade de redução de gastos públicos, que não tinha margem para ir além do que o orçamento permitia e que havia uma política salarial governamental que era preciso ser obedecida e foi por aí nos jogando água fria.

Estávamos todos desanimados e eu comecei a me cobrar por ter feito aquela viagem tão corrida. De repente, em sua fala, o Ministro, referindo-se ao geólogo disse:

- O geólogo é um profissional privilegiado, trabalha em contato com a natureza, leva uma vida saudável...

Pereira pegou a deixa e partiu pro tudo ou nada:

- Que nada Doutor. Aí é que o Senhor se engana. O geólogo é uma vitima! Além de sacrificar a família e arriscar-se aos acidentes naturais da vida no campo, vive exposto a todo tipo de doenças tropicais.

Pereira viu que achara uma boa linha de argumentação, pois o Ministro mostrou-se vivamente interessado, fazendo perguntas. Pereira, então, deitou e rolou:

- Olha Dr. Aurélio, o Senhor não faz idéia do que é viver no meio do mato. O geólogo enfrenta diariamente cobras, feras, insetos, grileiros, posseiros, índios. Há muitos colegas que sofreram acidente de carro, outros nas máquinas de sondagem. Recente pesquisa feita por nossa entidade revelou que 70% dos geólogos já sofreram algum tipo de trauma profissional. E nada disso é reconhecido! Mas saiba que as minas que abastecem as indústrias, têm o suor, o sangue e a vida dos geólogos!

Vendo que o Ministro estava se mostrando sensível o Pereira arrematou, para surpresa de todos nós:

- Para o Senhor não pensar que estou exagerando, tá aqui esse colega – apontou para mim. Para estar aqui hoje, viajou diretamente do interior de Goiás e com uma baita leishmaniose na perna!

- Leishmaniose?!

-É... Mesmo doente, está trabalhando no campo. E por conta dessa vida é um rapaz separado, vive só. É difícil uma mulher se adaptar à vida do geólogo. O índice de separação é altíssimo!

Eu fiquei pasmo, mas o Ministro estava mesmo interessado era na leishmaniose.

- Como é isso?

Rapidamente expliquei. Aí foi ele que nos surpreendeu:

- Posso ver a ferida?

Quase em coro, meus colegas disseram:

- Mostra!

Aí foi minha vez de pagar mico. Levantei a perna da calça, afrouxei o curativo e expus aquela coisa horrível. Nunca me esqueço o cenho franzido e a cara de nojo do Ministro, quando me perguntou:

- Dói?

Enquanto eu me recompunha, o Ministro perguntou:

- Tem muitos geólogos com essa doença na CPRM?

Aí o Pereira deu o golpe final:

- Ministro, só na Amazônia temos duzentos geólogos. Todos, sem exceção, já tiveram leishmaniose ou malária. Muitos já perderam a conta das malárias. São mais de dez mortes por malária, duas por ataques de índios, duas por afogamento, uma por ataque de onça e dois desaparecidos na floresta.

Fez-se silêncio. O Ministro ficou uns segundos tamborilando a caneta sobre a mesa e, finalmente, chamou seu assessor:

- Seu Roberto, me ligue, por favor, com o Dr. Márcio*.

Dr. Márcio era o Ministro do Planejamento, onde nossas negociações estavam emperradas.

Ali, na nossa frente, depois de uma curta conversa, os dois ministros acertaram um reajuste bastante razoável para nós. Longe do que pedimos, mas o suficiente para distensionar o clima e levar o Acordo a bom termo.

Quando saímos, satisfeitos com o resultado, fui em cima do Pereira:

- Que negócio é esse de dizer que me separei duas vezes e que vivo só? Tá ficando louco cara? E aquela quantidade de mortos na Amazônia?

- Regis, se a conversa demora mais, até eu ia me separar, cara. Eu não podia era perder essa chance!

Dizem que de médico e de louco todos temos um pouco, Sei não, mas acho que o geólogo é mais louco que a média. Um peão com quem trabalhei muitos anos me disse, certa vez, que o geólogo vive dentro dos matos, procurando o que não perdeu, pra fazer não sei o quê. Não é que ele tem toda a razão?


* Nomes fictícios

sábado, janeiro 12, 2008

Pezão e os javés pigmeus

Estava eu posto em sossego no acampamento de Palmeiróplis, num fim de tarde melancólico de domingo, ainda curtindo a ressaca da noite anterior, quando me anunciam:
- Doutor! Tem um rapaz aí procurando emprego. Diz que é cozinheiro.
Se é um cargo para o qual sempre há vagas num acampamento do tamanho do nosso, é cozinheiro. Primeiro, porque o ofício em si não é fácil. Falta mão-de-obra qualificada. Segundo, porque peão prefere mil vezes a foice ao fogão, por causa do horário de trabalho. E terceiro, porque é necessário equipe de reserva para revezamento, já que os coitados trabalham praticamente 24 horas por dia. De sorte que mandei chamar o candidato para uma entrevista.
Dali a dois minutos me entra um gigante de quase dois metros de altura, espigado e todo desajeitado, com uma camisa rasgada, calção surrado, feições rudes de caboclo e um detalhe especial: seus pés, descalços, eram abertos num ângulo de seus 60 graus, tipo os ponteiros do relógio marcando 10h10. Um saco sujo às costas constituía sua única bagagem.
Me deu vontade de rir daquela figura desengonçada, mas cumprimentei, com cortesia:
- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Qual seu nome?
- Pezão.
- Pezão? Pezão não é nome, é apelido.
- É, mas não tem importância não, sô! Todo mundo me chama assim, por causa do meu pé 46. Olha pro senhor ver!
Assim falando, levantou um pé enorme, cheio de cravos, que, na minha ligeira avaliação, era mais do que 46.
- Mas me conte senhor Pezão, o senhor sabe cozinhar mesmo? Já cozinhou em acampamento pra muitas pessoas?
Então, ele me contou curiosíssima história, que agora compartilho com vocês.
Até dois meses antes, trabalhava num acampamento da Vale do Rio Doce, em um local chamado Caseara, às margens do Araguaia, no então estado de Goiás. Era um acampamento pequeno, com dois geólogos e uma dezena de peões. Ele era o único cozinheiro, muito querido pelo pessoal, a quem acompanhava já há dois anos.
A vida transcorria monótona e sem graça, pois, segundo seu relato, a turma saía bem cedo, ele aprontava o almoço e ficava o dia todo na rede, até o meio da tarde, fim do expediente de campo. Nada de novo acontecia, a não ser raras visitas de pescadores que vagavam pelo rio, ou garimpeiros perdidos, pedindo informações. Dias e mais dias nesse marasmo. Uma solidão de doer.
Pois bem, um belo dia, pra seu infortúnio, essa rotina foi quebrada, mas antes não tivesse sido! Estava lá nosso amigo em sua bucólica rede, quando seus ouvidos, acostumados aos sons da mata, captaram estranho ruído.
- Uma anta? Uma capivara?
Perscrutou os arredores, mas não conseguiu identificar ao certo de onde vinham os sons. Poderia ter sido também só uma rajada doida de vento. Assim, despreocupando-se, voltou a se deitar. Melhor seria se tivesse ficado vigilante!
Dez minutos depois, novo roçar de folhas e galhos, mas de forma muito sutil. Não parecia de bicho conhecido. Como se fosse vento mesmo, mas vindo de todos os lados? Ao mesmo tempo em que se viam galhos balançando ao norte, se viam também ao sul, ao leste e oeste. Mas nada à vista. Só a impressão de passos cautelosos e invisíveis. Meio ressabiado, passou a mão na espingarda, botou na beira da rede e voltou para seu bem-bom e fechou novamente os olhos. Foi seu erro fatal.
Ao ouvir passos no terreiro, já dentro do acampamento, deu um salto da rede, mas sua arma não estava mais lá. Pra seu espanto e pavor, cerca de 20 criaturas pequenas, de seus 1,50 m de altura, porém muito fortes e mal encaradas, seminuas e de borduna nas mãos, o cercavam por todos os lados, fechando o círculo, pouco a pouco, ao seu redor.
- Doutor! O medo foi tão grande que eu nem sei direito o que fiz. Acho que borrei as calças e saí correndo, mas os desgraçados não me deixaram dar nem cinco passos! Esbarrei numa parede humana e quando vi, estava amarrado de embira, pé e mão, sem direito a um pio sequer. Os infelizes não disseram uma palavra. Simplesmente me amarraram e me puseram em pé, bem no meio do terreiro, parecendo uma estátua, com três cães de guarda ao meu redor.
Até aí, nosso amigo tinha sofrido apenas agressão psicológica, imobilizado e sem ter a menor noção do que aquilo significava. Intrigado, assistiu a uma espécie de conferência das lideranças, num palavrório alterado, entre algumas risadas. Volta e meia apontavam para ele e a discussão retomava, acalorada.
Finalmente, decorrida meia hora, parece que os conferencistas chegaram a um consenso. Abraçaram-se e puseram as mãos umas sobre as outras, no centro da roda, como um compromisso de solidariedade. E então, a um sinal do que parecia ser o líder maior, todos os pigmeus colocaram-se em fila e se dirigiram à estátua, isto é, ao nosso amigo imóvel, de borduna em punho. E o espancamento começou. Cada um que passava por ele, descia-lhe a borduna sem piedade e de forma alternada: na batata da perna, na coxa, na bunda, nas costas e no peito. Sem proferirem uma palavra sequer. Batiam e davam vez ao seguinte, como um ritual respeitoso. Preservaram a barriga e o rosto, numa clara demonstração de que não desejavam matá-lo, mas apenas dar-lhe uma surra.
As primeiras pancadas, apesar de doídas, eram suportáveis, me garantiu o interlocutor, mas quando vieram as superposições sobre a carne já macerada, na agonia de não poder se defender, um horror tão pavoroso o dominou, que se transformou em muito mais que dor lancinante. Segundo ele, era a própria sensação das torturas infernais, o corpo e alma no limite do sofrimento. Até que desmaiou.
Acordou livre das amarras, dentro da rede, após um tempo que estimou em no máximo uma hora. Ainda com o pavor nos olhos e na mente, a única coisa que fez foi sair correndo, desesperado, pela estrada, apenas com a roupa do corpo e sem saber direito o que estava fazendo. Andou mecanicamente pela estrada deserta, sem parar. Escureceu por completo e nem a noite cerrada o deteve. Garantiu-me que não sentia dor, nem fome nem sede. Apenas medo... Um medo maior do que qualquer outra sensação.
Somente ao alvorecer encontrou uma alma piedosa, num povoado chamado Barrolândia. Ali, recebeu a primeira assistência: café quente e um catre pra dormir. Ao acordar, cercado de curiosos, contou sua desventura e ficou sabendo tratar-se de uma dissidência da tribo Javaé, se não me falham os neurônios, oriunda da ilha do Bananal, que costuma fazer incursões em fazendas para saquear e amedrontar os moradores.
Logo chegou um carro da Vale, que o levou até Guaraí, onde recebeu tratamento médico num posto de saúde – ele era um hematoma ambulante. Todo o dinheiro que recebera, gastou com medicamentos, de modo que botou, literalmente, seu pezão na estrada e caminhou durante dois meses, ininterruptamente, com o objetivo de chegar em Goiânia. Nesse meio tempo, sobrevivera da caridade alheia e de pequenos bicos em restaurantes, postos de gasolina, borracharias, etc.
Em Santa Teresa, lhe falaram do nosso acampamento e ele resolvera arriscar, após certificar-se de que por ali não havia nem resquícios de índios.
- E é essa a minha história doutor.
Uma grande compaixão me invadiu. Não sei se o achava frágil ou forte, mas apenas vi um ser humano em busca de socorro, com muita dignidade. Lembrei-me de uns versos de Gonzaguinha, sobre a condição humana:

Eta mundo que a nada se destina!
Se maior se faz, mais se arruína,
Se mais quer servir, mais nos domina,
Se mais vidas dá, são mais os danos,
Se mais Deus lhes dá, mais são profanos.
Esses pobres de nós, seres humanos
!

Pezão ficou conosco pouco tempo, pois não era muito chegado a hábitos de higiene e entrou em conflito com o chefe Cabelo. Tinha a mania de cuspir nas mãos para pegar nos cabos das panelas. Tentei levá-lo para abrir picadas, mas não conseguimos botas que lhe coubessem nos pés desmedidos.
E assim nossas histórias se separaram. Mandei deixá-lo em Santa Teresa e nunca mais soube dele e agora me dou conta também de que nem cheguei a saber seu verdadeiro nome. Para mim será simplesmente Pezão, uma lembrança, entre tantos dramas humanos que se cruzaram com os meus, nesses sertões esquecidos do mundo. Mas inda lembro seu sorriso amarelo, quando dizia:
- Doutor! O pior da surra era o gosto de sangue na boca, quando a borduna batia no meu peito.
É... Quem já foi torturado sabe o que isso significa.

domingo, fevereiro 11, 2007

A Caranguejeira Tarada

Início de 1977. Precisava reconhecer quase uma centena de alvarás de pesquisa, no nordeste de Goiás, com geologia preliminar, geoquímica de solo, sedimentos de corrente e perfis de cintilometria. Por conveniência logística, a base operacional dessa campanha foi estabelecida na cidade de Natividade. No mapa, uma cidade. Na verdade, um ex-quilombo encravado entre serras e vales esquecidos do mundo, sem a mínima infra-estrutura. Mesmo para a década de 70, Natividade era uma volta no tempo, um aglomerado de casas velhas, sem arruamento, cheia de mato, sem energia e água encanada.
Havia esqueletos de construções antigas, de paredes de pedra, entre as quais uma igreja, que era objeto de culto local. O pouco de modernidade que ali se via era devido à recente estrada, que vinha de Dianópolis e dava acesso a Porto Nacional. Ao seu redor se instalou um posto de combustível e uma pensão que vendia “cama”. O hóspede não pagava pela hospedagem e sim pela dormida. O detalhe é que o pagante não tinha direito de escolher seu companheiro de quarto e não podia recusar ninguém, a não ser que pagasse pela cama vazia.
Resolvemos alugar um imóvel, um casarão, no oitão da igreja, com mais de 10 cômodos e um quintal que era uma verdadeira mata. O dono morava em Goiânia, e fazia cinco anos que o local não era habitado. Não era o paraíso mas, por absoluta falta de opções, aluguamos. O valor era tão irrisório que talvez, se eu pleiteasse morar de graça, não faria diferença. Como se fosse hoje, R$ 50,00, mais ou menos.
Mandamos dar uma limpeza geral, incluindo pintura nova, mas nada que alterasse o aspecto mal-assombrado daquela construção cheia de sótãos misteriosos, lacrados. Era rodeado de mangueiras centenárias que cobriam quase todo o telhado e faziam barulhos assustadores de noite. Para suprir a falta de energia, trouxemos vários lampiões a gás, daqueles de camisinha (não confundir com camisa de vênus) que alguns hão de se lembrar.
Para completar a lugubridade do lugar, a igreja ao lado, era infestada de corujas e morcegos, que faziam uma festa todas as noites, noites que levavam dias para passar. É que o tempo ali, parece que obedecia a outro relógio, muito mais lento.
Na primeira semana de ocupação do imóvel, tive a companhia de dois técnicos em mineração, mas no sábado seguinte eles foram deslocados para a região de Almas, outro remanescente de velhos quilombos, cerca de 50 km de Natividade. O nome já diz tudo. Nunca fui de me impressionar com o sobrenatural, mas confesso que para dormir sozinho naquele casarão, tomava sempre uns bons goles para catalisar o sono e apagar os ruídos sinistros dos ratos no sótão, das corujas na igreja vizinha e dos galhos das mangueiras roçando o telhado e outros, inexplicáveis, como passos, risadas, sussurros...
Detalhe importante para o causo que se vai contar: a casa, originalmente, não tinha banheiro. Os donos atuais construíram no quintal um cômodo com uma caixa d’água, abastecida manualmente, sob a qual adaptou um balde de metal, furado embaixo, simulando um chuveiro. Uma fossa coberta, com um aparelho sanitário adaptado, sem descarga, completava o aposento destinado à higiene. Agora, imaginem ter de atravessar cerca de 10 metros ao ar livre, no escuro, por um capinzal, para chegar a esse local, no meio da madrugada!
E assim fomos tocando a vida, até que anunciaram a vinda de uma comitiva da sede da empresa, diretamente do Canadá, para supervisionar os trabalhos no Brasil. Junto com a comitiva, que fui apanhar em Brasília, veio minha amiga Mag*, geóloga argentina, sobre quem já falei em causos anteriores. Eles trouxeram um verdadeiro estoque de bebidas e comidas enlatadas, e achavam aquilo tudo muito exótico. Tiraram mil fotos da casa, da cidade, de tudo. Na noite da chegada, ninguém tomou banho. Primeiro pelo frio, segundo pelo inconveniente do banheiro externo.
Dia seguinte, cinco e meia, já estávamos todos de pé, que a jornada ia ser longa. Enquanto a empregada preparava o almoço (isso mesmo, almoço: carne de sol, arroz, cuscuz, macaxeira, ovos mexidos, etc). Mag se adiantou e foi tomar banho, tendo antes aquecido um pouco de água no fogão a lenha, por causa do frio.
Passados cerca de cinco minutos, estávamos todos reunidos ao redor da imensa mesa da cozinha, tomando um cafezinho, quando se deu uma cena inesquecível, pelo susto e pela bizarrice. Primeiro, ouviu-se um baque surdo na porta do banheiro, com se alguém desferisse contra ela um violento chute ou algo assim. Ao mesmo tempo, a Mag disparou um grito tão agudo e apavorante que nos paralisou a todos. A coisa foi muito repentina. Seus gritos agora eram seguidos, de puro terror. Não distinguíamos o que ela dizia, apenas vimos que a situação era deveras preocupante pelo tom da voz e pelo barulho, com se ela lutasse contra algo... Ou alguém. Passado o susto, todos nos precipitamos para o quintal. Minha dedução era de que havia uma cobra no banheiro, o que não seria nenhum absurdo, segundo os relatos que já tinha ouvido da empregada.
A cena mais bizarra estava por vir, no entanto. Quando estávamos a meio caminho, a Mag sai do banheiro, nua, completamente descontrolada, a mão esquerda tentando segurar a toalha na frente e a direita sacudindo o cabelo, como se tentasse expelir algo da cabeça, que não conseguíamos ver. Ela estava em estado de choque. Tão apavorada que parece que nem nos via. A custo, a acalmamos, após lhe providenciar toalhas e roupas para se recompor. Enquanto os colegas cuidavam dela, fui ao banheiro ver a causa de tanto pavor. Lá estava no chão, ainda se mexendo, mas bastante ferida, uma também apavorada caranguejeira, imensa, daquelas vermelhas, realmente assustadora.
Quando conseguiu finalmente, articular as palavras, após um reconfortante cafezinho, ela nos contou que enquanto se ensaboava, a caranguejeira caiu do telhado sobre sua cabeça. Ao tentar tirá-la, ainda sem saber do que se tratava, levou uma ferroada na mão. Quando se apercebeu do que se dera, perdeu o controle e o resto foi o que se viu. Levou um bom tempo para superar o trauma. Ríamos, dizendo que ela fora atacada por uma caranguejeira tarada. A picada não teve conseqüência maior, a não ser um leve inchaço. Desse dia em diante, tínhamos de fazer minuciosa vistoria no telhado, além de montar guarda nas proximidades, para que ela voltasse a usar aquele sinistro aposento. Mas ela era valente e não entregou os pontos. Resignada, dizia:
- Quien mandou hacer geologia?
Pois é... Uma guerreira, essa Mag.

* Nome fictício

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A Sambaíba Salvadora

Durante os anos de 1976 e 1977, recém-formado, percorri grande parte dos estados de Minas, Goiás, Tocantins e Pará, reconhecendo e amostrando áreas de pesquisa para a empresa multinacional na qual trabalhei. Nessa maratona, contava com a orientação geoquímica de uma geóloga argentina, com quem muito aprendi e com quem firmei uma fraternal amizade, que perdurou enquanto ela permaneceu no Brasil, se não me engano, 1980. Era descendente de russos e tinha um nome complicado, que nós simplificamos apenas para Mag*. Depois, nunca mais a vi . C’est la vie.
Era muito alta, do tipo galega, e para não chamar muito a atenção, sempre usava roupas masculinas e escondia os cabelos curtos sob um chapéu de palha ou boné. De tudo achava graça e de tudo se admirava, com interjeições engraçadas:
-Si! Si! Pero que lindito!
- Diós mio!
- Santa madrecita! Que cosa, non?
- Carajo!
-Mira Ale*! Mira! Ale era também um colega argentino que às vezes supervisionava as atividades de campo.
-Rrrreginaldo! Que és isso? Mandava ver no portunhol, puxando os erres.
Normalmente era eu quem dirigia a Rural ou a Picape F-100, que utilizávamos nos trabalhos de campo, e ela ia ouvindo milongas ou sambas, num toca-fitas a pilhas, que guardava no porta-luvas do carro.
Certo dia, para minha surpresa, ao voltarmos para a cidade de Porto Nacional, onde tínhamos uma base de campo, por volta de 17h00, ela, repentinamente manifestou desejo de conduzir a Rural. Assim, sem mais nem menos. Não ousei discutir. Pediu para parar o carro e se apossou da direção. Eu me acomodei, confortavelmente, no banco do passageiro e, invertendo as posições, passei a manejar o toca-fitas.
Devo esclarecer que estávamos numa rodovia estadual encascalhada, muito plana, onde se podia desenvolver 80 km/h na Rural, sem maiores riscos. Mas devo esclarecer, também, que o carro tinha um defeito, com o qual eu já me acostumara, mas que foi fatal para a Mag, como se verá. É que a pisada nos freios tinha que ser de leve e nunca bruscamente. Nesse caso, a roda dianteira esquerda era freada antes da direita e o carro puxava, violentamente para o lado do motorista. Era necessário, então, dar umas pisadas bem fortes e repetidas no pedal, para descolar as lonas de freio. Como eu já sabia desse macete, achava isso normal e nunca me embaracei com as constantes puxadas para a esquerda. Mas minha hermana não sabia. Foi uma pena.
Passados uns dez minutos, naquela trepidação monótona, dormia eu já placidamente, ao som de Martinho da Vila, quando sou acordado por um sacolejo violento e os gritos agudos da Mag, que ouço ainda, como se fosse hoje:
- Ui! Ui! Ui! Ui! Ui! Ui!
A última imagem que vi, antes da capotagem, foi da Mag aferrada ao volante, como se fosse arrancá-lo e os pés enterrados no freio, exatamente como não era pra ser feito naquela situação. Naquele átimo de segundo, compreendi tudo o que acontecera e, o que era pior, o que estava para acontecer. Quis gritar para ela tirar o pé do freio, mas não deu tempo. Na puxada para a esquerda, o carro deu um cavalo de pau, capotou espetacularmente e caiu de teto para baixo, ancorado numa salvadora sambaíba. Num segundo, sobreveio um silêncio mortal, só quebrado pelo barulho das engrenagens ainda girando, galhos se recompondo à brisa do cerrado e líquidos escorrendo no motor do carro.
A primeira reação que tive, decorrido não sei quanto tempo, foi de limpar o sangue que sentia nos lábios e de me livrar dos fragmentos de vidros estilhaçados que inundaram tudo, até dentro da boca. Comecei a me mexer, quando ouvi aquela voz, assustada, meio rindo, meio chorando:
-Rrrreginaldo? Estás bien? Que houve, hem?
- Calma Mag está tudo bem. E você? Consegue se mexer?
Confesso que tive medo da resposta, mas ela logo me tranqüilizou:
- Si, si. Estoy bien. Solo me parece que algo me prende la perna...
Saí o mais rápido que pude e ajudei minha amiga a se livrar do câmbio da Rural que lhe imprensava o joelho contra o banco. Esqueci de mencionar que esse modelo de Rural tinha o câmbio no volante.
Ambos fora do carro, ela me olhava com uma interrogação que ia de testa até as botas de caubói que usava.
- Que tonta soy! E ahora?
Além da marca na perna, azulada, ela não apresentou nenhuma outra escoriação visível. Eu levei um corte no queixo provocado pelo gravador e arranhões no rosto, devido a estilhaços de vidro. Nada mais sério.
Agora pude avaliar melhor o que houve. Quando iniciou a descida da ladeira para passar a ponte sobre o rio Manuel Alves, se não me falha a memória, ela se assustou porque havia ali uma picape C-10 estacionada e um pessoal em volta, exigindo redução de velocidade, por segurança. Ao pisar no freio, de forma repentina, vocês já sabem o resto. Nossa sorte foi a providencial sambaíba, porque se tivéssemos prosseguido na capotagem, nosso destino teria sido o leito do rio, mais embaixo.
O pessoal que estava na beira da ponte já vinha subindo a ladeira, apressado, para os primeiros socorros. Ao começar a retirar as coisas de dentro do carro, descubro um garrafão de cinco litros, que estava pela metade de uma cachaça de alambique, que sempre mantínhamos, para qualquer eventualidade. Quando os socorristas chegaram, nos encontraram mamando na boca do garrafão, para relaxar e fazer baixar a adrenalina. Pedi-lhes que brindassem conosco, nossa sorte, no que fui prontamente atendido. Dali a pouco, tudo era uma animação só, parecia festa.
Nossos animados socorristas nos levaram para a cidade, onde já chegamos tarde da noite. Fomos ao hospital para os exames de praxe e nos colocaram em observação, apenas por precaução.
No domingo seguinte, tomávamos uma caipirinha, no bar do hotel, quando ela comentou, filosfando:
- Pero vês, Rrrreginaldo! Que cosa! Será onde estaríamos hoy, se tuvéramos morridos, hem? Habrá outra vida? Que pensas?
Tomei um gole da minha bebida, busquei nos refolhos da mente todo o meu cabedal de reflexões filosóficas e sapequei:
- Na verdade Mag, eu não tenho a menor idéia de onde estaríamos. Não tenho conviçcão sobre a existência de outra vida, nem me preocupo muito com isso. Mas o último som que levaria dessa vida, e que ouvi antes de adormecer na Rural, seria um som de muito paz. Acho que morreria tranqüilo. Adormeci ouvindo as pastoras de Martinho da Vila repetirem:
“O sino da igejinha faz belém-blem-blem...”
“O sino da igejinha faz belém-blem-blem...”
“O sino da igejinha faz belém-blem-blem...”
O que eu não disse a Mag, para não impressioná-la, e também porque eu próprio não sabia o que significava aquilo, é que no dia seguinte de manhã, acordei com uma baita vontade de ligar para minha família. Fui a um posto telefônico da Telebrás e liguei. Atendeu uma irmã:
- Que coincidência! Onde você está? Ontem falamos muito em você.
- Estou bem. Nada de novo. Por que falaram tanto de mim?
- É que, numa reunião espírita ontem à noite, recebemos uma mensagem de que teria havido um acidente com você, mas que não nos preocupássemos, porque estava tudo bem.
- Mentira... Não houve nada. Não leve essas mensagens a sério...
- Ainda bem.
Anos mais tarde, já conhecendo os princípios do espiritismo, confessei à minha irmã o ocorrido. Ela disse simplesmente:
- Eu sempre soube.
Bem, como se diz lá na minha terra, tá contada a minha história. Acredite se quiser.

* Nomes fictícios

domingo, fevereiro 04, 2007

Mamón Bravo

Quando comecei minha vida profissional, numa empresa de mineração canadense, nos idos de 1976, trabalhava sob a coordenação de dois geólogos argentinos, de quem guardo as melhores recordações. Com eles muito aprendi e o bom relacionamento que fizemos, em nada evoca a dita rivalidade que existe entre nossos países. Se dependesse de nossa amizade, brasileiros e argentinos seriam de fato, verdadeiros hermanos. Falo da Mag* e do Ale*. Com eles aprendi, além dos fundamentos da pesquisa mineral de metais-bases, a gostar de chimarrão e da música dos pampas. E ensinei-lhes o gosto pela MPB e a cultura nordestina. Eles adoravam Martinho da Vila e Luiz Gonzaga.
Ale já partiu para o andar de cima. Que Deus o tenha! Mag voltou para sua Argentina, no início dos anos oitenta. Era descendente de russos, muito alta e alva, porte alto para os padrões brasileiros e trazia no rosto um permanente sorriso e um ar de admiração por tudo. Usava cabelos bem curtinhos, escondidos sob chapéu ou boné, o que lhe ocasionou, alhumas vezes, ser tratada de Senhor, pelas gentes locais. Ela dava gostosas risadas e desfazia o mal entendido com simpático bom humor.
Tinha uma verdadeira tara por mamão, que ele pronunciava, indefectivelmente, mamón. Durante os dois anos em que trabalhamos juntos, não consegui que ela emitisse a pronúncia correta. Era mamón e tudo bem. Se hospedávamos em alguma pensão do interior, ela logo pedia ao proprietário para providenciar sua fruta predileta no café da manhã e no jantar. Se acampávamos, ela levava caixas de mamão, de que cuidava como se fossem crianças.
Fazíamos um trabalho na cidade de Araguanã, margem direita do Tocantins, norte de Goiás, na época. Nossa base era Araguaína, para onde voltávamos todas as noites e onde eu tinha uma namoradinha, uma flor do cerrado, como eu a chamava, que ficava ansiosa me esperando nos entardeceres calientes daquelas longitudes goianas. De modo que eu fazia de tudo para chegar cedo ao hotel e não frustrar minha doce espera. A família impunha limite de horário. Depois das oito... Nem pensar!
Certo dia, era um sábado, voltávamos por uma estradinha de fazenda, muito retilínea, por volta de 18h30, sol já se escondendo, cansados da jornada de 10 horas seguidas, naquela temperatura de quase 40 graus. As construções da cidade já estavam à vista, quando passamos ao largo de belíssima fazenda ao pé de uma elevação, onde se avistava ao longe, imensa plantação de mamões. O mundo amarelou de tanto mamão, no pé da serra. Tudo madurinho, pedindo para ser colhido. Naquela noite, mais do que qualquer outra, eu não podia me atrasar. Tinha festa na cidade e a noite prometia ser especial. Eu já antegozava os bons momentos que me esperavam, quando a excitação da Mag me chamou à realidade:
- RRRReginaldo! (como ela puxava os erres!). Mamón! Veja! Quanto mamón. Que maravilha! Vamos a boscar-los!
Eu fiz um cálculo, rápido, que gastaria não menos de uma hora, para atravessar toda aquela extensão a pé, colher todos os mamões que ela quisesse e voltar novamente ao carro. Sem falar da arrumação que teria de fazer no carro, já lotado, e da possível conversa que ainda teria de entabular com os proprietários. E etc e etc.
- Meu programa foi pro brejo! Pensei, vendo o entusiasmo da hermana.
Mas não entreguei os pontos. Lutaria com todas as armas.
Desci da Rural Willys, fui até a cerca e mirei bem o mamoal, como quem avalia, com grande conhecimento. Coloquei as mãos sobre os olhos, para focar a mira, fiz uma encenação e concluí, do alto de minha especialização em mamón:
- Infelizmente Mag, trata-se de uma variedade nativa de mamão, conhecida como mamão bravo, que não é comestível. Tem muito aqui no norte de Goiás. Inclusive é muito tóxica e pode mesmo matar um ser humano. Por isso essa abundância... Ninguém colhe.
-Mamón bravo!? Pero son tan lindos hem! Que pena! Non sabia de esse mamón bravo. Como se los distinguistes de acá?
- Ah Mag, eu conheço mamão bravo de longe. Fui criado no meio deles. Há uma sutil característica da folhagem e do caule, que a gente distingue de longe. Qualquer hora te mostrarei.
-Ah, bom! Entonces nos vamos, hem! Pero que es uma pena es! Tan lindidtos!
Ela ficou tão tristinha, que o remorso me acometeu. Tive a pique de voltar e dizer que tinha me enganado. Mas havia uma flor do cerrado à minha espera!
Para compensar meu pequeno pecado, passei numa frutaria e comprei-lhe uns dez mamões, ao gosto de seu apetite. Ela ficou extremamente agradecida e eu salvei minha noite, graças ao mamón bravo.
Nos dias seguintes, sempre que via algum mamão ela perguntava:
- Esse es bravo? Se puede comer-lo?
Quando nos separamos, em meados de 1977 (a empresa em que trabalhávamos se fora do Brasil), quase lhe revelei minha traquinagem, mas na hora H, não tive coragem. Depois, nunca mais a vi. Acho que ela até hoje deve dizer a seus amigos argentinos para tomarem cuidado com mamón bravo, ao virem para o Brasil. Pode até matar.
Mas vocês não concordam que foi por uma causa justa?

segunda-feira, janeiro 29, 2007

O Silêncio por resposta

Sábado, festa de mutirão numa fazenda próxima ao acampamento do projeto Palmeirópolis. E festa de mutirão sabe como é, né? Na verdade a festa (o forró) é o ato final do mutirão de colheita, plantio, derrubada, aragem, enfim alguma atividade agrícola, em que toda a vizinhança se junta, numa determinada fazenda, e dá conta num só dia, de toda a empreitada. É uma cultura da região, na época, estado de Goiás, hoje Tocantins, lá pras bandas do rio Maranhão.
De noite, após o fim da tarefa, o forró come solto. Um sanfoneiro, um zabumba, triângulo, pandeiro e muita, mas muita cachaça. É cachaça que dá no meio das canelas, como se diz na região. Nem água se bebe nessa noite. É só a mardita, até porque, naqueles idos de 80, 81, nem energia elétrica tinha ali, pra ter outra bebida. Era cachaça, galinha assada, poeira na latada, mulher de montão e forró a noite inteirinha que Deus deu.
Nesse dia, o acampamento em peso foi pro mutirão. Estou falando do forró, de noite, porque de dia ninguém foi pra lá pegar no pesado. Éramos convidados de honra.
Pois é. Nesse dia, tinha um colega, aliás, um dos principais dançarinos do mutirão, que arranjou uma namorada logo na chegada e dançava sem parar, só fungando no cangote da morena. Só parava pra dividir uma lapadinha com a amada, ou tomar um ar fora da latada, apreciando as estrelas, que ninguém é de ferro.
Depois, reenergizados, voltavam pro terreiro e o couro comia sereno. Tempos mais tarde, esse tal colega, comentando o mutirão, me confessou que, enquanto dançava ali na latada, a poeira subindo e o suor caindo, se lembrava daquele forró de Luiz Gonzaga:

“Todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco”.

E tome forró e cachaça, até que, mais ou menos duas horas da manhã, já mais pra lá do que pra cá, ao tentar tirar alguma coisa do bolso da camisa, o moço deixa cair a aliança de casado no meio do poeirão. No exato instante em que viu, num lampejo, o faiscar do ouro à fraca luz do lampião, um pânico invadiu-lhe, o grilo falante cutucou-lhe a consciência, e ele, que tem um vozeirão de locutor de rodeio, bradou espalhafatoso, os dois braços abertos, pra que ninguém pisasse no objeto de seus afetos e medos:
- Pára, pára! Por favor! Pára, gente, por favor, pára!
O sanfoneiro levou um susto, o cara do zabumba deixou cair a baqueta e o forró foi interrompido, para espanto geral. Fez-se um silêncio constrangedor e todos se ajuntaram em torno do nosso herói, olhando para o chão, embora somente ele soubesse do que se tratava. Pensavam que era dinheiro.
Um bêbado, na porteira da fazenda gritou, achando que era briga, uma dozona (espingarda calibre 12") na mão:
- Ninguém sai, ninguém sai! Aqui ninguém passa! A festa vai continuar! Ô sanfoneiro filadaputa, toca essa porra!
Nosso herói, de joelhos, tateava o chão, desesperado, sem sucesso. A namoradinha, ali do lado, solidária, ainda não se tinha dado conta exata do acontecido. Aproveitou o intervalo inesperado e tomou mais uma lapada, pra tirar a poeira da garganta. Alguém trouxe uma vela e finalmente, passados uns cinco minutos kafkianos, o circular objeto foi encontrado. Num gesto rápido, nosso herói dançarino enfiou a aliança no bolso, mas, o sexto sentido feminino da fugaz amada sentiu a flecha da desilusão a perfurar-lhe o peito.
Enquanto o forró retomava, a todo vapor, sob vivas e aplausos dos fogosos casais, esse pequeno drama humano desenrolou-se entre os dois enamorados, à luz mortiça do lampião a gás, tendo por testemunha a poeira do lugar e os ecos da sanfona:
- Então, o senhor é casado?!
A morena engoliu uns restos de saliva poeirenta, olhou lá no fundo dos olhos embaçados do nosso herói e prendeu meio riso nos lábios, no qual se podia divisar o desencanto de uma resposta que no fundo, bem lá no fundo, não queria ouvir.
Nosso herói sentiu a pontada do olhar suplicante da morena e compreendeu, com crueza, sua responsabilidade naquele momento. Tomou o resto de cachaça que sobrara da última lapada inacabada, passou a mão nos beiços, pigarreou forte para fazer o sangue re-circular, fuzilou o olhar da morena, tomou-lhe as mãos com brandura e disse, com a serenidade do réu que cumpriu sentença, os lábios já roçando seus ouvidos:
- Tome o meu silêncio como resposta!
Nesse exato instante, como se fora combinado, o sanfoneiro atacou:

“Todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco”.

Inebriada, nossa heroína completou o meio sorriso que ficara preso nos lábios e foi pegar mais uma lapada. Nosso herói enlaçou irresistivelmente aquela cintura cabocla e saíram rodopiando, forrozando, bamboleando, levitando, até se acabarem nas areias mornas do rio Maranhão, as nuvens e as pedras da cachoeira por testemunhas. Dizem que ali se casaram e dizem que tomaram mais uma garrafa de cachaça e dizem que engoliram, com a cachaça, toda a poeira do lugar. E dizem que naquela madrugada, o sol demorou a vida toda pra sair.