quarta-feira, abril 03, 2013

Vexame na camerata


Capitão e seus causos

- Bom dia Capitão!
- Capitão! Me dê uma mãozinha aqui por favor!
- Capitão, tem um engovezinho aí ? O fígado hoje tá negando fogo...
Era assim.
As pessoas, para ele, não tinham nome. Todos eram, indistintamente, Capitão.
Isso, desde os tempos de faculdade, diziam seus contemporâneos do curso de Geologia.
Vem daí seu apelido de Capitão.
Se perguntarem a qualquer um que trabalhou com ele, por seu nome de batismo, a resposta só virá após uma consulta ao banco de dados da memória. Quem mesmo? Depois de algumas pistas: Ah!, Você está falando do Capitão!
Dizem as más línguas, embora isso nunca tenha sido confirmado, que ele rezava o Pai Nosso assim: “Capitão que estás no céu....”
Esse é o nosso personagem.
De sua contribuição à geologia estrutural da Borborema não vamos aqui tratar, primeiro por não estarmos à altura. Segundo, porque sua obra, vasta e importantíssima, fala por si só. O geólogo Capitão não precisa de loas desse pobre mortal.
Mas seus textos técnicos, recheados de flexuras, recumbências e rotações sinistras, nada dizem do Capitão boêmio e seresteiro, amante da boa música, da cerveja gelada, das noites de lua e de uma conversa madrugadeira na mesa de um boteco. Jogando conversa fora, lembrando os bons tempos, resolvendo os problemas do país e do mundo. Enfim, um tipo bem brasileiro.
O detalhe, em relação ao Capitão, é que ele tinha dificuldade em parar.
Explico-me.
Sabe aquele ditado, boi pra não entrar e boiada pra não sair? Foi criado para o Capitão. Quando ele começava, isto é, depois de tomar a primeira, não tinha hora de parar. Por isso, só andava de taxi. Já tinha uns motoristas conhecidos, que o deixavam no elevador do prédio, com o botão do andar pressionado.
E assim, após quase quatro décadas de atividades geológico-etílicas, por esse Brasil a fora, o Capitão colecionou causos incríveis, os mais inverossímeis que se possa imaginar e que ele saboreava relatar, com satisfação quase-orgulho, entre gostosas risadas e uns tantos novos tragos.
Vamos curtir alguns deles. Este é o terceiro post da série. Veja os dois anteriores: 24 HORAS DE CERVEJA e A MELHOR MÚSICA DO MUNDO.


VEXAME NA CAMERATA



Só a muito custo Zeca conseguiu “expulsar” o Capitão naquela noite. Afinal, era plena segunda-feira de meu Deus, e ele passara na Associação apenas para fazer uma limpeza e organizar o bar, da bagunça do domingo. Não estava em seus planos atender ninguém, muito menos o Capitão, que não tem limites nem horário. E o estoque de linguiças estava praticamente a zero.

Mas deu um tremendo azar

Naquele dia, estava na cidade um supervisor do Rio que, além de supervisionar os trabalhos, gostava também de supervisionar os botecos e boates das cidades por onde passava e era grande amigo do Capitão, desde priscas eras.

Ao espiar no portão ver o Zeca passando pano no balcão, o Capitão foi logo entrando e ordenando, como um patrão com urgência:

- Capitão, manda aí uma gelada e frite umas linguicinhas pro meu amigo carioca ver o que é uma linguiça de verdade.

- Doutor, o senhor me desculpe, mas só passei aqui pra fazer uma limpeza. Hoje não vou atender, que preciso chegar cedo em casa.


- Claro Zeca, deixe de besteira. É só uma saideira e pronto. Como ia deixar o Capitão aqui voltar pro Rio sem provar sua linguiça? Passei o dia fazendo propaganda... Uma rodada e estamos conversados.

Isso, era por volta de 18h30.

Às 23h00, Zeca explodiu, como um marinheiro amotinado:

- Nã, nã, nã, nã não!!! Não vou mais servir saideira porra nenhuma! Não tem mais linguiça, o freezer tá seco e se demorar mais dez minutos perco o último Ibura de Cima. Tá aqui a conta, mas pode deixar pra me pagar amanhã. Vambora, vambora, vambora!

Falou com tal autoridade que só restou ao Capitão e seu convidado obedecerem, sem nenhuma chance de protesto.

Mas, embalados, os dois notívagos estavam mesmo preocupados era onde continuar a esbórnia, já que na segunda-feira os bares costumam fechar cedo.

Tomaram um táxi e se mandaram pra orla de Boa Viagem.

Depois de passarem por dois conhecidos ambientes, ambos já fechados, esgueiraram-se por uma ruazinha lateral, onde uns carros parados prenunciavam boteco aberto.

Era um desses botecos alternativos, um ambiente tipo lunge, à meia-luz, com cheiro de erva no ar, onde, naquela noite, apresentava-se um quarteto de violoncelos e piano tocando músicas de câmara. Uma camerata.

O Capitão entrou, tendo de se abaixar um pouco (o ambiente tinha o pé direito baixo), apertou bem os olhos, pra conseguir enxergar na penumbra, até que viu os músicos no tablado ao fundo e se animou:

- Beleza Capitão, aqui tem música ao vivo.

As mesas eram baixinhas, com pufts em volta.

Com certa dificuldade, acomodaram-se num almofadão esquisito e pediram uma cerveja.

E então, com mais calma, o Capitão perscrutou o ambiente.

Bicho-grilo pra todo lado, as pessoas sussurrando, casais desinibidos no maior amasso, um cheirinho velho conhecido no ar, que lembrava os tempos de estudante, sons suaves de baixo, violoncelo e piano... Enfim, um clima de “viagem” da porra.

Chega o garçom com duas long neck.

O Capitão se ofendeu:

- Que é isso Capitão? Eu pedi uma cerveja... Uma cervejona, entendeu?

- Desculpe senhor, aqui só servimos long neck. E por favor, a Casa solicita que fale baixo.

Indignado, o Capitão falou baixo o suficiente pro garçom ouvir:

- A Casa que se exploda, Capitão. Eu falo no tom que eu quiser. Ora porra!!

E, antes que o constrangido garçom se afastasse:

- Traga umas linguicinhas fritas, por favor, Capitão, e duas Pitu.

- Mais uma vez desculpe, Senhor. A Casa só trabalha com frios. Quanto à Pitu... É... De que se trata mesmo?

Antes que o caldo entornasse de vez, o amigo carioca interveio e botou panos quentes:

- Tá bom. Traga uma tábua de frios, por favor.

Serenados os ânimos, o Capitão comentou sobre a música:

- Que música chata do caralho! Isso aqui tá pior do que enterro. Será que esses caras não tocam um bolerozinho, um samba-cançaõ?

Assim que a camerata deu um tempinho, o Capitão abordou o 1º Violoncelo na entrada do banheiro:

- Capitão, será que dá pra levar Tico-tico no Fubá?

O 1º Violoncelo, indignado, disse que não sabia e, educadamente, saiu de fininho. Mas, antes de se afastar, jogou na cara do Capitão:

- Somos uma camerata.

- Bela bosta, resmungou o Capitão.

Não satisfeito, o Capitão partiu pra cima do 2º Violoncelo:

- Pô Capitão, essa música de vocês tá dando um baixo astral da porra... Será que não dá pra levar Urubu Malandro, Piston de Gafieira, Pisei num Despacho, uma coisinha assim mais animada?

Ante a cara de desentendido do 2º Violoncelo, como se tivesse falado em sânscrito, o Capitão viu o Baixo numa roda e continuou o apelo:

- Capitão, vocês são muito bons, mas será que dá pra levar aí um Orlando Dias, Vicente Celestino ou Nelson Gonçalves, só pra animar um pouquinho o ambiente?

O Baixo alegou uma repentina taquicardia e a roda se desfez.

Pelo salão, um sussurro corria de mesa em mesa, todos olhando aquela figura estranha, peixe fora d’água a importunar a tranquilidade do local.

Quando a camerata voltou ao palco e os instrumentistas já estavam todos a postos, o Capitão, num gesto que pegou a todos de surpresa, subiu o tablado, tirou o microfone do pedestal, olhou pro lado e pra trás, como se procurando algo:

- Cadê o violão? Não tem violão nessa banda, não?

Sem esperar respostas dos músicos aparvalhados, ordenou ao Piano:

- Dá um lá menor aí por favor, Capitão.

Sem saber o que fazer, o Piano jogou uma nota no ar, olhando para as mesas, como a pedir socorro.

Embalado, o Capitão sapecou, com seu vozeirão:

“Boemia, aqui me tens de regressso,
E suplicante te peço, a minha nova inscrição.
Voltei...”

Como um passe de mágica, o microfone foi desligado. Dois seguranças, do tipo 16 toneladas, se aproximaram do Capitão, já com o carioca a tiracolo, e anunciaram, com discrição:

- Senhor, a Casa o convida a se retirar imediatamente.

Enquanto falavam, os seguranças, delicadamente, puxavam o Capitão em direção à porta, onde outros dois brutamontes aguardavam, com a continha na mão.

Depois de ouvir veementes protestos contra o roubo dos preços e a violência da Casa, o gerente fez a gentileza de chamar um táxi para os dois penetras.

Ferido em seus brios, o Capitão ainda queria esticar a noitada, mas o carioca, ressabiado e por já estar perto do seu hotel, preferiu encerrar o programa, prometendo continuarem na noite seguinte.

Já em seu prédio, o Capitão chora as mágoas com o porteiro, velho conhecido:

- Capitão, você sabe o que é uma camerata?

- Camerata?? Sei lá... Pra mim é o mesmo que camareira, não?

- Porra, Capitão, que merda! Me expulsaram do bar, só porque subi no palco pra dar uma esquentada na camerata, vê se pode? Mal comecei a cantar, me expulsaram!

- Calma Doutor, é isso mesmo. Esse mundo tá virado. Eu também peguei uma suspensão só porque cantei a faxineira.

- A faxineira? Essa eu não conheço... De quem é? Ari Barroso?

- Nada... Nem casada é.

- Depois me dá a letra dela, pra ver se conheço.

- É analfa doutor. Não sabe nem fazer um ó com o fundo da garrafa.

- Quer saber de uma, Capitão? Eu vou é dormir, que a cabeça tá começando a aporrinhar. Boa noite.

O porteiro acompanhou-o até o elevador, onde apertou o botão do andar do Capitão e retornou a seu posto. Mas ficou pensando, com ar de zombaria:

- Esse Capitão, hein!? Quem diria!! Cantar a camerata em cima do palco, todo mundo vendo... Só podia dar mesmo era expulsão.

Salvador, 02/04/2013

terça-feira, março 12, 2013

A música mais bonita do mundo


Capitão e seus causos


- Bom dia Capitão!
- Capitão! Me dê uma mãozinha aqui por favor!
- Capitão, tem um engovezinho aí ? O fígado hoje tá negando fogo...
Era assim.
As pessoas, para ele, não tinham nome. Todos eram, indistintamente, Capitão.
Isso, desde os tempos de faculdade, diziam seus contemporâneos do curso de Geologia.
Vem daí seu apelido de Capitão.
Se perguntarem a qualquer um que trabalhou com ele, por seu nome de batismo, a resposta só virá após uma consulta ao banco de dados da memória. Quem mesmo? Depois de algumas pistas: Ah!, Você está falando do Capitão!
Dizem as más línguas, embora isso nunca tenha sido confirmado, que ele rezava o Pai Nosso assim: “Capitão que estás no céu....”
Esse é o nosso personagem.
De sua contribuição à geologia estrutural da Borborema não vamos aqui tratar, primeiro por não estarmos à altura. Segundo, porque sua obra, vasta e importantíssima, fala por si só. O geólogo Capitão não precisa de loas desse pobre mortal.
Mas seus textos técnicos, recheados de flexuras, recumbências e rotações sinistras, nada dizem do Capitão boêmio e seresteiro, amante da boa música, da cerveja gelada, das noites de lua e de uma conversa madrugadeira na mesa de um boteco. Jogando conversa fora, lembrando os bons tempos, resolvendo os problemas do país e do mundo. Enfim, um tipo bem brasileiro.
O detalhe, em relação ao Capitão, é que ele tinha dificuldade em parar.
Explico-me.
Sabe aquele ditado, boi pra não entrar e boiada pra não sair? Foi criado para o Capitão. Quando ele começava, isto é, depois de tomar a primeira, não tinha hora de parar. Por isso, só andava de taxi. Já tinha uns motoristas conhecidos, que o deixavam no elevador do prédio, com o botão do andar pressionado.
E assim, após quase quatro décadas de atividades geológico-etílicas, por esse Brasil a fora, o Capitão colecionou causos incríveis, os mais inverossímeis que se possa imaginar e que ele saboreava relatar, com satisfação quase-orgulho, entre gostosas risadas e uns tantos novos tragos.
Vamos curtir alguns deles.

A MÚSICA MAIS BONITA DO MUNDO

Disseram ao Capitão que eu tocava violão e que gostava de seresta.

Bastou.

Passei a ser assediado por ele, até que numa sexta-feira enluarada, durante o expediente de rotina no bar da Associação, ei-lo que surge de violão em punho e uma ordem, na verdade uma sentença, dirigida a este pobre escriba:

- Capitão, hoje vamos fazer uma seresta.

Ante tamanha autoridade e, levando-se em conta que eu também gostava da coisa, iniciamos ali uma noitada memorável.

Capitão puxava do fundo do baú velhos boleros, valsas e sambas-canções, que arrematávamos com comentários saudosos e muita cachaça e cerveja. A assistência aprovou e os relógios pareceram parar para ouvir Carlos Galhardo, Francisco Alves, Vicente Celestino e  uma galeria que não se ouve mais, a não ser nos vinis esquecidos de quem, como eu, foi criado em ambiente seresteiro.

A essa altura, senti que meu compromisso de mais tarde já estava comprometido.

Lá pelas tantas, como notei que estava agradando, cismei de cantar Gardel, e ataquei de Mano a mano:

“Rechiflao en mi tristeza hoy te evoco e veo que has sido
En mi pobre vida paria solo una buena mujer...”

Enquanto eu cantava, notei que o Capitão parara a meu lado e ficara me olhando com olhos espantados, rodando um copo de cerveja nas mãos e ajeitando os óculos, como se não estivesse acreditando no que ouvia. Até que as últimas estrofes o acordaram da aparente letargia em que mergulhara:

“... Acordarte deste amigo que ha de jugarse el pellejo
Pa ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión”

Então, como um orador improvisado, pediu silêncio à turba e esclareceu:

- Pessoal, tenho 60 anos de idade e mais de 40 de boemia e posso afirmar, como profundo conhecedor do assunto. Contam-se nos dedos as pessoas que sabem cantar essa música. Pessoalmente, é a primeira vez que ouço a letra completa em espanhol. Sim, porque há uma versão em português que alguns boêmios cantam, mas em espanhol, só Gardel e uns poucos, incluindo o Capitão aqui. Portanto, vamos aplaudir o Capitão.

Encabulado, beberiquei minha cerveja, e fiquei dedilhando as cordas do Pinho, quando o Capitão, novamente impondo-se ao barulho do ambiente, me desafiou:

- Capitão, já vi que você é bom. Um dos maiores boêmios que conheci. Seu repertório é do caralho, mas pra provar que é o melhor mesmo, vai ter de saber uma música e em espanhol. Mas, se souber apenas em português já serve.

Fez-se um silêncio, tipo suspense, aguardando a pedida do Capitão. Nos semblantes, a dúvida geral. Parece-me até ter percebido certa torcida para que eu desconhecesse a música, não roubando assim, ao Capitão, a vanglória de continuar em busca de seu grande seresteiro. O maior de todos, dizia ele.

De minha parte, tomei mais um gole e aguardei. Quando o Capitão cantarolou um trechinho da música, porque ele não sabia o nome, adiantei-me:

- Conheço sim Capitão. Trata-se do bolero Nuestro Juramento e se a memória não me falhar, sei cantar sim.

Depois que molhamos as gargantas, o Capitão pediu silêncio porque, segundo eles, iríamos ouvir agora a música mais bonita do mundo.

- Sabe cantar mesmo? Porra Capitão, você é demais. Peraí... Zeca! Traz uma garrafa de Serra Grande aí, que pra ouvir essa música, temos que tomar umas cachaças. E vá fritando linguiças!

“No puedo verte triste, porque me mata,
Tu carita de pena mi dulce amor...”

À medida que o bolero se desenrolava, o Capitão parecia entrar em transe, de olhos fechados e um meio sorriso nos lábios.

“...Si yo muero primero es tu promesa,
Sobre de mi cadáver dejar caer...”

Como um maestro de imaginária orquestra, o Capitão se levantou e começou a reger, com as mãos, certamente movidas pela batuta de sentimentos muito profundos e tocantes. Todos entenderam e se emocionaram com a emoção do Capitão. Sem sombra de dúvidas, essa música abriu o baú das doces lembranças do velho seresteiro.

As últimas estrofes o fizeram abrir os olhos, voltando à realidade. Mesmo do meu banco, sob o galho da mangueira, pude ver marejados os cantinhos dos seus olhos.
“...Con toda el alma llena de sentimientos,
La escribiré con sangre, con tinta sangre del corazón”

Quando o silêncio engoliu as últimas notas do bolero, ficou no ar apenas a expectativa em torno da reação do Capitão. Qual seria?

Foi então que ele surpreendeu-nos com estranha expressão de melancolia nas feições. Lentamente, retirou os óculos, sentou-se, apoiou a cabeça entre as mãos e assim permaneceu por alguns segundo, exalando misteriosos suspiros. Depois de recompor os óculos, mirou-me diretamente:

- Capitão, você é, simplesmente, o maior seresteiro que conheço. Como é que você sabe essas letras todas?

Antes que eu respondesse, ele emendou:

- Só tem um problema, Capitão. Agora você vai ter de cantar essa música umas dez vezes. Há anos procurava alguém que soubesse essa letra e agora vou explorá-lo até a última gota.

É bom lembrar que na época dos fatos aqui narrados, não tínhamos a internet para pegar a letra e ouvir a música instantaneamente, como hoje. Para obter a letra de músicas fora dos catálogos, dependíamos de publicações especializadas ou de  encontrar algum “fóssil vivo”, como foi o caso.

- Pra começo de conversa, você vai me escrever essa letra agorinha mesmo, Capitão.

Rapidamente, sobre um guardanapo de papel engordurado, fiz o registro, que o Capitão jurou guardar ao lado de suas mais caras recordações.

E cantamos juntos uma, duas, sei lá quantas vezes, o Capitão devorando o guardanapo com seus olhos míopes, saboreando cada estrofe como se fora a última linguiça do Zeca e contagiando-nos a todos com o brilho adolescente do olhar e o mistério dos sorrisos mal contidos.

Por fim, já altas horas, ao retornar de uma ida ao banheiro um pouco mais demorada, o  Capitão revela um surpreendente convite-convocação. Havia telefonado para um primo, dono de um barzinho lá pras bandas do Aeroporto, onde um violão ficava sempre à disposição dos frequentadores, em sua maioria constituída por velhos boêmios da noite recifense.

- Capitão, vamos lá no bar do meu primo, que vou lhe apresentar os maiores seresteiros da cidade e nós vamos fazer uma seresta pra ficar na história. Hoje a noite é nossa, Capitão.

Infelizmente, frustrei o Capitão, pois tinha outro compromisso para aquela noite e não podia assim, sem mais nem menos, furar com outras pessoas. Mas, o autorizei a agendar a farra para a próxima semana, se fosse de seu agrado.

Desculpas aceitas, protestos engolidos, despedimo-nos, o Capitão me garantindo que, mesmo sem mim, iria amanhecer no bar do primo, onde iria estrear sua performance de Nuestro Juramento.

E assim foi.

Devo dizer, contudo, que nunca tive retorno do Capitão, sobre o final daquela noitada. Ele nunca me reportou e eu também nunca perguntei como tinha se saído. E digo, ainda, que nunca mais ele voltou a falar do tal bar. Não sei porquê. O que sei apenas é que mais tarde, ainda naquela memorável noite, quando já estava em meu apartamento, por volta das duas horas da manhã, levo um baita susto ao ouvir o escandaloso triiiim do telefone, que atendo ansioso. Do outro lado, um barulho infernal de música e vozes. Reconheço um ambiente de bar. A custa de muito esforço, distingo um agressivo Capitão, cuja voz pastosa denunciava embriaguês avançada:

- Porra Capitão! Sua caligrafia é uma merda! Tô tentando cantar nossa música mas tá difícil, porra. Ninguém entende essa merda de letra.

Refeito do susto revidei:

- Porra Capitão! Nós cantamos tantas vezes hoje! Onde tá pegando?

- Aqui por exemplo, ó.... Tem uma frase aqui na segunda estrofe, muito estranha... Parece “carote de pera”... Que porra é essa Capitão?

- “Carote de pera” não, Capitão. É “carita de pena”, lembra? “Tu carita de pena mi dulce amor...”

- Puta que pariu Capitão! Vem pra cá porra!

Aliviado, desliguei o telefone, mas, no fundo, eu adoraria estar lá junto com o Capitão, desfiando o lamento dos seresteiros de um tempo que já se foi.

Como já disse, não sei o que houve com o Capitão. Ou melhor, como o Capitão se houve. Mas, isso não vem ao caso. O que sei é que trago a seresta no sangue, e raras são as vezes em que tenho oportunidade de encontrar ouvintes, assim como ele, que curtam essas maravilhosas velharias. Por isso, não me perdôo. Deveria ter acompanhado o Capitão ao bar do primo. Pode ser que tivéssemos, os dois, caídos de bêbados, em pleno boteco. Mas, pode ser que a madrugada nos resgatasse e produzíssemos um concerto mágico. Quem sabe?
Pior de tudo é o gosto amargo da dúvida.

Salvador 12/03/2013

sexta-feira, março 08, 2013

24 horas de cerveja... E outras cositas


Capitão e seus causos


- Bom dia Capitão!
- Capitão! Me dê uma mãozinha aqui por favor!
- Capitão, tem um engovezinho aí ? O fígado hoje tá negando fogo...
Era assim.
As pessoas, para ele, não tinham nome. Todos eram, indistintamente, Capitão.
Isso, desde os tempos de faculdade, diziam seus contemporâneos do curso de Geologia.
Vem daí seu apelido de Capitão.
Se perguntarem a qualquer um que trabalhou com ele, por seu nome de batismo, a resposta só virá após uma consulta ao banco de dados da memória. Quem mesmo? Depois de algumas pistas: Ah!, Você está falando do Capitão!
Dizem as más línguas, embora isso nunca tenha sido confirmado, que ele rezava o Pai Nosso assim: “Capitão que estás no céu....”
Esse é o nosso personagem.
De sua contribuição à geologia estrutural da Borborema não vamos aqui tratar, primeiro por não estarmos à altura. Segundo, porque sua obra, vasta e importantíssima, fala por si só. O geólogo Capitão não precisa de loas desse pobre mortal.
Mas seus textos técnicos, recheados de flexuras, recumbências e rotações sinistras, nada dizem do Capitão boêmio e seresteiro, amante da boa música, da cerveja gelada, das noites de lua e de uma conversa madrugadeira na mesa de um boteco. Jogando conversa fora, lembrando os bons tempos, resolvendo os problemas do país e do mundo. Enfim, um tipo bem brasileiro.
O detalhe, em relação ao Capitão, é que ele tinha dificuldade em parar.
Explico-me.
Sabe aquele ditado, boi pra não entrar e boiada pra não sair? Foi criado para o Capitão. Quando ele começava, isto é, depois de tomar a primeira, não tinha hora de parar. Por isso, só andava de taxi. Já tinha uns motoristas conhecidos, que o deixavam no elevador do prédio, com o botão do andar pressionado.
E assim, após quase quatro décadas de atividades geológico-etílicas, por esse Brasil a fora, o Capitão colecionou causos incríveis, os mais inverossímeis que se possa imaginar e que ele saboreava relatar, com satisfação quase-orgulho, entre gostosas risadas e uns tantos novos tragos.
Vamos curtir alguns deles.


24 HORAS DE CERVEJA



No início, eu achava que havia exageros naqueles causos absurdos, mas comecei a mudar de opinião na festa do dia dos pais de 1992, na Associação de Empregados. Naquele ano, a Associação planejou uma festa de gala, para o sábado antecedente à data magna. Até uma banda regional fora contratada (na época na se dizia banda, mas conjunto) para abrilhantar a festa.
Pois bem, na sexta-feira, véspera da festa, como de costume, fomos todos (falo dos botequeiros, claro) ao bar da Associação, desestressar da semana cansativa, com umas loiras geladíssimas e a famosa lingüiça do Zeca, o funcionário que tomava conta do bar e jogava em todas as posições naquele ambiente.

Tudo correu dentro da mais absoluta normalidade. A partir das 21hs os frequentadores começaram e se retirar, de modo que às 22hs só restavam mesmo o Capitão e o Baixinho, em uma mesa mais recolhida, animadíssimos, sem o menor sinal de preocupação com o esvaziamento do bar e os resmungos do Zeca, que morava na periferia e dependia de ônibus pra chegar em casa.

Baixinho era o melhor amigo do Capitão, um geólogo da mesma laia, isto é, que só tinha hora pra começar. Aliás, registre-se ser o único mortal a quem o Capitão não chamava de Capitão, mas sim de Baixinho, isso mesmo. Tamanha era a deferência.

Às 23hs, quando Zeca ameaçou parar de servir cervejas, o Capitão ordenou do alto de seus 1,90m:

- Capitão, frite aí umas linguiças, deixe a chave do freezer com a gente e pode ir que amanhã nós acertamos a despesa.

Ordens são ordens.

Dia seguinte, 9hs, Zeca chega pra receber o pessoal que ia decorar o local para a festa da noite e levou um baita susto. Lá estão os dois, na mesma mesa e na mesma animação da noite anterior, rindo e contando causos, com se tivessem chegado a minutos. O freezer, praticamente vazio, precisou ser reabastecido com urgência.

- Bom dia Capitão, providencie aí mais umas linguicinhas com macaxeira, que estamos morrendo de fome.

Chegou o pessoal da decoração, decorou e foi embora.

Chegou o pessoal da banda, instalou e passou o som e foi embora.

Chegou o pessoal do bufê, guardou os comes e bebes e foi embora.

E enfim chegou a noite.

E os dois amigos ali, no mesmo lugar, na mesma mesa, a mesma cerveja e o mesmo prato de linguiças.

Finalmente, às 20hs começaram a chegar os casais para a grande festa e o corre-corre das crianças tirou a calmaria do ambiente. Visivelmente deslocados, como se tivessem invadido seu espaço, os dois amigos, finalmente, após 24 horas de bebedeira, decidem parar.

- Capitão, traz a conta aí que o ambiente ficou muito tumultuado.

Feitos os acertos, saem abraçados em busca de um taxi.

Já no portão da Associação, de onde puderam contemplar uma magnífica lua cheia espelhada nas águas do Capibaribe, o Capitão não deixou por menos:

- Baixinho, veja que lua! A noite é uma criança, Baixinho. Ainda são oito horas, tá cedo pra caramba. Vamos tomar uma saideira no Mercado da Madalena!

- Só se for agora Capitão.

E lá se foram os dois, felizes da vida, pelas ruas mal iluminadas da Madalena.

Dois personagens em busca de um novo causo.

Se houvesse no Guiness o item “tempo ininterrupto de bebida em mesa de bar” essa dupla, com certeza, seria imbatível.

Salvador 08/03/2013

terça-feira, outubro 23, 2012

Reviravolta


O tempo era de vacas magras, década de 1980.

Naquela pequena unidade da Companhia, situada em Natal, praticamente já não haviam mais projetos. Nenhum mapeamento geológico ou pesquisa mineral. As viagens de campo se acabaram e o dia-a-dia era uma coçação de saco coletiva no escritório. Um tédio.

Vai daí que o chefe da unidade, dono da belíssima Fazenda Água Boa, encravada na zona da mata, a cerca de 60km da capital, deu de botar os peões da Companhia pra trabalharem em sua propriedade particular. Dando manutenção, fazendo cercas, limpando roças, cuidando do gado, essas coisas. Enfim, já que os salários eram garantidos mesmo, pelo menos os peões não ficavam parados. Todos os dias um motorista fazia compras em Natal, pegava a peãozada e levava pra fazenda. De tarde voltava, trazendo os trabalhadores e toda sorte de carga de interesse do chefe.

E assim a vida ia transcorrendo na maré mansa, até que alguém bateu com os dentes para o chefe do chefe, em Recife. A coisa tomou ares de escândalo e ele proclamou aos quatro ventos que jamais seria conivente com tal descalabro. Cabeças rolariam, doesse a quem doesse. E elaborou minucioso telex (telex... alguém se lembra?) de denúncia ao presidente da Companhia, recomendando o imediato fechamento da unidade, com a consequente demissão dos prestadores de serviço e retorno dos efetivos a Recife. Para o bem da coisa pública.

Recomendação aceita, o presidente da Companhia expediu sucinto telex ao chefe do chefe, ordenando imediato cumprimento da faxina, ad referendum do Conselho de Administração. O chefe do chefe, que não morria de amores pelo chefe, viu chegar sua hora de tirar desforra. Levou uma semana para planejar e realocação de pessoal, custo das dispensas, distrato do aluguel, etc. De modo que numa ensolarada manhã de segunda-feira, partiu de Recife, com destino a Natal, um caminhão-baú, especialmente alugado, para trazer os equipamentos e o mobiliário do escritório condenado. Num envelope lacrado, o memorando fatal, comunicando as dolorosas decisões, que o motorista deveria entregar pessoalmente ao chefe. Anexo ao memorando, o telex presidencial.

Ocorre que o tempo é faca de dois gumes, ensina a sabedoria popular.

Enquanto o chefe do chefe planejava a desmobilização, e como nesse nosso país tudo vaza, desde antanho, a notícia vazou de Brasília e veio direto ao conhecimento do chefe, que não era, digamos assim, nenhum órfão político. Pelo contrário, tinha padrinhos influentes. Não fora à toa que permanecera à frente da unidade já há mais de uma década.

Se alguém não quiser acreditar eu compreendo, mas o fato é que quando o caminhão estacionou em frente ao escritório, na tarde daquela mesma segunda-feira, a história já era outra. Uma reviravolta política houvera ocorrido. Contra o telex de Sua Senhoria, o Presidente, determinando o fechamento da unidade, o chefe exibiu urgente e recentíssimo telegrama (telegrama... alguém se lembra?) de Sua Excelência, o Ministro, revogando a subalterna ordem e tranquilizando o chefe, quanto à manutenção da unidade, no atendimento ao legitimo interesse da sociedade potiguar.

Confuso, o motorista ligou para o chefe do chefe, dando conta do ocorrido e ficou aguardando orientações. O chefe do chefe repassou sua perplexidade ao presidente que, por sua vez, a repassou para a assessoria do ministro. Alguns minutos depois as perplexidades foram devidamente engolidas (a seco, diga-se de passagem) e o desnorteado motorista orientado a retornar vazio no dia seguinte, primeiro horário.

Dia seguinte, primeiro horário, o desnorteado motorista chega ao escritório para pegar o caminhão que ficara na garagem e dá de cara com o chefe que já o aguardava.

- Bom dia seu Roberval, já de volta?

- É doutor. Como não tem nada pra levar mesmo, vou abreviar meu retorno, pra chegar mais cedo em casa, né?

- É... Tá certo. Mas, seu Roberval, já que o senhor vai voltar vazio mesmo, e pra não perder essa oportunidade, me faça um favorzinho, tá?

Dirigindo-se ao interior do escritório:

- Chicão! Faz favor!

Meio segundo depois, apresenta-se o prestimoso Chicão, o conhecido capataz da Fazenda Água Boa.

- Chicão, a madeira dos galpões já está pronta?

- Já, sim senhor, desde ontem.

- Então seu Roberval, como eu dizia, aproveitando que o caminhão vai voltar vazio mesmo, passe ali na Madeireira Pau pra Toda Obra e leve um carregamento de madeira pra mim, lá pra Fazenda Água Boa. Fica só a 30km da BR, mas é uma estradinha de terra boa danada. Antes do almoço o senhor estará lá. Chicão vai com o Senhor pra ensinar direitinho.

Antes que o pasmo motorista ensaiasse qualquer objeção:

- O Senhor tem filhos, seu Roberval?

- Sim senhor, dois meninos.

- Chicão, após descarregar o caminhão, dê dois queijos de manteiga e uma rapadura pro Seu Roberval levar pros pirralhos dele, viu? Ah, e embale bem embaladinho, umas cinco pamonhas pro chefe de Recife, com meus cumprimentos. Não se esqueça! Vão com Deus, e boa viagem!

O embasbacado motorista se foi, o chefe retomou seus nada-afazeres, os funcionários reiniciaram a coçação de saco quase interrompida, o chefe do chefe se fingiu de morto, o presidente desculpou-se com o ministro e tudo continuou como dantes no meu Brasil varonil.

E quem quiser que conte outra história, que esta, carimbada e aprovada, já está indelevelmente registrada no rol do folclore geológico nacional, tendo por testemunhas imortais os mangues do Capibaribe e as dunas de Genipabu.
Salvador, Out/2012

quinta-feira, outubro 11, 2012

Poeminha mequetrefe

Aos companheiros de geração, de crença e de desdita.


Devia mais era fechar  o bico, ficar calado
Que afinal, não tenho guarda-costas, nem sou chefe
Sou um cidadão comum, um zé ninguém,
Cuja importância está pra lá do além,
Ou, pra ser mais moderno, um mequetrefe,
Que não merece nem o olhar de um magistrado,
Que devia mais era se olhar no espelho,
Antes de ousar, como um pentelho,
Criticar supremas decisões do STF,
Como se fora um zé mané togado.

Mas é que vendo a candura de um GM
A condenar, sem provas, Zé Dirceu,
E o relator, dedo em riste para a câmera,
Qual Cavaleiro Negro da augusta Câmara,
Dizendo: Eu acuso, Eu acuso, Eu...
Me aperta o peito, a voz cala e a mão treme.
Ah, JB... Melhor tragá-lo com gelo em doses,
A ouvi-lo, como gelo, fazendo poses
De nazista irado ante infiel judeu.
Ah, JB... Que essa chama um dia não te queime!

Invocaste agora o domínio dos fatos:
“Está na cara, o cara sabia. São fortes os indícios”.
Tudo bem. Quem sou eu pra contestar?
Entretanto, nada custa perguntar:
Da Ação Penal do Collor, nem resquícios.
Sem provas, perdeu a denúncia o status.
Por que, agora, abres mão das provas, JB?
Só domina os fatos quem é do PT?
Como vês, incorres nos mesmos velhos vícios.
Tens o mesmo mofo dos velhos retratos.

Mas podes, em breve, provar que és isento.
Dormita nas gavetas desse STF,
Encardido da poeira do salão,
O primevo e verdadeiro mensalão
Data vênia, sei que mereço um tabefe,
Mas espero que entendas meu intento
Pois falo do mensalão do Azeredo
Que Vossa Excelência condene sem medo!
Que não mires só no Lula ou na Roussef,
E que eu engula este meu mau pressentimento.

Salvador, 09/10/2012

terça-feira, maio 15, 2012

Um assobio, uma peixeira e muita saudade


Uma das lembranças mais gratas que guardo da infância, são os doces assobios de meu pai.
O velho vivia assobiando.
E, para falar a verdade, não me recordo de nenhuma música em especial que ele entoasse. Apenas me lembro que era um trinado contínuo, um fiu-fiu baixinho, ensimesmado, que nunca supus fosse soar tão alto em minhas saudades.
Na época, o fato não me chamava muito a atenção porque, é isso que quero dizer, assobiar era um hábito corriqueiro da gente da minha cidade, Paramirim. É raro você circular pela cidade e não ouvir um solo de assobio, que pode ser um samba-canção, gênero muito apreciado no lugar, ou  uma música carnavalesca, ou o que seja. Não conclua daí tratar-se de uma gente alegre ou triste. Nem diria também que aqui vale aquela máxima de que quem canta seus males espanta. Minha gente assobia simplesmente porque gosta. Mas, se preferem impor uma máxima, digamos que quem canta seus males exprime. Não rima, mas é menos dramática e mais realista.
Quando aportei em São Paulo, dezembro de 1968, entre outros choques culturais, me deparei com um povo sisudo que não assobia. Por isso me incomodava chamar a atenção para meus assobios, em mim tão naturais. Muito tímido e discreto, acabei me cerceando e reservando meus trinados aos momentos de recolhimento, longe de curiosos.
O tempo que desde então passou jamais sepultou em mim esse hábito atávico, instintivo. Girei esse país imenso procurando o que não perdi, como dizem dos geólogos por aí, e de vez em quando surpreendia a surpresa de alguém me ouvindo assobiar despreocupadamente, um tango, um bolero ou um samba de reis da minha terra. E, invariavelmente, associavam o fato, ao fato de eu ser baiano, de ter a música no sangue, esses clichês, que vocês conhecem bem.
É... Pode ser.
Certa vez viajava eu, plácido e sereno, num ônibus noturno do interior de Goiás para a capital, quando ainda não havia MP3 player e que tais. Lá pela tantas, alguém começou a executar, num solo maravilhoso, o chorinho “Saxofone por que choras?”, do grande Abel Ferreira, música que me toca a alma. E o nosso artista se esmerava, dando conta, com recursos impressionantes, do sax, da flauta, do violão e sua baixaria e até do pandeiro ele emulava as patinelas sofridas. Eu me deleitava com aquela sonoridade toda e, bem baixinho, na minha, arriscava uns acompanhamentos discretos, lá do meu cantinho, para não atrapalhar aquela verdadeira orquestra assobiônica.
Mas cada um é cada um e nem Jesus agradou a todos, quanto mais um artista anônimo e improvisado num busu noturno naqueles confins de Goiás. Deu-se que alguém foi se queixar ao motorista. Este, como um verdadeiro juiz de paz, parou o ônibus, acendeu as luzes e falou que tinha alguém assobiando alto e que aquilo estava incomodando umas pessoas e que por favor fechassem o bico e que ele esperava ter sido bem claro.
Bem claro o senhor foi, apresentou-se o tal, mas eu vou ser mais claro ainda. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe quem foi reclamar com o senhor. Agora veja bem, o bico é meu e eu abro e fecho ele na hora que eu quiser. Eu nasci e vou morrer assobiando. Pois hoje eu vou assobiar até rachar o bico e se o senhor quiser, pode ir direto pra delegacia que eu quero ver quem vai me impedir de assobiar. E tem mais, na minha mala tem uma peixeira de 12 polegadas. Toda vez que eu tiro ela da mala o sangue corre. Será que fui claro?
Ante o silêncio sepulcral, o juiz de paz disse que não queria confusão, mas que por favor, assobiasse mais baixo um pouquinho. E foi cuidar de sua direção.
Mas acho que a raiva fez o bico inchar, prejudicando o desempenho da orquestra. Depois de umas duas desafinadas do clarinete, nas notas altas, o assobiador se abusou e se recolheu. E todos dormimos em paz.
Depois das voltas de toda uma vida, fechei o ciclo de minhas andanças, retornando para minha Bahia, para Salvador, sendo mais exato. E aqui voltamos ao começo da história, porque uma das boas coisas (entre outras, claro) desse meu retorno, foi reencontrar essa gente que gosta de assobiar. Pelos corredores da Empresa, pelas ruas da cidade, no calçadão da praia, em todos os lugares você certamente vai se deparar com alguém solando uma canção no bico. Até nos banheiros, você escuta alguém fazendo xixi e assobiando, na maior tranquilidade. Eu acho uma delícia e até retomei meu velho hábito, recolhido há mais de 40 anos. Portanto, ao ouvir um assobio anônimo, em alguma rua da Boa Terra, pode ser eu.
Meu velho pai já não assobia mais, mas eu lhe herdei esse hábito que há de morrer comigo, como o destemido assobiador do ônibus, que, pelo sotaque, bem poderia ser baiano. Talvez assobiar seja uma faceta da musicalidade tão generosa por aqui. Por que não?
Se levarmos o caso por aí, não há como não falar, também, de outro hábito baiano, que carrego desde sempre: cantarolar ao chuveiro. Tem até uns causos curiosos a respeito, mas aí já é uma outra história.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Soneto com pé sem cabeça

Há tempos não me sento pra escrever nada que mereça uma postagem.
Correria, tempo curto, falta de inspiração, enfim, não vem ao caso.
O caso porém é que outro dia, na sala de espera do dentista, ouvi, sem querer, um diálogo inspirador entre duas respeitáveis matronas. Na verdade, um monólogo. Enquanto a amiga folheava uma revista Veja de 2001, a outra espinafrava sem parar um certo fulaninho, ao que entendi até parente dela mesma. Em resumo, ela tentava convencer a distraída leitora, que o fulaninho, hoje um bom vivant folgado, que não  ajuda a ninguém, subiu na vida à custa de métodos não propriamente éticos, aplicando golpes em incautos e incautas por aí.
Mas o que, de fato, me ficou da estoria e me inspirou a registrar a passagem foi a frase final, dita já da porta de entrada do dentista: - Aquilo é um pé-rapado, sem berço, posando de high society.
Na hora me deu um estalo: isso dá samba.
Bem, samba ainda veremos, mas um sonetozinho despretensioso, vá lá.
A quem se aventurar a lê-lo, vou logo avisando: é um soneto com pé, mas sem cabeça.

Chegou num pé-de-vento, ao fim da tarde branda.
Aproveitando o pé-de-briga, se postou atento,
Sondando o pé-direito do convento
E ouvindo o pé-de-bode alegre na varanda.

Rodopiando, feito um pé-de-valsa, entrou no quarto.
De pé-de-cabra em punho abriu o cofre.
Tranquilo, o pé-de-pano nada sofre,
Nem seu pé-de-atleta, nem seu pré-infarto.


Fez pé-de-meia com o investimento,
Comprou empresa, barco e pé-de-pato,
Mas com um pé atrás, já que ex-detento.

Por não ser mão-de-vaca, mas sensato,
Não jogou pé-de-moleque ao vento:
É hoje um pé-rapado high society e fino trato.
Salvador, dez/2011