Página despretensiosa. Porta-retrato cibernético de um brasileiro inquieto, que gosta de dizer coisas. E de escrever coisas. Não sei se me entendem. Mas não importa. Importa participar do mosaico cultural do Brasil desse início de Século. Não sou poeta, nem literato, nem colunista. Não sou nada, sou apenas um geólogo aprendendo com as pedras do caminho. Mas também não sou bobo. Caminhando e assuntando, aprendi a dar minhas marteladas. Relaxe, não vai doer.
domingo, março 21, 2010
Entrelinhas
E porque tudo é fato, notícia,
E a vida um imenso tablóide
E tudo são textos, fotos, listas,
E porque tudo deve ser exposto,
E tudo deve ser expresso,
Tenha livre acesso a jornalista!
Por sua ousadia de malabarista,
E a magia do jogo das palavras,
E a maravilha precisa da frase,
E a busca incessante da pista...
E porque tudo deve ser dito,
E tudo deve ser claro,
Salve-nos o olhar da jornalista!
E porque o mundo é divina revista,
E porque tudo é plástica e imagem
E porque tudo é paisagem, som e tato,
Reportagem e entrevista
E porque tudo tem de ser checado,
E tudo deve ser sentido,
Livrem da mordaça a jornalista!
Mas, com tua veia escrota de lobista,
Porque tudo é pesquisa e enquete,
Compuseste título, anúncio e manchete,
Interesseiro, como um vigarista...
E porque tudo é estilo e conjunto,
Fizeste dela musa e assunto
E caíste no charme da jornalista.
Mas, voa o tempo, impiedoso humorista,
E um dia passa a ser vírgula em texto,
Quem antes era título e contexto.
Até que a denúncia cruel e revanchista,
Expulsa para um vil ponto final
Quem antes era o corpo principal...
Ninguém brinca em vão com a jornalista.
Bsb, 12/06/2007
quarta-feira, março 17, 2010
Lenda da criação do geólogo
Neguinho ia passando numa estrada, meio lá meio cá, depois de umas manguaças, quando lasca o dedão numa pedra e se esborracha no chão. Tinha uma pedra no caminho. Era uma pedrona, de uns dez quilos, incolor, transparente, brilhante... Neguinho se levantou, o dedão latejando parecendo uma ameixa roxa, a unhona pendurada, pegou a pedra na mão e desabafou:
- Quem foi o filadaputa que deixou esse puta cristal de quartzo no meio do caminho?
Nisso, passa um médico, que logo se apressa em tratar a ameixa, digo, o dedão da vítima, extirpando os restos de unha e fazendo o devido curativo. Na hora de receber, o médico, que já tinha visto pedra semelhante alhures, dá uma de joão-sem-braço:
- O que é isso companheiro? Fui médico particular do Homem durante os seis dias da Criação! Acaso passou por sua cabeça que eu iria me aproveitar de sua fragilidade, aqui nessa estrada, para enfiar-lhe a faca? O juramento de Hipócrates para mim, é sagrado! Minha assistência não lhe custa nada e até far-lhe-ia, de bom grado, o favor de levar, como lembrança, essa que foi a cruel causadora de suas dores. Vou levar essa pedrona para mim.
Neguinho, ainda atordoado, já ia entregando a pedra, quando um economista passante intervém:
- Momentinho senhores! Sem querer, assisti ao que aqui se passou e gostaria de conhecer melhor essa malfadada pedra. Não sei se vocês sabem, mas fui eu que fiz o plano de viabilidade econômica do mundo, a pedido do Homem.
Após examinar a pedra contra o sol, girando-a por cerca de cinco minutos, faz surpreendente oferta:
- Sou professor de economia mineral (Deus já tinha criado a economia mineral) e gostaria de levar esse espécime de topázio, sem valor econômico, apenas para compor o acervo de amostras da minha instituição. Para não dizerem que levei de graça, dou-lhes cem reais, cinquentinha para cada um, e estamos conversados!
Neguinho já ia passando a mão nos cinquenta, quando, surgido não se sabe de onde, um administrador interrompe o tripartite colóquio:
- Mas o que temos aqui? Três adultos numa negociação de boca, sem nada escrito, sem ao menos um contrato! Onde está o profissionalismo? Na qualidade de assessor administrativo do Homem, fui eu que planejei a Criação, em seus mínimos detalhes. Vamos fazer um plano de negócios pra botar uma ordem nessa zorra!
Tomou a pedra do economista, tentou riscar-lhe com uma lâmina de canivete, mas esta é que saiu toda arranhada, perdendo o fio. Sem pestanejar propôs:
- Esta pedra serve direitinho para segurar a porta lá de casa, que bate muito com o vento. O plano de negócios é o seguinte: eu fico com ela por duzentos reais, em quatro prestações mensais e iguais. Para sacramentar a transação, aqui está um contrato prontinho pra assinarmos sem mais perda de tempo.
Como naquela estrada passava de tudo, eis que chega um engenheiro, exatamente a tempo de impedir a insólita negociação. Dizendo-se responsável técnico pela Criação, pede para que todos se afastem e inicia um meticuloso exame na sanguinária pedra. Anota todas as dimensões, inclusive os ângulos das faces e arestas, expõe ao sol, olha com uma minúscula lupa (uma das últimas criações de Deus, antes de Adão e Eva), risca, cheira, lambe, ausculta, e o escambau. Depois, com a solenidade das grandes sentenças, anuncia:
- Tecnicamente falando, trata-se de um megacristal de coríndon incolor, mineralzinho chulo, que não serve pra nada, mas dá uma boa pedra de amolar. Gostaria de tê-la, para amolar minhas ferramentas. Sendo assim, pra acabar com o leilão que aqui se instalou, a pedra é minha por mil reais.
- UUHHHHHH! Fez a platéia em volta. Sim, porque, àquela altura já havia uma pequena multidão em volta do grupo e da polêmica pedra.
- Mil reais??? Por mim, negócio fechado, fez o bebum, doido pra pegar a grana e voltar pra sua taberna.
- Eu cheguei aqui primeiro e tratei a ameixa, isto é, o dedão do pé desse bebão. Tenho preferência, portanto. Fico com a pedra por dois mil reais! E ponto final!
- UUHHHHH! A platéia delirava.
- Bom, como prova do meu amor pelas ciências e pela educação, levo a pedra por quatro mil reais e não se fala mais nisso!
- Vende! Vende! Vende! A platéia berrava.
- Sem organização não chegaremos a lugar nenhum! E meu plano de negócios? Pois vou alterar a cláusula de valor e estipular em dez mil reais o preço da pedra. Fim de papo.
Três mocinhas da primeira fila da platéia desmaiaram. Uma mulher grávida pariu uma garotona, imediatamente batizada de Pedrita. Neguinho se animou:
- Quem dá mais? Quem dá mais?
Quando o engenheiro levantou o braço pra fazer sua contraoferta, um personagem novo entra na história. Nada mais, nada menos que um advogado. Ou, conforme se apresentou ao surpreso grupo, assistente jurídico do Homem, durante a Criação.
- Se não fosse eu, o Homem tava ferrado. Mais de mil ações por danos morais, já pensou?! Ganhei todas!
Diante da barulheira infernal, o advogado começou a berrar:
- Data vênia minha gente! Datíssima vênia! Quo vadis?
Sem mais recursos, pegou duas varas, exibiu-as no ar formando uma cruz e soltou os pulmões:
- Vade retro satanás! Vade retro cão das sete portas!
Um silêncio sepulcral se formou, quebrado apenas pelas risadas da moça que recebeu uma pomba-gira, na última fila da platéia.
O assistente do Homem, então, tirou de sua mochila (criada especialmente para ele, pelo Homem) o código penal, o código civil, a CLT, o Código Nacional de Trânsito, a Constituição Federal, um Regimento Interno e uma Portaria.
Invocando então, a Cláusula 17ª, Parágrafo 11º, Item XIV, Inciso XXIX, do Capítulo 4 do dispositivo legal pertinente, retomou seu discurso:
- Onde estamos minha gente? Data vênia, temos aqui quatro aproveitadores querendo explorar a infelicidade desse pobre bebum, que teve a sorte e o azar de arrebentar a cabeça do dedão do pé nessa pedra. Azar, porque perdeu uma unha, e uma unha, por mais unha que seja, é também obra da criação e merece todo nosso respeito.
O bebum, que era mineiro, encheu-se de brios:
- Uai sô! Intão vam fazê um minutin de silenz pur minh'unhona, uai!
E assim foi feito.
- Mas foi sorte também, retomou o advogado, porque era uma baita de uma unha encravada, provavelmente um pequeno descuido da equipe técnica auxiliar do Homem. Mas, nada disso justifica o que aqui se passa, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O fato objetivo é que temos aqui um crime cristalinamente cometido. Temos sangue e temos vítima. E, nesse ponto, a lei é implacável, dela não escapando nem o reino britânico, muito menos o reino mineral. Dura lex, sed lex. Portanto, sem mais delongas, a pedra está apreendia, em nome da lei, para averiguações, exames de corpo de delito, antecedentes criminais, etc e tal. Até a completa e cabal elucidação dos fatos. Duela a quien duela, no más!
Na platéia, a pomba-gira tinha agora a companhia de um preto-velho, que desceu doido por um marafo. O advogado prosseguiu:
- Quanto a esses salafrários aproveitadores, serão todos enquadrados na forma da lei, salvo melhor juízo. E saiu enquadrando todo mundo, a torto e a direito:
- Você está enquadrado no código do consumidor. Você na CLT. Você na lei das contravenções e você na 8.666...
Ao ouvir seu enquadramento, o engenheiro, inconformado, partiu para cima do causídico do Senhor, para tirar satisfações. Ao fazê-lo, contudo, deu um pisão na ameixa, digo no dedão do pé do bebum. Este, injuriado e não entendendo mais porra nenhuma, deu um contravapor na orelha do engenheiro, que foi se esbarrar com o médico, caindo ambos. Puto da vida, botou a pedra debaixo do braço e encostou-se numa árvore, em posição de defesa:
- Na minha pedra ninguém toca! Na minha pedra ninguém toca!
Sacudindo a poeira e dando a volta por cima, o médico sacou um bisturi de 15 cm, afiadíssimo, e ameaçou dissecar o engenheiro ali mesmo. O administrador, no meio da confusão, levou um sopapo do economista. Pra se vingar, pegou um chucho de madeira e mirou bem no coração do advogado, salvo pela capa dura da nova edição da CLT. A essa altura, o engenheiro se esgrimia com o economista, numa roda formada pela platéia. Este, com sua régua de cálculo, aquele com sua régua T. A platéia entrou em delírio, quando o tranca-rua, recém-baixado, deu um direto no queixo do preto-velho, derrubando-o em cima da pomba-gira, que, mesmo assim, continuava dando risadas. Enfim, como o diabo gosta.
Deus, que a tudo assistia (lembram-se do primeiro parágrafo?), vendo aquela zorra no Seu mundo, que deveria ser perfeito, suspirou:
- Meu De... Ops! Meu Filho, onde foi que eu errei?
E pensou, pensou, pensou... Já estava quase desistindo, quando Lhe veio um estalo:
- Caraca! Onde estava com a cabeça? Esqueci de criar o geólogo!
Imediatamente completou sua obra. Levou um susto quando viu o resultado, pois, na pressa, fez um ser mal-ajambrado pra caramba. Depois conserto, pensou. E, pondo a destra na cabeça da criatura, ordenou, amorosamente:
- Vai lá, meu filho, e acabe com aquela bagunça.
O geólogo, ainda meio zonzo da criação assim tão espontânea, já ia saindo, após receber uma capanga, também recém-criada, com todos os apetrechos de tabalho dentro, inclusive uma garrafinha e uns sanduíches velhos, com ovo estragado, provavelmente sobras de outro mundo, quando ouviu a última recomendação:
- Mas, aja rápido, que ainda tenho um mundo pra começar a criar amanhã cedinho, viu filho?
- Uma figura imunda, coberta de poeira;
- Colete sujo esquisito, cheio de bolsos;
- Uns troços pendurados no pescoço;
- Boné esculhambado, aba pra trás;
- Óculos raiban escuros;
- Barba imensa de troglodita;
- Capanga bolorenta a tiracolo;
- Cinturão de couro, com um monte de coisas penduradas, destacando-se um martelo, calibre 38, cabo longo;
- Calça jeans surrada que nunca viu água;
- Perneiras sobre as calças e botina de couro.
Bsb, fev/2010
domingo, dezembro 20, 2009
Duelo de insanos
- Claro babacão! Só me diga onde!!
- Brincadeira, uma porra! Pode sair da frente que hoje eu dou uma lição naquele babaca.
Terceiro Ato - Angústia da procura
Quarto Ato - A birosca de Dona Jurema
Último Ato: O Gran finale
Com a palavra, seu Joca.
Era por volta de 9hs da noite, quando Pepe, velho conhecido, apareceu, para sua surpresa, vez que não fazia parte de sua clientela de meio de semana. Costumava, sim, frequentar sua modesta birosca, mas apenas aos sábados, quando vinha comprar coisas do Nordeste, no velho mercado, em frente e então aproveitava para umas rodadas de sinuca, ao embalo de uma cachacinha de rolha e suas tradicionais carne de sol e linguiça de bode, artesanais, as melhores da cidade, modéstia às favas!
E o tempo passou.
No salão da frente, Jonas tomava uma cerveja, uma pinga, olhava no relógio e pedia mais outra, impaciente e agitado. Por várias e várias vezes esse ciclo etílico foi reiniciado.
Perto das 23hs, quando normalmente o boteco já estaria fechado, Pepe sai da sala de sinuca para mijar e só então vê Jonas na mesa cheia de garrafas vazias, na sala da frente. Àquelas alturas, ambos já estavam mais pra lá do que pra cá. Pepe, sem conseguir ganhar umazinha sequer de Quinca, tanto se concentrara no jogo, que até tinha esquecido do porquê estava ali naquele buraco imundo, plena quarta-feira. Ao ver Jonas, colega de mais de 20 anos de empresa, sua primeira reação foi a de quem viu um velho companheiro e não o adversário desafiado para duelar. Meio zonzo de tanta cerveja, caminha lentamente para o colega desafiado, que ainda não o tinha visto. A meio caminho foi pensando na merda que tinha feito.
- Faz tempo que está aqui?
Abobalhado, apenas respondeu, educadamente:
- É... E você? Chegou agora?
- Esse aqui é um colega de trabalho.
- Prazer, Quinca.
Querendo resolver logo a situação embaraçosa, Jonas perguntou a Pepe:
- E aí, como é que vai ser?
- Podem vir os dois contra mim, que eu dou conta. Hoje estou com o diabo no couro!
- O que? Você sozinho? Olha rapaz, em você eu vou dar é com um braço só. Assim dizendo, escondeu um braço atrás do corpo e levantou o taco com o outro.
- Só passando sobre o meu cadáver!
- Ah, é? Então tá bom, venham os dois!
Mas o Joca não tinha gostado nadinha da agressão a um de seus mais antigos e constantes fregueses:
Aí, quem se queimou foi Pepe, que partiu para a defesa do amigo:
- Bota uma saideira sim! E quer saber de mais? Esse velho safado mereceu.
Sem esperar pela resposta, ele próprio dirigiu-se à geladeira, tirando uma garrafa vestida de véu de noiva.
E foi assim, nesse estado rocambolesco, dantesco, romanesco, mas, sobretudo, grotesco, que a dupla de duelantes foi encontrada e resgatada pela turma de Abel, para espanto e alívio geral.
sábado, julho 18, 2009
Nada foi em vão
Pelo contrário,
Tudo foi preciso e bom
E necessário.
E, afinal, ficou o aprendizado.
A alma humana é tão pequena
Quão complexa,
E a dor que nos embota o entendimento
E humilha a razão e a faz perplexa
É, de fato, o grande ensinamento.
E os acessos de paixão,
Com suas chamas e brilhos de salão,
São raios que enceguessem a alma.
E a alma cega é como um vôo sem plano,
A descampar imensidões... Desertos...
É grito débil de pulmões vazios,
Sob o pulsar de um coração insano...
Canoa frágil, contra o mar bravio.
Não, repito, nada foi em vão!
Nem mesmo a dor,
Nem mesmo a traição covarde,
Pois, se afinal, o peito ainda arde,
Tenho a visão mais clara
E os olhos secos,
E a voz mais firme,
E o andar mais calmo...
E serenada a alma,
Agora sou mais forte
E as canções, mais doces
E os versos, mais sutis
E os dias, mais azuis.
Não, amigo, nada foi em vão!
Tudo foi apenas como havia de ser.
Se doeu? Não vou negar, doeu.
Mas já passou, já perdoei
E agora sou mais livre,
Agora sou mais eu.
Por isso não se engane:
Seja na aurora, ou no ocaso,
Na subida, ou no declive,
Sejas tu granfa, ou povão,
Tudo o que a gente vive,
Nada! Nada é por acaso,
Nada acontece em vão!
Rio, 18/07/2009
quinta-feira, maio 28, 2009
Geólogo beleza
terça-feira, abril 21, 2009
Estou no quintal da casa do Amaro
Segundo Zoraide*, sua companheira, naquela sexta-feira fatídica do suicídio, ele não fez nada diferente. Pelo menos, nada que indicasse a tragédia que estava por vir. Mal o sol despontou, saltou da cama com seu corpanzil de 1,90m, tomou um copo d’água e se mandou para a cava da Irenã. Era assim que chamavam aquela escavação imensa, onde cerca de meia dúzia de homens trabalhavam 24 horas por dia, perseguindo um fugidio veio aurífero, no Garimpo do Saci. Ali, como fazia há dois anos, ouviu o relato da produção noturna, recebeu o saquinho com os gramas de ouro apurado, tomou café com os trabalhadores e orientou as próximas detonações, com seu faro de velho lobo dos garimpos amazônicos.
Por volta de dez horas, sob um sol de brasa viva, voltou ao barraco, com um envelope na mão, acompanhado por Amaro*, um mulato esquisitão, que morava sozinho, ali perto. Não era de muitos amigos, calado e arredio. Os maledicentes diziam que era fugido do Garimpo do Taioba, onde matara dois desafetos, por questões menores, coisas de ciúmes.
Uma das poucas pessoas que freqüentava seu barraco era exatamente o Paraná, o garimpeiro que vai se suicidar nessa sexta-feira. Zoraide nunca soube o porquê daquela aproximação. Ficavam semanas e até meses sem se falarem, mas, de repente, num belo dia, Amaro dava sinal de vida e os dois sumiam, barraco adentro, às vezes por uma tarde inteira. Ele nunca lhe disse o que tanto conversavam. Ela achava que eram questões de negócios e pronto.
Depois do acontecido, Amaro desapareceu e Zoraide começou a ligar alguns fatos... Hoje, ela tem certeza de que os dois se conheciam de muito tempo e que o Amaro era um elo entre o Paraná e algum fato tenebroso de seu passado, que ela nunca vai saber. Depois desses encontros, ela agora se dá conta, ele ficava misterioso, silencioso, pensativo. Certa vez, notou seus olhos vermelhos, mas ele negou que tivesse chorado. Tomou mais uma pinga e encerrou o assunto.
Voltando ao fatídico dia, devo dizer que nosso encontro no bar da Nely*, por volta das 20h00, também ocorreu como todas as outras vezes, na maior normalidade. Ele era fanático por músicas de seresta e enquanto eu estivesse na cidade, nos reuníamos quase todas as noites ali, sob a velha Gameleira, tomando cervejas, uma que outra cachacinha e saboreando o pato que a mãe da Nely nos preparava, a gente pedindo ou não.
Embora lhe chamassem Paraná, tenho convicção de que ele era mineiro ou goiano. Creio que não tinha mais de 40 anos, mas as adversidades da floresta, as agruras da lide garimpeira, os sofrimentos da vida nômade, talvez a ausência dos afetos, enfim, talvez tudo isso colocou sulcos precoces, em sua face clara, que lhe davam uma enganosa maturidade. Era do tipo bonachão, calmo, bem humorado e gostava de uma boemia como ninguém. Fazia enorme sucesso com as mulheres e, dizia-se, tivera uma fieira delas. Enfim, era um boa-praça, prestativo, desapegado, um tipo raro que deixou muitas saudades. Até hoje não me conformo com seu ato tão extremo, tão violento.
Como dizia, foi uma noitada como tantas outras. No outro dia bem cedo, viajei e só fui saber da tragédia, por telefone, dois dias depois. Confesso que me abalei, como poucas vezes me aconteceu depois. Fiquei recordando nossa última farra, a ver se entrevia algum sinal, alguma pista, uma espécie de remorso por não ter feito algo. Mas nada... A não ser... Bom, naquela noite, lá pelas tantas, ele me disse que queria ouvir uma música, mas não se lembrava do nome, nem da melodia. Estava martelando sua cabeça... Daí ele pegou um guardanapo e rabiscou dois versos:
“... Fracasso, por compreender que devo te esquecer, fracasso só por saber que não te esquecerei...”
Quando me mostrou e eu disse que conhecia, ele chamou Nely e ordenou, como um fã agradecido:
- Nely, traga a mais gelada que tiver lá dentro e duas doses de cana, porque essa merece uma!
Resultado: tive de repetir umas tantas vezes, até que ele se satisfez:
- Bom Baiano, você vale ouro!
Enquanto prossegui com outras músicas, notei que ele ficou com o olhar no vazio por alguns minutos. Parece que aquela música o fizera voltar no tempo. E foi só. Daí em diante, tudo transcorreu como dantes, até que nos despedimos, mais ou menos meia noite. Jamais imaginei que aquele abraço apertado seria o último. Já no carro, me perguntou quando eu voltaria e, ao ouvir a resposta, acelerou sua picape e sumiu para sempre, na noite amazônica.
Segundo Zoraide, ele entrou no barraco, mexeu numa maleta de documentos que ficava trancada no guarda-roupas e se demorou mais do que o normal na cozinha. Talvez tivesse chegado com fome, ela pensou, sem nem desconfiar que, na verdade, ele estava tentando rabiscar toscas explicações inexplicáveis. Quando a porta rangeu, à sua saída, ela nem ligou, pois já estava acostumada com seus fins de noite na casa da Ana Branca, como era conhecido o cabaré do garimpo. Só estranhou quando ele voltou e ficou em pé, na porta do quarto, por cerca de um minuto, olhando para ela, que fingia dormir. Sob o lençol, no lusco-fusco da madrugada, ela o viu suspirar e sair rapidamente, com passos decididos.
A casa do Amaro ficava lá no fim do garimpo, um barraco antigo, dos poucos com paredes de alvenaria no local. Ao fundo, seus donos primitivos cultivaram um extenso pomar de mangueiras, jaqueiras, laranjas, pinha e até uns coqueiros que não se desenvolveram, mas ali estavam resistindo ao tempo. Naquela noite, em torno de duas horas da manhã, as corujas que tinham ninho no coqueiro viram um vulto abrir o colchete da cerca do quintal. Espantadas, elas fizeram estardalhaço e deram vôos rasantes, no afã de afastar o intruso da ninhada de corujinhas recém-nascidas. Mas, nem mesmo seu pio agourento fez o vulto retroceder.
Do alto das estacas da cerca, elas viram o vulto andar meio cambaleante até o tronco da mangueira mais baixa. Viram, curiosas, o vulto sentar-se no chão e ficar manuseando uma corda que trouxera pendurada nos ombros. A operação demorou bastante. O vulto, evidentemente, não tinha pressa. De vez em quando ele levava à boca uma garrafa. Depois retomava o ofício de preparar a corda, quase em câmara lenta.
Depois, as corujas viram o vulto se levantar, dirigir-se até a cerca, contemplar o céu estrelado por um minuto e dar um suspiro. E acharam graça, quando aquele corpanzil pesado subiu na mangueira, pelos galhos baixos e se acomodou à meia altura, para desassossego das rolinhas que ali tinham seus ninhos. No meio da folhagem espessa, elas nem o viram prender uma ponta da corda no galho mais robusto e passar a outra ponta, em forma de laçada, em torno do pescoço. Mas ouviram, perfeitamente, o ruído de uma garrafa vazia lançada ao chão. E, logo em seguida, um barulho terrível... Algo enorme se desprendeu dos galhos e caiu da folhagem, numa confusão medonha de galhos se partindo e muitos sacolejos, terminando num baque que abalou toda a copa da mangueira e fez as rolinhas apavoradas deixarem seus ninhos. Tudo não durou mais que um minuto. Aos poucos o silêncio retornou, a noite seguiu seu curso e todos voltaram a dormir em paz.
Quando acordou no sábado e viu que o Paraná não voltara, Zoraide me disse que seu primeiro sentimento fora de raiva e ciúmes. Pensara mesmo que estava na hora de voltar pra sua cidade, pois o Paraná, que lhe prometera vida de rainha, só lhe dera abandono, trabalho e decepções. E foi assim, muito triste, que viu aqueles papéis amassados pelo chão da cozinha. E, sobre a mesa tosca, duas folhas abertas, com uma caneta sobre elas. Numa se lia, com letra trêmula: “Ninguém tem culpa”. Na outra: “Estou no quintal da casa do Amaro”. Embora, à primeira vista, não entendesse ao certo o que aquilo significava, um arrepio lhe percorreu o corpo. Algo, lá em seu íntimo lhe prenunciara a tragédia. Pegou os bilhetes no chão e ali se via como fora difícil ao seu homem escrever aquelas poucas palavras. Quanto desespero! Um temor imenso lhe invadiu, como se fora uma saudade antiga despertada. Sem nem preparar o café saiu como uma louca pra casa do Amaro. À medida que caminhava, uma certeza começou a lhe tomar e ela acelerava o passo. Agora já corria e não tinha mais dúvidas. Quando finalmente, abriu o colchete da cerca do quintal do Amaro, já estava preparada para a cena que a esperava. Foi com a mais doída calma que ela sozinha cortou a corda e estendeu seu desfigurado amor no chão, soluçando a pergunta que nunca encontrou resposta:
- Por que? Por que? Porque, meu nego?
No alto do coqueiro, duas corujas tristes amortalhavam a manhã de sábado com seus pios chorosos.
O Amaro já tinha sumido desde a noite anterior. O envelope que o Paraná recebera de manhã e que talvez pudesse esclarecer alguma coisa, esse envelope nunca foi achado. A única coisa que se soube é que, quando os dois saíram de casa, antes do almoço, foram ao posto telefônico do garimpo e ali o Paraná deu um telefonema de uns 20 minutos ao posto telefônico de outra cidade, onde alguém o esperava. Segundo a telefonista, ele saiu choroso da cabine. Mas isso não ajudou muito, porque a pessoa não foi localizada, de modo que meu amigo Paraná enforcou junto com ele seu segredo... Certamente um segredo terrível... E deixou-nos assim perplexos e saudosos.
Dois anos após esses fatos, retornei ao garimpo do Saci, em novas atividades. Nely tinha vendido o bar e se fora pra capital. Zoraide se mudara, logo após a morte do companheiro, com o que havia de ouro apurado sob o colchão e os trabalhadores assumiram a cava da Irenã e depois a venderam. Agora estava paralisada. Apenas o quintal sinistro da ex-casa do Amaro ainda permanecia intacto. Amaro?! Ninguém soube dar informações. Com grande dificuldade localizei o túmulo do meu amigo num arremedo de cemitério e fiquei sabendo que nenhum parente apareceu ou fez contato para reclamar o corpo. Dois anos somente e o Paraná já era apenas uma lembrança.
Pois é... Nessa minha vida de geólogo e seresteiro, de vez em quando alguém me pede pra cantar “Fracasso”. Então, essa tragédia me vem à lembrança e eu às vezes brinco: - Por acaso, você não está pensando em se suicidar, está?
Certo mesmo está o mestre Paulinho da Viola, que sabe das coisas:
“... E a vida continua... Esse é um dito que todo mundo proclama,
O consolo dos aflitos e a desilusão de quem ama...”
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terça-feira, abril 07, 2009
Conto mal acabado
Não!
Não me venhas com essa conversa mole,
De clichês e frases feitas de bordões!
Não quero que me consoles.
Não!
Não me venha com teu abraço frio!
Esse abraço que não aperta... Mas aparta.
Que não creio em afetos que não crio.
Não!
Não me olhes com esse olhar que não me vê!
Libero-te do gesto constrangido...
Não estamos em programa de TV.
Não!
Poupemo-nos dos risos maquinais, por hábito.
Pra bem longe com teus dentes de alcatrão,
Que tua boca exala cinismo e mau hálito!
Vai!
E quando passares por aquela porta,
Esquece que existi, despe o passado!
E vive em paz a tua vida torta.
Vai!
Apaga a luz, deixa o portão fechado,
Já te risquei do livro, és letra morta,
Um conto que escrevi, mal acabado.
Bsb, mar/2009