Não se turbe, porém, teu coração assim.
Tudo tem seu começo, meio e fim.
Toda noite amanhece, afinal.
Tudo passa...
Seja a nuvem de chumbo, o temporal,
Sejam os gozos febris do carnaval,
Seja a tarde mais negra, qual nanquim,
Tudo passa...
Não te percas em nome de um porvir distante.
Não te canses em vão, que não és Deus,
Que não temos as chaves dos mistérios Seus.
Tudo em nós é falível, mortal e mutante...
Mas a hora que corre nos cobra atitude.
Ser feliz requer luta e intrepitude.
É preciso sonhar, qual viajante,
E deixar que nos fale a intuição,
E seguir o que manda o coração,
Sejamos nossa própria cartomante.
Mas tua pergunta provoca e instiga:
"Vale a pena viver a planejar,
Dourando sempre a vida que virá?
E o dia de hoje, não é vida?"
Na verdade, não sei o que te diga.
Mas, dizia John Lennon, (quem esquece,
Muito embora o correr feroz dos anos?)
“A vida... A vida, amigo, é o que acontece,
Enquanto traçamos nossos planos”.
Eis aí a verdade... Simples... Antiga.
Rio de Janeiro, março de 2007
Página despretensiosa. Porta-retrato cibernético de um brasileiro inquieto, que gosta de dizer coisas. E de escrever coisas. Não sei se me entendem. Mas não importa. Importa participar do mosaico cultural do Brasil desse início de Século. Não sou poeta, nem literato, nem colunista. Não sou nada, sou apenas um geólogo aprendendo com as pedras do caminho. Mas também não sou bobo. Caminhando e assuntando, aprendi a dar minhas marteladas. Relaxe, não vai doer.
sábado, março 31, 2007
segunda-feira, março 19, 2007
Meu Grande Amigo
Me perguntas se tenho um grande amigo...
Meu impulso primeiro é dizer sim,
É claro que tenho um grande amigo,
Aliás, não só um, tenho muitos, vários,
E me pego a pinçar nomes, faces,
E vou desfiando uma lista, um rosário,
Carlos, Chico, Zé, Rodrigo,
Dida, Antonio, André, Nazário...
Listaria um caderno, um livro, enfim...
Mas depois me reprimo, a meditar:
Amigo... Amigo em quem possa confiar?
Talvez, deixa ver... Apenas dois... Ou um.
Em verdade, em verdade vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
Me ajude então, pensa comigo.
É amigo quem se doa pelo irmão,
Quem se esquece de si, dos seus problemas,
Pra pensar feridas, curar edemas,
Limpar o pranto, estender a mão,
Descer ao fosso, esquecer o nome,
Matar a sede, matar a fome
De quem soluça, de quem extrema
No esquecimento, na solidão?
Nesse caso, nesse caso, deixa ver...
Não é um qualquer, um João comum.
Vamos ver... Três, dois... Não! Um...
Em verdade, vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
E então me deparo: estou sozinho.
Mas não é que eu viva retirado
Eremita, andarilho, um mendigo,
Tenho casa, família, vizinho,
Um trabalho legal, sou empregado.
Tenho extensa vivência social,
Vou a festas, comícios, burburinho,
Tenho cartões de doutores, deputados,
Visito parentes em leito de hospital,
Mas amigo, do jeito que disseste,
Que não liga pro bolso nem pras vestes,
Que te serve na bonança e no jejum,
Deixa ver... Três, dois... Não! Um...
Em verdade, vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
E enfim me dou conta de que tenho.
Tenho sim, um amigo inseparável,
Que me ouve em silêncio, com respeito,
Que medica as feridas do meu peito,
Que entende as agruras por que peno
Que, se choro, ele chora, inconsolável,
Mas, se rio, se transforma em risos, samba
Que é todo desvelo e compaixão
Companheiro fiel de coração,
Que me faz ser um astro, um deus, um bamba,
Disponível, sem rusgas nem queixumes.
Esse amigo que ama sem ciúmes,
Na tristeza, na dor, na provação...
Não exige de mim pedido algum
Em verdade vos digo, ele é só um.
Esse amigo que eu amo de paixão
É meu velho e sofrido violão.
Meu impulso primeiro é dizer sim,
É claro que tenho um grande amigo,
Aliás, não só um, tenho muitos, vários,
E me pego a pinçar nomes, faces,
E vou desfiando uma lista, um rosário,
Carlos, Chico, Zé, Rodrigo,
Dida, Antonio, André, Nazário...
Listaria um caderno, um livro, enfim...
Mas depois me reprimo, a meditar:
Amigo... Amigo em quem possa confiar?
Talvez, deixa ver... Apenas dois... Ou um.
Em verdade, em verdade vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
Me ajude então, pensa comigo.
É amigo quem se doa pelo irmão,
Quem se esquece de si, dos seus problemas,
Pra pensar feridas, curar edemas,
Limpar o pranto, estender a mão,
Descer ao fosso, esquecer o nome,
Matar a sede, matar a fome
De quem soluça, de quem extrema
No esquecimento, na solidão?
Nesse caso, nesse caso, deixa ver...
Não é um qualquer, um João comum.
Vamos ver... Três, dois... Não! Um...
Em verdade, vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
E então me deparo: estou sozinho.
Mas não é que eu viva retirado
Eremita, andarilho, um mendigo,
Tenho casa, família, vizinho,
Um trabalho legal, sou empregado.
Tenho extensa vivência social,
Vou a festas, comícios, burburinho,
Tenho cartões de doutores, deputados,
Visito parentes em leito de hospital,
Mas amigo, do jeito que disseste,
Que não liga pro bolso nem pras vestes,
Que te serve na bonança e no jejum,
Deixa ver... Três, dois... Não! Um...
Em verdade, vos digo: nenhum!
Me perguntas se tenho um grande amigo...
E enfim me dou conta de que tenho.
Tenho sim, um amigo inseparável,
Que me ouve em silêncio, com respeito,
Que medica as feridas do meu peito,
Que entende as agruras por que peno
Que, se choro, ele chora, inconsolável,
Mas, se rio, se transforma em risos, samba
Que é todo desvelo e compaixão
Companheiro fiel de coração,
Que me faz ser um astro, um deus, um bamba,
Disponível, sem rusgas nem queixumes.
Esse amigo que ama sem ciúmes,
Na tristeza, na dor, na provação...
Não exige de mim pedido algum
Em verdade vos digo, ele é só um.
Esse amigo que eu amo de paixão
É meu velho e sofrido violão.
sábado, março 10, 2007
Sim e Não
Não as palavras que cortam como faca,
Não as frases que separam, qual catraca,
Mas o verbo que consola e ampara, feito maca.
Não os gritos roucos dos desesperados,
Não a afonia inerme dos desamparados,
Mas a voz suave, que acalma e sustenta, qual cajado.
Não o olhar de fogo dos fuzis,
Não o olhar sem brilho do infeliz,
Mas o olhar de paz dos homens gentis.
Não o andar sem rumo, solitário,
Não o andar furtivo do sicário,
Mas o passo acolhedor do missionário.
Não o punho cerrado, da descrença,
Não as mãos enrijecidas da doença,
Mas o abraço que conforta, como bênção.
Não o beijo social, indiferente,
Não o beijo ensandecido da paixão fremente,
Mas o beijo terno, verdadeiro, consciente.
Não a paz dos fracos e vencidos,
Não a paz dos interesses concedidos,
Mas a paz dos homens bons e esclarecidos.
Não o choro das tragédias da cidade,
Não o choro da cruel fatalidade,
Mas o choro sereno da saudade.
Não o riso vão dos carnavais,
Não o escárnio zombeteiro dos rivais,
Mas o riso amigo, compreensivo, dos casais.
Não a raiva cega que enfurece e atordoa,
Não a fúria que a vingança entoa,
Mas a serenidade que abraça e perdoa.
Não o silêncio das vozes caladas,
Não o silêncio das vidas tombadas,
Mas o silêncio da paz alcançada.
Não o bramir dos ventos que a nuvem desfaz,
Não o estampido da armas que matam, mas
O fragor da canção que espalha a paz.
Brasília, março/2007
Não as frases que separam, qual catraca,
Mas o verbo que consola e ampara, feito maca.
Não os gritos roucos dos desesperados,
Não a afonia inerme dos desamparados,
Mas a voz suave, que acalma e sustenta, qual cajado.
Não o olhar de fogo dos fuzis,
Não o olhar sem brilho do infeliz,
Mas o olhar de paz dos homens gentis.
Não o andar sem rumo, solitário,
Não o andar furtivo do sicário,
Mas o passo acolhedor do missionário.
Não o punho cerrado, da descrença,
Não as mãos enrijecidas da doença,
Mas o abraço que conforta, como bênção.
Não o beijo social, indiferente,
Não o beijo ensandecido da paixão fremente,
Mas o beijo terno, verdadeiro, consciente.
Não a paz dos fracos e vencidos,
Não a paz dos interesses concedidos,
Mas a paz dos homens bons e esclarecidos.
Não o choro das tragédias da cidade,
Não o choro da cruel fatalidade,
Mas o choro sereno da saudade.
Não o riso vão dos carnavais,
Não o escárnio zombeteiro dos rivais,
Mas o riso amigo, compreensivo, dos casais.
Não a raiva cega que enfurece e atordoa,
Não a fúria que a vingança entoa,
Mas a serenidade que abraça e perdoa.
Não o silêncio das vozes caladas,
Não o silêncio das vidas tombadas,
Mas o silêncio da paz alcançada.
Não o bramir dos ventos que a nuvem desfaz,
Não o estampido da armas que matam, mas
O fragor da canção que espalha a paz.
Brasília, março/2007
sábado, fevereiro 24, 2007
O Pum Magnético
Corria o ano da graça de 1979. O projeto Palmeirópolis ia de vento em popa, lá naquelas quebradas de Goiás, sertão bravo, trabalho duro. Geologia, geoquímica, geofísica, sondagem, topografia, poços, trincheiras, o escambau. No acampamento, em pleno chapadão do Morro Solto, chegou-se a ter mais de cem pessoas, que se distribuíam por seis alojamentos, entenda-se, barracos de palha, com cerca de 10 m de comprimento. Além dos alojamentos, tínhamos os escritórios, a cozinha, o depósito dos testemunhos de sondagem, outros depósitos, oficinas, garagens, enfim, no total eram uns vinte barracos, na verdade uma mini-cidade, ali naquelas solidões goianas. As únicas diversões, além do trabalho, claro, era um “tapa no beiço” dentro dos barracos, após o expediente e as visitas à cidade de Palmeirópolis, aos sábados, para um relax, que ninguém é de ferro.
A distribuição dos alojamentos era profissional, isto é, tinha o barraco dos geólogos e engenheiros (ou dos NS, de nível superior), dos técnicos, dos motoristas, e assim por diante. O dos técnicos ficava ao lado do dos NS e era o mais divertido de todos, porque a turma era grande, muito animada, criativa e sacana, no bom sentido. Viviam aprontando, uns com os outros. Dr. Litrão, o que mandava o “tapa no beiço”, dava consulta até tarde da noite. Em tempo, tarde da noite, naqueles ermos era oito horas, porque às nove já todos dormiam. O trampo era pesado e a movimentação no acampamento começava às cinco da matina.
Do barraco dos NS, ficávamos ouvindo a zorra dos técnicos e nos deliciando com as aprontações. Quem se atrasasse um pouquinho pra se deitar, dançava na certa. A cambada ficava quietinha, fingindo dormir, só aguardando o cristo entrar e se deitar. Catapum-puf! No mínimo, tinham quatro pilhas sob os pés da cama. Isto, na melhor das hipóteses, quando a dita cuja estava no seu respectivo lugar. Muitas vezes, principalmente nos fins de semana, o pato chegava e a cama estava pendurada no teto, suspensa por um mecanismo de roldana, especialmente desenvolvido.
O cristo preferido era o Nunes. Tudo o que tinham que aprontar era pra cima do coitado. Era apagar as luzes (gerador a diesel) e tudo que era sapato, bota, sandália, meiões bufentos de chulé, etc, tudo voava pra cama do Nunes. Dos outros barracos, a gente ouvia a voz suplicante da vítima:
-Faz isso não gente!
-Pára, Barbalho!
-Puta que pariu!
Todo novato que chegava, tinha que ser batizado. Era lei. Depois, o noviço se entrosava. Mas tinha que passar por um bom trote.
Anunciaram a chegada de um tal de Erivã*, para estágio. A turma se ouriçou. Começaram o bolar a recepção e as sugestões sádicas foram surgindo:
-Óleo de rícino na comida!
-Mijo no cantil!
-Ácido clorídrico no tubo de desodorante!
Alguns babavam só de imaginar. Pareciam o Fradim, do saudoso Henfil. Ou, como dizia Zeca Mato Grosso, chefe do projeto, aquilo era uma súcia de sacripantas, sátrapas e sicofantas. Deu pra entender? Pois é.
Bem, acertados os detalhes, foi preparado um plano diabólico.
No dia seguinte, formou-se uma comissão para ir buscar o condenado, isto é, o estagiário, na estação rodoviária da cidade. Zé do Egito era o presidente, Divino, o secretário e Barbalho, o assessor especial do presidente. Na rodoviária mesmo, já foram preparando o espírito da vítima:
-Ó bicho, tem que trabalhar com cuidado, porque os caras aqui são foda. Qualquer coisa, eles enrabam a gente na maior. Tem um tal de Dr. Gedel*, que só de ver ele, a gente se borra. Até tapa na orêia de técnico ela já deu e por nadica, só por uma coisinha à toa. Tomara que você não tenha que trabalhar com ele!
O tal Dr. Gedel, na verdade, era o Gelão, encarregado da sondagem. Negão de 1,80m de altura, 1,50m de largura, 150 kg de massa bruta. Ao contrário do que sua figura sugeria, Gelão era um doce de figura. Paciência de Jó, prestativo, filósofo, vivia cantarolando e sorria o tempo todo. Dormia num barraco à parte, porque o volume do seu ronco, não deixava ninguém dormir, num raio de 50m ao redor. Era uma cena bizarra, vê-lo passar cantarolando, para ir tomar banho, enrolado em duas toalhas, que D. Maguinha, sua esposa, emendava, para poder abarcar toda a circunferência de sua exuberante barriga. Uma figuraça, o Gelão.
Mas, voltemos à tortura, isto é, à comissão de recepção. Quando o Divino falou no Dr. Gedel, o Barbalho ponderou, com ar de simulada preocupação:
-Ixe rapaz! Eu ouvi ontem, pelo rádio do acampamento, que o Dr. Gedel estaria chegando hoje, de helicóptero, só para supervisionar o trabalho dos estagiários.
Zé do Egito, fingindo surpresa:
-Porra!, Para o home vir de helicóptero, a coisa é séria mesmo. Será que ele já chegou?
Divino pegou a deixa:
-Vamos perguntar praquele Senhor ali na esquina, se passou algum helicóptero por aqui.
-Seu Delfino! O Senhor viu se passou um helicóptero hoje, por aqui?
-Vi sim, coisa de meia hora, mais ou menos.
-E o Senhor viu pra que lado ele seguiu?
-Lá pras bandas do Morro Solto.
Não pensem que algo tinha sido combinado com o Delfino. Qualquer um ali na cidade responderia do mesmo jeito, porque, na verdade, tratava-se do helicóptero de uma empresa que estava fazendo levantamento aerogeofísico para a CPRM e todos os dias, naquele período, era visto sobrevoando a região.
Aí começou o terror psicológico:
-Ih! Cê tá fudido, companheiro!
-O cara é foda, meu irmão!
-Mas pode contar com a gente pra qualquer coisa. Não se desespere antes da hora. Tenha fé em Deus. O Claret fez estágio com ele e tá aí, vivinho da silva.
O Erivã estava boquiaberto, sem saber o que falar. Com os olhos esbugalhados, ficava ouvindo aquelas considerações, já arrependido de ter aceitado aquele estágio. Começou a suar frio. Os carrascos não davam trégua:
-Aposto como amanhã, domingo, aquele monstro vai querer que você trabalhe. O cara é desumano!
-Pior é que se você se recusar, tá fudido. É capaz dele te dar uns sopapos, como fez com o Délio Silva*.
-Lembram de quando ele fez o Rocha lamber o sal do IP, só porque o coitado saiu dez minutos pra tomar água?. IP é a sigla inglesa de Polarização Induzida, um método geofísico que usa uma solução salina para melhorar a injeção da corrente elétrica no solo.
-E a vez que ele fez o Góia* dormir no mato, só porque ele desviou o rumo da picada em meio grau?
-O cara é fodão me-es-mo!
Ao chegarem no acampamento, o Erivã, alma da maior boa fé que pode haver no mundo, estava pálido como cera, trêmulo, muito sério, apenas olhava de um lado para o outro, incapaz de pronunciar qualquer palavra com mais de uma sílaba. Foi logo procurando o banheiro, pois já havia adquirido uma diarréia de fundo nervoso. Mal sai do banheiro, suando em bicas, dá de cara com o Tóte, topógrafo que se apresenta em nome do Dr. Gedel:
-Você é que é o novo estagiário?
-S-Sim.
-Prazer! Você já trabalhou com magnetometria?
-J-Já.
-Sabe calibrar o magnetômetro?
-Hem?!
-Porra, bicho! Agora fodeu... Mas fique tranqüilo. Nós vamos te ensinar. Basta fazer leituras periódicas e plotar os valores num gráfico como este aqui, ó. Depois, é só construir o gráfico das leituras. O formato da curva vai mostrar se o aparelho está calibrado ou não. Entendeu?
-Acho que s-sim.
-Então está bom. O Dr. Gedel chegou hoje de Goiânia e precisa desse aparelho devidamente calibrado o mais rápido possível. Ele mandou que você o calibrasse amanhã de manhã. Alguma dúvida?
-Onde eu faço isso? Gemeu o Erivã.
-Ah! Ia me esquecendo. É procê instalar o aparelho no centro do campo de futebol, e fazer leituras de 15 em 15 minutos, das seis da manhã até as 18 horas. Depois, apresente-se a ele, naquele barraco ali, ó. E lhe apontou o barraco do Gelão.
-Uma última recomendação. Durante as leituras, evite movimentos bruscos, ou qualquer barulho que possa afetar a sensibilidade do aparelho. Certo?
Erivã ameaçou um desmaio, mas foi contido com uma baldada de água fria.
Natal ensaia um consolo paternal:
-É bom você dormir cedo, companheiro, porque o Dr. Gedel se levanta às 4h00, todos os dias.
É claro que o leitor já sentiu que esse papo de calibrar aparelho era uma grande armação, aproveitando a inexperiência do estagiário.
No restaurante, durante o jantar, quando todos estavam em volta das mesas, alguém entra e fala bem alto para o cozinheiro:
-Ô Cabelo! Cabelo era o nome do cozinheiro. Dr. Gedel pede pra mandar servir o jantar dele lá no barraco, com três bifes macios e suco de maracujá, porque ele está muito nervoso!
Erivã sentiu uma súbita vontade de vomitar e saiu às pressas do restaurante. Pegou seu livrinho de orações, fez um Pai Nosso, dois Credos, três Salve Rainhas, dez Ave Marias e se deitou, com um último pensamento de consolo íntimo: “Seja o que Deus quiser!”
Enquanto o pobre dormia, a cambada foi toda pra cidade e lá era só o que se comentava, todo mundo antegozando o dia de amanhã.
E o dia de amanhã chegou. Meio dia, a negada começando a se levantar, todos numa ressaca braba, e lá estava o Erivã , sentado num banquinho, no centro do campinho de peladas. No céu, uma lua de 35 graus. O pobre fazia anotações e suava em bicas. Uns 5 m afastados, uma garrafa térmica, com água. De vez em quando ele se levantava lentamente, ia pé-ante-pé até a garrafa e dava umas goladas, sem tirar os olhos do aparelho.
Às 13h00, o Cabelo ficou com pena e foi levar-lhe um prato de comida, mas de longe foi contido pelos insistentes sinais do técnico que se levantou na ponta dos pés e foi saltitando ao seu encontro. Beliscou um naco de carne, sentiu as vistas turvas, dispensou o cozinheiro e voltou, lépido, para seu banquinho.
Finalmente, às 18h00, o Erivã já tinha o bendito gráfico prontinho. Chegara o momento mais temido: ir ter com o Dr. Gedel. Nenhum dos colegas quis acompanhá-lo. Cada um alegava um motivo:
-Eu tenho filhos pra criar.
-Eu preciso do emprego. Sou arrimo de família.
-Cara que mamãe beijou...
Quase se borrando, o coitado se dirige ao escritório, onde uma placa na porta anunciava:
ESCRITÓRIO DO Dr. GEDEL
NÃO ENTRE SEM SER CONVIDADO
Erivã volta ofegante ao barraco dos técnicos:
-Como é que eu entro? Eu sou convidado?
Compadecido, o Claudionor se oferece para acompanhá-lo. Na porta, ainda faz seu terrorzinho:
-Momentinho. Deixa eu lhe anunciar. Dá três pancadinhas e entra.
Lá dentro, o negão tava numa ressaca desgraçada. Tinha acordado naquela hora e nem se lembrava do trote. Mas decidiu colaborar. Cinco minutos depois, o Claudionor sai:
-Pode entrar, companheiro. Boa sorte!
Quando Erivã deu de cara com aqueles 150 kg de crioulo atrás da mesa, sem camisa e com aquela cara do Idi Amin, só não voltou correndo porque suas pernas jamais lhe obedeceriam naquele momento.
Gelão, conforme o combinado, foi logo atacando:
Então o Senhor é que é o seu Jerivã? Prazer. Hum... Fez a calibragem direitinho? Deixa eu ver!
-T-Tá aqui doutor. E lhe entregou o gráfico.
Gelão nunca tinha visto um gráfico daqueles na sua vida. Nem desconfiava pra que servia aquilo. Mas foi correndo os dedos sobre a curva, como se estivesse analisando profundamente.
A distribuição dos alojamentos era profissional, isto é, tinha o barraco dos geólogos e engenheiros (ou dos NS, de nível superior), dos técnicos, dos motoristas, e assim por diante. O dos técnicos ficava ao lado do dos NS e era o mais divertido de todos, porque a turma era grande, muito animada, criativa e sacana, no bom sentido. Viviam aprontando, uns com os outros. Dr. Litrão, o que mandava o “tapa no beiço”, dava consulta até tarde da noite. Em tempo, tarde da noite, naqueles ermos era oito horas, porque às nove já todos dormiam. O trampo era pesado e a movimentação no acampamento começava às cinco da matina.
Do barraco dos NS, ficávamos ouvindo a zorra dos técnicos e nos deliciando com as aprontações. Quem se atrasasse um pouquinho pra se deitar, dançava na certa. A cambada ficava quietinha, fingindo dormir, só aguardando o cristo entrar e se deitar. Catapum-puf! No mínimo, tinham quatro pilhas sob os pés da cama. Isto, na melhor das hipóteses, quando a dita cuja estava no seu respectivo lugar. Muitas vezes, principalmente nos fins de semana, o pato chegava e a cama estava pendurada no teto, suspensa por um mecanismo de roldana, especialmente desenvolvido.
O cristo preferido era o Nunes. Tudo o que tinham que aprontar era pra cima do coitado. Era apagar as luzes (gerador a diesel) e tudo que era sapato, bota, sandália, meiões bufentos de chulé, etc, tudo voava pra cama do Nunes. Dos outros barracos, a gente ouvia a voz suplicante da vítima:
-Faz isso não gente!
-Pára, Barbalho!
-Puta que pariu!
Todo novato que chegava, tinha que ser batizado. Era lei. Depois, o noviço se entrosava. Mas tinha que passar por um bom trote.
Anunciaram a chegada de um tal de Erivã*, para estágio. A turma se ouriçou. Começaram o bolar a recepção e as sugestões sádicas foram surgindo:
-Óleo de rícino na comida!
-Mijo no cantil!
-Ácido clorídrico no tubo de desodorante!
Alguns babavam só de imaginar. Pareciam o Fradim, do saudoso Henfil. Ou, como dizia Zeca Mato Grosso, chefe do projeto, aquilo era uma súcia de sacripantas, sátrapas e sicofantas. Deu pra entender? Pois é.
Bem, acertados os detalhes, foi preparado um plano diabólico.
No dia seguinte, formou-se uma comissão para ir buscar o condenado, isto é, o estagiário, na estação rodoviária da cidade. Zé do Egito era o presidente, Divino, o secretário e Barbalho, o assessor especial do presidente. Na rodoviária mesmo, já foram preparando o espírito da vítima:
-Ó bicho, tem que trabalhar com cuidado, porque os caras aqui são foda. Qualquer coisa, eles enrabam a gente na maior. Tem um tal de Dr. Gedel*, que só de ver ele, a gente se borra. Até tapa na orêia de técnico ela já deu e por nadica, só por uma coisinha à toa. Tomara que você não tenha que trabalhar com ele!
O tal Dr. Gedel, na verdade, era o Gelão, encarregado da sondagem. Negão de 1,80m de altura, 1,50m de largura, 150 kg de massa bruta. Ao contrário do que sua figura sugeria, Gelão era um doce de figura. Paciência de Jó, prestativo, filósofo, vivia cantarolando e sorria o tempo todo. Dormia num barraco à parte, porque o volume do seu ronco, não deixava ninguém dormir, num raio de 50m ao redor. Era uma cena bizarra, vê-lo passar cantarolando, para ir tomar banho, enrolado em duas toalhas, que D. Maguinha, sua esposa, emendava, para poder abarcar toda a circunferência de sua exuberante barriga. Uma figuraça, o Gelão.
Mas, voltemos à tortura, isto é, à comissão de recepção. Quando o Divino falou no Dr. Gedel, o Barbalho ponderou, com ar de simulada preocupação:
-Ixe rapaz! Eu ouvi ontem, pelo rádio do acampamento, que o Dr. Gedel estaria chegando hoje, de helicóptero, só para supervisionar o trabalho dos estagiários.
Zé do Egito, fingindo surpresa:
-Porra!, Para o home vir de helicóptero, a coisa é séria mesmo. Será que ele já chegou?
Divino pegou a deixa:
-Vamos perguntar praquele Senhor ali na esquina, se passou algum helicóptero por aqui.
-Seu Delfino! O Senhor viu se passou um helicóptero hoje, por aqui?
-Vi sim, coisa de meia hora, mais ou menos.
-E o Senhor viu pra que lado ele seguiu?
-Lá pras bandas do Morro Solto.
Não pensem que algo tinha sido combinado com o Delfino. Qualquer um ali na cidade responderia do mesmo jeito, porque, na verdade, tratava-se do helicóptero de uma empresa que estava fazendo levantamento aerogeofísico para a CPRM e todos os dias, naquele período, era visto sobrevoando a região.
Aí começou o terror psicológico:
-Ih! Cê tá fudido, companheiro!
-O cara é foda, meu irmão!
-Mas pode contar com a gente pra qualquer coisa. Não se desespere antes da hora. Tenha fé em Deus. O Claret fez estágio com ele e tá aí, vivinho da silva.
O Erivã estava boquiaberto, sem saber o que falar. Com os olhos esbugalhados, ficava ouvindo aquelas considerações, já arrependido de ter aceitado aquele estágio. Começou a suar frio. Os carrascos não davam trégua:
-Aposto como amanhã, domingo, aquele monstro vai querer que você trabalhe. O cara é desumano!
-Pior é que se você se recusar, tá fudido. É capaz dele te dar uns sopapos, como fez com o Délio Silva*.
-Lembram de quando ele fez o Rocha lamber o sal do IP, só porque o coitado saiu dez minutos pra tomar água?. IP é a sigla inglesa de Polarização Induzida, um método geofísico que usa uma solução salina para melhorar a injeção da corrente elétrica no solo.
-E a vez que ele fez o Góia* dormir no mato, só porque ele desviou o rumo da picada em meio grau?
-O cara é fodão me-es-mo!
Ao chegarem no acampamento, o Erivã, alma da maior boa fé que pode haver no mundo, estava pálido como cera, trêmulo, muito sério, apenas olhava de um lado para o outro, incapaz de pronunciar qualquer palavra com mais de uma sílaba. Foi logo procurando o banheiro, pois já havia adquirido uma diarréia de fundo nervoso. Mal sai do banheiro, suando em bicas, dá de cara com o Tóte, topógrafo que se apresenta em nome do Dr. Gedel:
-Você é que é o novo estagiário?
-S-Sim.
-Prazer! Você já trabalhou com magnetometria?
-J-Já.
-Sabe calibrar o magnetômetro?
-Hem?!
-Porra, bicho! Agora fodeu... Mas fique tranqüilo. Nós vamos te ensinar. Basta fazer leituras periódicas e plotar os valores num gráfico como este aqui, ó. Depois, é só construir o gráfico das leituras. O formato da curva vai mostrar se o aparelho está calibrado ou não. Entendeu?
-Acho que s-sim.
-Então está bom. O Dr. Gedel chegou hoje de Goiânia e precisa desse aparelho devidamente calibrado o mais rápido possível. Ele mandou que você o calibrasse amanhã de manhã. Alguma dúvida?
-Onde eu faço isso? Gemeu o Erivã.
-Ah! Ia me esquecendo. É procê instalar o aparelho no centro do campo de futebol, e fazer leituras de 15 em 15 minutos, das seis da manhã até as 18 horas. Depois, apresente-se a ele, naquele barraco ali, ó. E lhe apontou o barraco do Gelão.
-Uma última recomendação. Durante as leituras, evite movimentos bruscos, ou qualquer barulho que possa afetar a sensibilidade do aparelho. Certo?
Erivã ameaçou um desmaio, mas foi contido com uma baldada de água fria.
Natal ensaia um consolo paternal:
-É bom você dormir cedo, companheiro, porque o Dr. Gedel se levanta às 4h00, todos os dias.
É claro que o leitor já sentiu que esse papo de calibrar aparelho era uma grande armação, aproveitando a inexperiência do estagiário.
No restaurante, durante o jantar, quando todos estavam em volta das mesas, alguém entra e fala bem alto para o cozinheiro:
-Ô Cabelo! Cabelo era o nome do cozinheiro. Dr. Gedel pede pra mandar servir o jantar dele lá no barraco, com três bifes macios e suco de maracujá, porque ele está muito nervoso!
Erivã sentiu uma súbita vontade de vomitar e saiu às pressas do restaurante. Pegou seu livrinho de orações, fez um Pai Nosso, dois Credos, três Salve Rainhas, dez Ave Marias e se deitou, com um último pensamento de consolo íntimo: “Seja o que Deus quiser!”
Enquanto o pobre dormia, a cambada foi toda pra cidade e lá era só o que se comentava, todo mundo antegozando o dia de amanhã.
E o dia de amanhã chegou. Meio dia, a negada começando a se levantar, todos numa ressaca braba, e lá estava o Erivã , sentado num banquinho, no centro do campinho de peladas. No céu, uma lua de 35 graus. O pobre fazia anotações e suava em bicas. Uns 5 m afastados, uma garrafa térmica, com água. De vez em quando ele se levantava lentamente, ia pé-ante-pé até a garrafa e dava umas goladas, sem tirar os olhos do aparelho.
Às 13h00, o Cabelo ficou com pena e foi levar-lhe um prato de comida, mas de longe foi contido pelos insistentes sinais do técnico que se levantou na ponta dos pés e foi saltitando ao seu encontro. Beliscou um naco de carne, sentiu as vistas turvas, dispensou o cozinheiro e voltou, lépido, para seu banquinho.
Finalmente, às 18h00, o Erivã já tinha o bendito gráfico prontinho. Chegara o momento mais temido: ir ter com o Dr. Gedel. Nenhum dos colegas quis acompanhá-lo. Cada um alegava um motivo:
-Eu tenho filhos pra criar.
-Eu preciso do emprego. Sou arrimo de família.
-Cara que mamãe beijou...
Quase se borrando, o coitado se dirige ao escritório, onde uma placa na porta anunciava:
ESCRITÓRIO DO Dr. GEDEL
NÃO ENTRE SEM SER CONVIDADO
Erivã volta ofegante ao barraco dos técnicos:
-Como é que eu entro? Eu sou convidado?
Compadecido, o Claudionor se oferece para acompanhá-lo. Na porta, ainda faz seu terrorzinho:
-Momentinho. Deixa eu lhe anunciar. Dá três pancadinhas e entra.
Lá dentro, o negão tava numa ressaca desgraçada. Tinha acordado naquela hora e nem se lembrava do trote. Mas decidiu colaborar. Cinco minutos depois, o Claudionor sai:
-Pode entrar, companheiro. Boa sorte!
Quando Erivã deu de cara com aqueles 150 kg de crioulo atrás da mesa, sem camisa e com aquela cara do Idi Amin, só não voltou correndo porque suas pernas jamais lhe obedeceriam naquele momento.
Gelão, conforme o combinado, foi logo atacando:
Então o Senhor é que é o seu Jerivã? Prazer. Hum... Fez a calibragem direitinho? Deixa eu ver!
-T-Tá aqui doutor. E lhe entregou o gráfico.
Gelão nunca tinha visto um gráfico daqueles na sua vida. Nem desconfiava pra que servia aquilo. Mas foi correndo os dedos sobre a curva, como se estivesse analisando profundamente.
– Hum.. Ahã... Senta aí seu Ronivan. O Senhor está bem? Está sentindo alguma coisa?
-Eu tô bem. Meu nome é Erivã ...
-Grande merda!. E segue analisando o gráfico.
–Hum... Ahã... De repente pára, como se tivesse encontrado algo suspeito.
-Seu Jonivan, que significa essa quebra da curva aqui às 14h30? Dá pra me explicar, heim?
O estado do infeliz era de dar compaixão. As pernas tremiam, o queixo batia e a camisa, literalmente, encharcou-se de suor. A boca era algo indefinível, entre o riso e o choro. Quis balbuciar uma resposta, mas só conseguiu um lamento:
-Não sei Doutor... mas o meu nome é...
-Eu sei seu nome seu João Ivan, por favor, apenas responda minhas perguntas! Por acaso o Senhor se lembra se por volta aí das 14h20, 14h25, deu um vento forte?
-N-n-não Senhor.
-Choveu?
-N-n-não Senhor.
-Relampejou? Trovejou?
-N-n-não Senhor.
-Aqui tem algo muito estranho... Vejamos...
Repentinamente, dá um soco na mesa e se vira para o Erivã , os olhos arregalados, como se tivesse descoberto algo grave. Ao ver aquela expressão, Erivã se lembrou da imagem do Gelão enfiando a mão na orêia do Délio.
-Seu Renivan, me responda com toda sinceridade, olhando bem nos meus olhos. Nesse intervalo a que me referi, por acaso o Senhor não soltou nenhum peido, perto do aparelho, soltou?
Na frente da mesa havia um trapo humano:
-B-b-bem, Dr. Gedel, na verdade eu acho que soltei uns dois ou três peidinhos, m-m-mas não me lembro bem da hora e...
-Seu biltre! Só falta agora me dizer que comeu carne no almoço...
-M-m-mas foi só um pedacinho...
-Seu parvo, estúpido! Outro soco na mesa –Então não lhe ensinaram, na escola, que peido de carne de vaca provoca uma tempestade magnética local? Hein? O Senhor estudou pra que? Pra asno?
-E-eu n-n-não sabia...
Gelão, que estava tomando gosto pela coisa, tascou três socos que abriram um rombo no tampo da mesa:
-Seu pústula! Seu pulha! Seu pustema! Seu...
Não precisou prosseguir, porque Erivã , quando viu o buraco na mesa, desmaiou e caiu durinho no chão. Gelão aflito, chamou a negada que estava tudo ali por perto, ouvindo, se deliciando.
Socorrido o coitado, o pessoal resolveu dar por encerrado o trote, ou seu coração poderia não resistir.
Após o jantar, fizeram uma grande festa para o Erivã , que a partir daí se entrosou perfeitamente e tornou-se um grande técnico, depois contratado oficialmente. Mas ficou definitivamente marcado pelo episódio do peido magnético. Dizem que até hoje, quando surge um negão em sua frente, vem aquele friozinho na barriga e ele corre pro banheiro mais próximo. Dizem, não sei se é verdade. Mas aí já é uma outra história.
..................................................................................................................................................-Eu tô bem. Meu nome é Erivã ...
-Grande merda!. E segue analisando o gráfico.
–Hum... Ahã... De repente pára, como se tivesse encontrado algo suspeito.
-Seu Jonivan, que significa essa quebra da curva aqui às 14h30? Dá pra me explicar, heim?
O estado do infeliz era de dar compaixão. As pernas tremiam, o queixo batia e a camisa, literalmente, encharcou-se de suor. A boca era algo indefinível, entre o riso e o choro. Quis balbuciar uma resposta, mas só conseguiu um lamento:
-Não sei Doutor... mas o meu nome é...
-Eu sei seu nome seu João Ivan, por favor, apenas responda minhas perguntas! Por acaso o Senhor se lembra se por volta aí das 14h20, 14h25, deu um vento forte?
-N-n-não Senhor.
-Choveu?
-N-n-não Senhor.
-Relampejou? Trovejou?
-N-n-não Senhor.
-Aqui tem algo muito estranho... Vejamos...
Repentinamente, dá um soco na mesa e se vira para o Erivã , os olhos arregalados, como se tivesse descoberto algo grave. Ao ver aquela expressão, Erivã se lembrou da imagem do Gelão enfiando a mão na orêia do Délio.
-Seu Renivan, me responda com toda sinceridade, olhando bem nos meus olhos. Nesse intervalo a que me referi, por acaso o Senhor não soltou nenhum peido, perto do aparelho, soltou?
Na frente da mesa havia um trapo humano:
-B-b-bem, Dr. Gedel, na verdade eu acho que soltei uns dois ou três peidinhos, m-m-mas não me lembro bem da hora e...
-Seu biltre! Só falta agora me dizer que comeu carne no almoço...
-M-m-mas foi só um pedacinho...
-Seu parvo, estúpido! Outro soco na mesa –Então não lhe ensinaram, na escola, que peido de carne de vaca provoca uma tempestade magnética local? Hein? O Senhor estudou pra que? Pra asno?
-E-eu n-n-não sabia...
Gelão, que estava tomando gosto pela coisa, tascou três socos que abriram um rombo no tampo da mesa:
-Seu pústula! Seu pulha! Seu pustema! Seu...
Não precisou prosseguir, porque Erivã , quando viu o buraco na mesa, desmaiou e caiu durinho no chão. Gelão aflito, chamou a negada que estava tudo ali por perto, ouvindo, se deliciando.
Socorrido o coitado, o pessoal resolveu dar por encerrado o trote, ou seu coração poderia não resistir.
Após o jantar, fizeram uma grande festa para o Erivã , que a partir daí se entrosou perfeitamente e tornou-se um grande técnico, depois contratado oficialmente. Mas ficou definitivamente marcado pelo episódio do peido magnético. Dizem que até hoje, quando surge um negão em sua frente, vem aquele friozinho na barriga e ele corre pro banheiro mais próximo. Dizem, não sei se é verdade. Mas aí já é uma outra história.
* Nomes fictícios de personagns reais
Tardes de Julho
Tardes nubladas de fina garoa,
Tardes geladas de sombras, granizo,
Tardes doridas, de lembranças vagas...
Vaga saudade que ressuma, ecoa,
Retratos difusos de amores vãos.
De onde me vem agora esse sorriso?
És tu Joana que me afagas?
Teu riso fere, magoa...
És tu que meu peito rasgas?
Por entre véus te diviso,
E então foges, negas-me as mãos.
Por certo, vingas radiante,
A mão negada na manhã distante
Mãos de neve, de olor jasmim,
Sinto agora nos cachos grisalhos.
Certamente, és tu Mariana
Que, há muitos anos, te foste de mim,
E nos desvãos dos meus sutis atalhos
Sorvi o travo da saudade insana.
Mas, sinto trêmulos teus róseos dedos
Anda, querida, conta teus segredos!
Mas foges, também, nas brumas...
E então me roça a face um beijo,
Um lábio antigo que supunha morto
Nos arraiais da mocidade. Espumas
Borbulhantes de febril desejo.
Nancy: farol, jangada e porto.
Por que te foste? Não me lembro mais.
E agora, meu amor, por que te vais?
Ah! Esse perfume, esse fragor de rosas,
Esse calor que me aquece e acalma,
Esse desvelo em me abraçar, gentil...
Evocações de Dora, faces vaporosas,
Por entre os véus que me descerram a alma
E os velhos becos do meu peito frio
Já rola, agora, o pranto aos borbotões,
Do meu passado a remontar visões.
Meu Deus! Quem canta essa canção tão linda?
Que voz é essa que me leva ao céu?
Que me arrebata de saudade e dor?
És tu, Cinira? Amas-me ainda?
Acaso vens cobrar meu vil papel?
Pois saibas que fui eu o perdedor.
Mas fica, canta, dá-me teu perdão!
Ainda tens meu nome em teu cordão?
Debalde imploro. As sombras vêm e vão
Marília dança, Adélia brinca, Lina chora
És tu, Helena, que recita um verso?
Será Diana, com seu violão?
Mas qual! Tudo é silêncio agora!
Sons confusos e um lembrar perverso,
Som perverso, confusa visão.
Qual órfão da vida, cismo e choro,
E sem saber o quê, a Deus imploro.
Que fiz da vida, meus amores?
Que fiz dos beijos, das promessas?
Onde as Marias, as Caróis, as Teresas?
Quem me diz de suas vidas, suas dores?
Foram-se todas, menos essas
Loucas faces, frias de tristezas...
Faces tristes, vivas de rubores.
Odores, fumo, ácool, quais miasmas,
Sombras, vozes, nomes, mil fantasmas.
Mas vem a noite e traz Aldebarán
E tudo leva num arrastão fatal:
Mãos, silhuetas, rostos, risos,
Sombras fugazes da fugaz manhã,
Saudosa, alegre, do meu carnaval,
De fantasias e enganosos guisos,
Guisos vistosos de uma vida vã.
E não bastara o frio e a dor letal,
Inda me assaltam, vagos e imprecisos,
Os acicates acres da moral cristã.
.............................................................................................
(Brasília, jul/2005)
Tardes geladas de sombras, granizo,
Tardes doridas, de lembranças vagas...
Vaga saudade que ressuma, ecoa,
Retratos difusos de amores vãos.
De onde me vem agora esse sorriso?
És tu Joana que me afagas?
Teu riso fere, magoa...
És tu que meu peito rasgas?
Por entre véus te diviso,
E então foges, negas-me as mãos.
Por certo, vingas radiante,
A mão negada na manhã distante
Mãos de neve, de olor jasmim,
Sinto agora nos cachos grisalhos.
Certamente, és tu Mariana
Que, há muitos anos, te foste de mim,
E nos desvãos dos meus sutis atalhos
Sorvi o travo da saudade insana.
Mas, sinto trêmulos teus róseos dedos
Anda, querida, conta teus segredos!
Mas foges, também, nas brumas...
E então me roça a face um beijo,
Um lábio antigo que supunha morto
Nos arraiais da mocidade. Espumas
Borbulhantes de febril desejo.
Nancy: farol, jangada e porto.
Por que te foste? Não me lembro mais.
E agora, meu amor, por que te vais?
Ah! Esse perfume, esse fragor de rosas,
Esse calor que me aquece e acalma,
Esse desvelo em me abraçar, gentil...
Evocações de Dora, faces vaporosas,
Por entre os véus que me descerram a alma
E os velhos becos do meu peito frio
Já rola, agora, o pranto aos borbotões,
Do meu passado a remontar visões.
Meu Deus! Quem canta essa canção tão linda?
Que voz é essa que me leva ao céu?
Que me arrebata de saudade e dor?
És tu, Cinira? Amas-me ainda?
Acaso vens cobrar meu vil papel?
Pois saibas que fui eu o perdedor.
Mas fica, canta, dá-me teu perdão!
Ainda tens meu nome em teu cordão?
Debalde imploro. As sombras vêm e vão
Marília dança, Adélia brinca, Lina chora
És tu, Helena, que recita um verso?
Será Diana, com seu violão?
Mas qual! Tudo é silêncio agora!
Sons confusos e um lembrar perverso,
Som perverso, confusa visão.
Qual órfão da vida, cismo e choro,
E sem saber o quê, a Deus imploro.
Que fiz da vida, meus amores?
Que fiz dos beijos, das promessas?
Onde as Marias, as Caróis, as Teresas?
Quem me diz de suas vidas, suas dores?
Foram-se todas, menos essas
Loucas faces, frias de tristezas...
Faces tristes, vivas de rubores.
Odores, fumo, ácool, quais miasmas,
Sombras, vozes, nomes, mil fantasmas.
Mas vem a noite e traz Aldebarán
E tudo leva num arrastão fatal:
Mãos, silhuetas, rostos, risos,
Sombras fugazes da fugaz manhã,
Saudosa, alegre, do meu carnaval,
De fantasias e enganosos guisos,
Guisos vistosos de uma vida vã.
E não bastara o frio e a dor letal,
Inda me assaltam, vagos e imprecisos,
Os acicates acres da moral cristã.
.............................................................................................
(Brasília, jul/2005)
O Causo do Auto Lípido
Tudo começou quando o chefe, geólogo Natan Oliveira, leu o radiograma[1] de pedido de material, recém-posto em sua mesa, com o carimbo de urgente. Não entendendo um dos itens, achou melhor tirar a dúvida com o operador do rádio.
-Ô Marcelo, confirme, por favor, com o Zé Garcia, lá no acampamento de Palmeiras, o que é aí esse tal de auto-lípido, que tá nesse pedido urgente aqui na minha mesa. Depois me ligue, ok?
-Ó kapa[2], Dr. Natan. Daqui a pouco confirmo com o Senhor.
Dez minutos depois, Marcelo dá retorno:
-Negativo Dr. Natan. O Zé Garcia informou que Dr. Mato Grosso, que fez o pedido, teve de ir a Minaçu, lá na mina da ONÇA e só volta daqui a dois dias. Mas ele repetiu pra mim, na fonética[3]: alfa, uniforme, tango, Oscar, horizontal, lima, índia, papa, índia, delta, Oscar, ok?
-Ok, obrigado.
Conferiu novamente a listagem: 2 pincéis estreitos, 1 pincel largo, 2 brochas, 3 latas de tinta azul, cal virgem, flanelas, espátulas, 1 escada, querosene, etc, etc e 10 frascos de auto-lípido.
-Que porra será isso? Algum tipo de tinta?!
Apesar de intrigado, Natan não quis perder tempo, entendendo que isso era um problema do Valdir, da Seção de Compras. Sem mais delongas, sapecou no verso um “autorizo compra”, e mandou Dona Gláucia passar o pedido para frente, imediatamente.
-Auto-lípido?! Valdir pensou em voz alta. Que porra é essa?
Conferiu a listagem e telefonou pro Marcelo.
-Negativo, seu Valdir. Já chequei pro Dr. Natan. É isso mesmo: a-u-t-o-l-i-p-i-d-o. Ok?
Só por curiosidade, antes de passar o pedido para o Mano, responsável pelas compras do projeto Palmeiras, o Valdir resolveu consultar seus catálogos de produtos. Verificou na Casa das Tintas. Neca. Na Goiás Tintas. Neca. Só Tintas. Neca. E assim foi por mais de dez catálogos. Neca e neca e neca. Disfarçadamente, assim como quem não quer nada, deu uma consultada com Pepe Cachorro, seu colega de Seção, que estava profundamente absorto, preenchendo uma tabela:
-Pepão, cê sabe se ainda tem auto-lípido em nosso estoque?
-Auto-lípido?!. Que porra que é isso?
-Deixa pra lá Cachorro! Continue preenchendo sua tabela.
Chamou o Mano e determinou, enérgico:
-Dê prioridade a esse pedido de Palmeiras, por favor. Se possível pra hoje ainda, que o Dr. Natan tem pressa e amanhã Zelão tá seguindo pra lá com o carro vazio, tá bom?
Levantou-se rápido, para ir ao banheiro, antes de ouvir a pergunta fatal:
-Auto-lípido?!. Que porra que é isso? Mano franziu o cenho, mas o Valdir já tinha desaparecido.
De volta a sua sala, liga para o Marcelo, que já vai adiantando: - É auto-lípido mesmo, pô!. Já conferi com o Zé Garcia.
Depois de repetir todo o ritual do Valdir, consultando os catálogos, resolve passar a peteca para o Ademir que, afinal, é quem vai mesmo ter de ir ao balcão pegar a mercadoria.
-Dema! Tem uma comprinha aqui pra ser feita ainda hoje pra seguir para Palmeiras amanhã, com o Zelão. Tá aqui a lista, mas vai logo, que o Dr. Natan tá com pressa!
Já ia saindo pra ir ao banheiro também, mas não deu tempo de escapar da pergunta:
-Auto-lípido?! Que porra é essa?
-Deixa de ser trouxa, rapaz! Vai logo, vai!
Meio cabreiro, o Ademir saiu ali pelos corredores, pedindo informações aos geólogos que encontrava.
Auto-lípido?! Bem, saber com certeza, ninguém sabia, mas também ninguém deixou de especular. Afinal, geólogo que é geólogo, nunca deixa de opinar sobre qualquer coisa.
-Deve ser revelador de filme DDI, usado na sondagem, disparou Cidoca, circunspecto.
-Pra mim, é uma pasta de polir carros. Deve ser para lavar os Toyotas do acampamento, arriscou Gigi, com firmeza.
-Se não me engano, arrematou o João Cri-Cri, auto-lípido é uma cola especial que, após certo tempo, se dissolve e tudo que ela tiver grudado desgruda automaticamente.
Renatão foi mais científico: -Acho que é um diluente orgânico, usado na preparação de amostras geoquímicas.
Êh geologada! Gente boa, mas vai gostar de chutar assim na PQP!
Ademir já tinha se arrependido de fazer perguntas e ia saindo pra rua, quando o Eli lhe salvou a pátria:
-Olha seu Ademir, lá no Canadá, onde acabei de fazer um curso, ouvi falar desse produto. É um solvente especial que...
Ademir nem esperou a conclusão. Tava explicado: Solvente de tintas! Por isso estava junto com o pedido de tintas, pincéis e etc. Se mandou pra Casa das Tintas.
Na loja, dirigiu-se, confiante, ao vendedor, seu velho conhecido:
-Perebinha! Vê pra mim aqui esse pedido, que eu tô com pressa! Ah! Esse auto-lípido aí, eu quero do canadense, tá bom? Daquele nacional que vocês me venderam aqui outro dia, eu não quero não. Pense num auto-lipidozinho vagabundo rapaz!
-Auto-lípido?! O vendedor já ia soltar a segunda parte, quando se lembrou que, afinal, ele era vendedor e vendedor tem de conhecer todos os produtos. Lá nos fundos da loja, correu a consultar o gerente, que se mostrou surpreso, tanto quanto ele próprio. Vão ao escritório, consultam catálogos, fazem alguns telefonemas, discutem e... Bem, ninguém sabia que porra era essa.
Daí a uns quarenta minutos, lá vem Perebinha com a lista de produtos, em várias caixas que deposita sobre o balcão:
-Ó aqui Dema, seu pedido tá prontinho. Só que, infelizmente, o auto-lípido canadense nós estamos em falta. Estamos aguardando chegar nesse fim de semana, tá bom?
Na segunda, na terceira, na quarta e em todas as casas de tintas da cidade, Ademir ouviu sempre as mesmas respostas dos constrangidos vendedores:
-Nosso auto-lípido está em falta, mas na próxima semana, pode passar aqui!
Na parte da tarde desse mesmo dia, na Empresa, lá estão Natan e Valdir conversando no cafezinho, quando surge o chefe da Divisão de Administração, mais conhecido como Cabeção. Inteirando-se do problema do auto-lípido, ele dá uma pragmática sugestão:
-O problema é simples pô! Se é canadense, vamos fazer uma consulta à CACEX e ver se é muito difícil importar logo um bom estoque de auto-lípido. Pode deixar comigo que eu faço a consulta.
Dez minutos depois, ele liga pro Natan:
-Natanzinho, graças a um chapa que tenho lá dentro, a CACEX libera até cem frascos. Se quiser é só me dar as especificações que eu encaminho, tá bom?
O Superintendente, informado pelo Cabeção, procura dar força ao Natan:
-Tanzinho, meu filho, por que não me falou antes, cara? Olha, o Cabeça já me colocou a par, viu? Se precisar desobstruir algum caminho aí, eu falo com o general Fraga, sogro da minha irmã. Altos escalões do SNI... Mande as ordens!
Muito bem. Deixemos os técnicos com suas preocupações e voltemos aos gerentes das lojas de tintas da cidade. Estes, assim que o Ademir deu as costas, ligaram imediatamente para seus fornecedores em São Paulo, com a mesma reclamação:
-Pô! Então, lançam um novo tipo de solvente na praça e vocês não me mandam!? Toda a concorrência já tem e eu perdendo clientes! E blá-blá-blá, blá-blá-blá, de forma que me providenciem, até o fim de semana, um bom estoque de auto-lípido canadense, sem falta!
-Auto-lípido?! Os fornecedores ficaram assustados. De repente, uma saraivada de telefonemas cobrando estoques desse produto. Que porra será isso? Depois de algumas consultas mútuas, resolveram pelo caminho direto:
-Vamos consultar a Embaixada Canadense, sugeriu o presidente do Sindicato Nacional do Comércio de Tintas e Similares, SINDTINTAS.
O Embaixador, tirado às pressas de uma reunião com a vice-consulesa do Congo, ficou uma fera.
-Estão exportando auto-lípido para o Brasil e não avisam a Embaixada? Só pode ser contrabando. Vamos alertar a Polícia Federal. Liguem para meu amigo, Messier Tumá!
No dia seguinte, eis o temido Comissário Queiroga abrindo uma reunião de emergência, com seus melhores agentes, a pedido especial do Ministério da Justiça:
-Rapazes, vocês têm a honra de integrarem, a partir de agora, a OSACAL, Operação Secreta Anti Contrabando de Auto-Lípido.
-Auto-lípido?! Que porra é essa?
-Blitz ostensiva nas fronteiras. Contrabando industrial do grosso. Gente graúda envolvida e coisa e tal. Senha da operação: “sentei na tinta fresca, companheiro”. Contra-senha: “melhor do que sentar na merda, amigão”. Algum dúvida?
Quatro dias depois de deflagrada a OSACAL, o Natan recebe um telefonema do Marcelo:
-Dr. Natan, Dr. Mato Grosso está no acampamento de Palmeiras e deseja um QSO[4] com o senhor, no rádio agora. Pode ser?
-Positivo, Marcelo, pode passar.
Marcelo conecta e Natan chama:
-Atento 691, é 476.[5]
-Ok Natan. Aqui é o Mato Grosso operando. Como vão as coisas aí? Câmbio.[6]
-Positivo Mato Grosso. Por aqui vai tudo porreta meirmão. Tudo na mesma. Recebeu o material que mandei pelo Zelão? Câmbio.
-Ó kapa Natan. Cem por cento. Recebi esse material por acá[7], hem? Já fiz a conferência e tá tudo certo. Só não vi os frascos de Autan líquido. Tá em falta aí em Goiânia? Vê se arranja logo, que as muriçocas por acá estão brabas. Entendido? Câmbio.
Natan, pensando em voz alta:
-Autan líquido??? Puta que pariu!
Bem, para a empresa o caso ficou inteiramente resolvido e esclarecido.
Quanto ao rolo entre gerentes de lojas de tintas, seus fornecedores, Embaixada Canadense, Polícia Federal e o escambau, ninguém sabe como terminou, se é que terminou. O certo é que, duas semanas após a deflagração da OSACAL, aparecia nas páginas policiais dos principais jornais do país:
-Ô Marcelo, confirme, por favor, com o Zé Garcia, lá no acampamento de Palmeiras, o que é aí esse tal de auto-lípido, que tá nesse pedido urgente aqui na minha mesa. Depois me ligue, ok?
-Ó kapa[2], Dr. Natan. Daqui a pouco confirmo com o Senhor.
Dez minutos depois, Marcelo dá retorno:
-Negativo Dr. Natan. O Zé Garcia informou que Dr. Mato Grosso, que fez o pedido, teve de ir a Minaçu, lá na mina da ONÇA e só volta daqui a dois dias. Mas ele repetiu pra mim, na fonética[3]: alfa, uniforme, tango, Oscar, horizontal, lima, índia, papa, índia, delta, Oscar, ok?
-Ok, obrigado.
Conferiu novamente a listagem: 2 pincéis estreitos, 1 pincel largo, 2 brochas, 3 latas de tinta azul, cal virgem, flanelas, espátulas, 1 escada, querosene, etc, etc e 10 frascos de auto-lípido.
-Que porra será isso? Algum tipo de tinta?!
Apesar de intrigado, Natan não quis perder tempo, entendendo que isso era um problema do Valdir, da Seção de Compras. Sem mais delongas, sapecou no verso um “autorizo compra”, e mandou Dona Gláucia passar o pedido para frente, imediatamente.
-Auto-lípido?! Valdir pensou em voz alta. Que porra é essa?
Conferiu a listagem e telefonou pro Marcelo.
-Negativo, seu Valdir. Já chequei pro Dr. Natan. É isso mesmo: a-u-t-o-l-i-p-i-d-o. Ok?
Só por curiosidade, antes de passar o pedido para o Mano, responsável pelas compras do projeto Palmeiras, o Valdir resolveu consultar seus catálogos de produtos. Verificou na Casa das Tintas. Neca. Na Goiás Tintas. Neca. Só Tintas. Neca. E assim foi por mais de dez catálogos. Neca e neca e neca. Disfarçadamente, assim como quem não quer nada, deu uma consultada com Pepe Cachorro, seu colega de Seção, que estava profundamente absorto, preenchendo uma tabela:
-Pepão, cê sabe se ainda tem auto-lípido em nosso estoque?
-Auto-lípido?!. Que porra que é isso?
-Deixa pra lá Cachorro! Continue preenchendo sua tabela.
Chamou o Mano e determinou, enérgico:
-Dê prioridade a esse pedido de Palmeiras, por favor. Se possível pra hoje ainda, que o Dr. Natan tem pressa e amanhã Zelão tá seguindo pra lá com o carro vazio, tá bom?
Levantou-se rápido, para ir ao banheiro, antes de ouvir a pergunta fatal:
-Auto-lípido?!. Que porra que é isso? Mano franziu o cenho, mas o Valdir já tinha desaparecido.
De volta a sua sala, liga para o Marcelo, que já vai adiantando: - É auto-lípido mesmo, pô!. Já conferi com o Zé Garcia.
Depois de repetir todo o ritual do Valdir, consultando os catálogos, resolve passar a peteca para o Ademir que, afinal, é quem vai mesmo ter de ir ao balcão pegar a mercadoria.
-Dema! Tem uma comprinha aqui pra ser feita ainda hoje pra seguir para Palmeiras amanhã, com o Zelão. Tá aqui a lista, mas vai logo, que o Dr. Natan tá com pressa!
Já ia saindo pra ir ao banheiro também, mas não deu tempo de escapar da pergunta:
-Auto-lípido?! Que porra é essa?
-Deixa de ser trouxa, rapaz! Vai logo, vai!
Meio cabreiro, o Ademir saiu ali pelos corredores, pedindo informações aos geólogos que encontrava.
Auto-lípido?! Bem, saber com certeza, ninguém sabia, mas também ninguém deixou de especular. Afinal, geólogo que é geólogo, nunca deixa de opinar sobre qualquer coisa.
-Deve ser revelador de filme DDI, usado na sondagem, disparou Cidoca, circunspecto.
-Pra mim, é uma pasta de polir carros. Deve ser para lavar os Toyotas do acampamento, arriscou Gigi, com firmeza.
-Se não me engano, arrematou o João Cri-Cri, auto-lípido é uma cola especial que, após certo tempo, se dissolve e tudo que ela tiver grudado desgruda automaticamente.
Renatão foi mais científico: -Acho que é um diluente orgânico, usado na preparação de amostras geoquímicas.
Êh geologada! Gente boa, mas vai gostar de chutar assim na PQP!
Ademir já tinha se arrependido de fazer perguntas e ia saindo pra rua, quando o Eli lhe salvou a pátria:
-Olha seu Ademir, lá no Canadá, onde acabei de fazer um curso, ouvi falar desse produto. É um solvente especial que...
Ademir nem esperou a conclusão. Tava explicado: Solvente de tintas! Por isso estava junto com o pedido de tintas, pincéis e etc. Se mandou pra Casa das Tintas.
Na loja, dirigiu-se, confiante, ao vendedor, seu velho conhecido:
-Perebinha! Vê pra mim aqui esse pedido, que eu tô com pressa! Ah! Esse auto-lípido aí, eu quero do canadense, tá bom? Daquele nacional que vocês me venderam aqui outro dia, eu não quero não. Pense num auto-lipidozinho vagabundo rapaz!
-Auto-lípido?! O vendedor já ia soltar a segunda parte, quando se lembrou que, afinal, ele era vendedor e vendedor tem de conhecer todos os produtos. Lá nos fundos da loja, correu a consultar o gerente, que se mostrou surpreso, tanto quanto ele próprio. Vão ao escritório, consultam catálogos, fazem alguns telefonemas, discutem e... Bem, ninguém sabia que porra era essa.
Daí a uns quarenta minutos, lá vem Perebinha com a lista de produtos, em várias caixas que deposita sobre o balcão:
-Ó aqui Dema, seu pedido tá prontinho. Só que, infelizmente, o auto-lípido canadense nós estamos em falta. Estamos aguardando chegar nesse fim de semana, tá bom?
Na segunda, na terceira, na quarta e em todas as casas de tintas da cidade, Ademir ouviu sempre as mesmas respostas dos constrangidos vendedores:
-Nosso auto-lípido está em falta, mas na próxima semana, pode passar aqui!
Na parte da tarde desse mesmo dia, na Empresa, lá estão Natan e Valdir conversando no cafezinho, quando surge o chefe da Divisão de Administração, mais conhecido como Cabeção. Inteirando-se do problema do auto-lípido, ele dá uma pragmática sugestão:
-O problema é simples pô! Se é canadense, vamos fazer uma consulta à CACEX e ver se é muito difícil importar logo um bom estoque de auto-lípido. Pode deixar comigo que eu faço a consulta.
Dez minutos depois, ele liga pro Natan:
-Natanzinho, graças a um chapa que tenho lá dentro, a CACEX libera até cem frascos. Se quiser é só me dar as especificações que eu encaminho, tá bom?
O Superintendente, informado pelo Cabeção, procura dar força ao Natan:
-Tanzinho, meu filho, por que não me falou antes, cara? Olha, o Cabeça já me colocou a par, viu? Se precisar desobstruir algum caminho aí, eu falo com o general Fraga, sogro da minha irmã. Altos escalões do SNI... Mande as ordens!
Muito bem. Deixemos os técnicos com suas preocupações e voltemos aos gerentes das lojas de tintas da cidade. Estes, assim que o Ademir deu as costas, ligaram imediatamente para seus fornecedores em São Paulo, com a mesma reclamação:
-Pô! Então, lançam um novo tipo de solvente na praça e vocês não me mandam!? Toda a concorrência já tem e eu perdendo clientes! E blá-blá-blá, blá-blá-blá, de forma que me providenciem, até o fim de semana, um bom estoque de auto-lípido canadense, sem falta!
-Auto-lípido?! Os fornecedores ficaram assustados. De repente, uma saraivada de telefonemas cobrando estoques desse produto. Que porra será isso? Depois de algumas consultas mútuas, resolveram pelo caminho direto:
-Vamos consultar a Embaixada Canadense, sugeriu o presidente do Sindicato Nacional do Comércio de Tintas e Similares, SINDTINTAS.
O Embaixador, tirado às pressas de uma reunião com a vice-consulesa do Congo, ficou uma fera.
-Estão exportando auto-lípido para o Brasil e não avisam a Embaixada? Só pode ser contrabando. Vamos alertar a Polícia Federal. Liguem para meu amigo, Messier Tumá!
No dia seguinte, eis o temido Comissário Queiroga abrindo uma reunião de emergência, com seus melhores agentes, a pedido especial do Ministério da Justiça:
-Rapazes, vocês têm a honra de integrarem, a partir de agora, a OSACAL, Operação Secreta Anti Contrabando de Auto-Lípido.
-Auto-lípido?! Que porra é essa?
-Blitz ostensiva nas fronteiras. Contrabando industrial do grosso. Gente graúda envolvida e coisa e tal. Senha da operação: “sentei na tinta fresca, companheiro”. Contra-senha: “melhor do que sentar na merda, amigão”. Algum dúvida?
Quatro dias depois de deflagrada a OSACAL, o Natan recebe um telefonema do Marcelo:
-Dr. Natan, Dr. Mato Grosso está no acampamento de Palmeiras e deseja um QSO[4] com o senhor, no rádio agora. Pode ser?
-Positivo, Marcelo, pode passar.
Marcelo conecta e Natan chama:
-Atento 691, é 476.[5]
-Ok Natan. Aqui é o Mato Grosso operando. Como vão as coisas aí? Câmbio.[6]
-Positivo Mato Grosso. Por aqui vai tudo porreta meirmão. Tudo na mesma. Recebeu o material que mandei pelo Zelão? Câmbio.
-Ó kapa Natan. Cem por cento. Recebi esse material por acá[7], hem? Já fiz a conferência e tá tudo certo. Só não vi os frascos de Autan líquido. Tá em falta aí em Goiânia? Vê se arranja logo, que as muriçocas por acá estão brabas. Entendido? Câmbio.
Natan, pensando em voz alta:
-Autan líquido??? Puta que pariu!
Bem, para a empresa o caso ficou inteiramente resolvido e esclarecido.
Quanto ao rolo entre gerentes de lojas de tintas, seus fornecedores, Embaixada Canadense, Polícia Federal e o escambau, ninguém sabe como terminou, se é que terminou. O certo é que, duas semanas após a deflagração da OSACAL, aparecia nas páginas policiais dos principais jornais do país:
“Interpol prende três bolivianos e dois paraguaios, transportando 10 ton de maconha em falsas latas de tintas, numa das maiores operações conjuntas das polícias sul-americanas de todos os tempos. Dr Tuma afirma que a operação levou dois anos para ser montada e garante que sua atuação será por tempo indeterminado.”
................................................................................................................................................Notas de rodapé[1] Radiograma era um formulário de comunicação transmitido por rádio.[2] Ó kapa, na comunicação por rádio significa OK. Geralmente os operadores utilizam essa expressão como jargão para o início das frases, assim como “positivo!”.[3] Na fonética das transmissões por rádio, alfa representa a letra A; beta, a letra B; Charles, o C e assim por diante. Horizontal significa o hífen.[4] QSO, no código das radiotransmissões, significa bate-papo.[5] Esse era o chavão para a chamada da estação de Palmeiras, pela estação sede.[6] Câmbio é o sinal que o interlocutor dá para passar a palavra para o outro interlocutor.[7] Acá é um chavão que significa aqui.
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