domingo, março 21, 2010

Entrelinhas

Por sua alma e cara de artista,
E porque tudo é fato, notícia,
E a vida um imenso tablóide
E tudo são textos, fotos, listas,
E porque tudo deve ser exposto,
E tudo deve ser expresso,
Tenha livre acesso a jornalista!

Por sua ousadia de malabarista,
E a magia do jogo das palavras,
E a maravilha precisa da frase,
E a busca incessante da pista...
E porque tudo deve ser dito,
E tudo deve ser claro,
Salve-nos o olhar da jornalista!

E porque o mundo é divina revista,
E porque tudo é plástica e imagem
E porque tudo é paisagem, som e tato,
Reportagem e entrevista
E porque tudo tem de ser checado,
E tudo deve ser sentido,
Livrem da mordaça a jornalista!

Mas, com tua veia escrota de lobista,
Porque tudo é pesquisa e enquete,
Compuseste título, anúncio e manchete,
Interesseiro, como um vigarista...
E porque tudo é estilo e conjunto,
Fizeste dela musa e assunto
E caíste no charme da jornalista.

Mas, voa o tempo, impiedoso humorista,
E um dia passa a ser vírgula em texto,
Quem antes era título e contexto.
Até que a denúncia cruel e revanchista,
Expulsa para um vil ponto final
Quem antes era o corpo principal...
Ninguém brinca em vão com a jornalista.

Bsb, 12/06/2007

quarta-feira, março 17, 2010

Lenda da criação do geólogo

Reza a lenda que Deus tinha acabado de criar nosso mundo, com tudo que aqui há (aliás, quase tudo, como se verá). Já tinha tirado o merecido descanso dominical, curtindo o solzinho (uma de suas criações mais difíceis, segundo Ele) de Jeriquaquara, Porto Seguro e Búzios. E até já fazia planos para novos mundos, quando, ao lançar um derradeiro olhar sobre Sua obra, deparou-Se com curiosa cena. E pôs-Se a assuntar.

Neguinho ia passando numa estrada, meio lá meio cá, depois de umas manguaças, quando lasca o dedão numa pedra e se esborracha no chão. Tinha uma pedra no caminho. Era uma pedrona, de uns dez quilos, incolor, transparente, brilhante... Neguinho se levantou, o dedão latejando parecendo uma ameixa roxa, a unhona pendurada, pegou a pedra na mão e desabafou:

- Quem foi o filadaputa que deixou esse puta cristal de quartzo no meio do caminho?

Nisso, passa um médico, que logo se apressa em tratar a ameixa, digo, o dedão da vítima, extirpando os restos de unha e fazendo o devido curativo. Na hora de receber, o médico, que já tinha visto pedra semelhante alhures, dá uma de joão-sem-braço:

- O que é isso companheiro? Fui médico particular do Homem durante os seis dias da Criação! Acaso passou por sua cabeça que eu iria me aproveitar de sua fragilidade, aqui nessa estrada, para enfiar-lhe a faca? O juramento de Hipócrates para mim, é sagrado! Minha assistência não lhe custa nada e até far-lhe-ia, de bom grado, o favor de levar, como lembrança, essa que foi a cruel causadora de suas dores. Vou levar essa pedrona para mim.

Neguinho, ainda atordoado, já ia entregando a pedra, quando um economista passante intervém:

- Momentinho senhores! Sem querer, assisti ao que aqui se passou e gostaria de conhecer melhor essa malfadada pedra. Não sei se vocês sabem, mas fui eu que fiz o plano de viabilidade econômica do mundo, a pedido do Homem.

Após examinar a pedra contra o sol, girando-a por cerca de cinco minutos, faz surpreendente oferta:

- Sou professor de economia mineral (Deus já tinha criado a economia mineral) e gostaria de levar esse espécime de topázio, sem valor econômico, apenas para compor o acervo de amostras da minha instituição. Para não dizerem que levei de graça, dou-lhes cem reais, cinquentinha para cada um, e estamos conversados!

Neguinho já ia passando a mão nos cinquenta, quando, surgido não se sabe de onde, um administrador interrompe o tripartite colóquio:

- Mas o que temos aqui? Três adultos numa negociação de boca, sem nada escrito, sem ao menos um contrato! Onde está o profissionalismo? Na qualidade de assessor administrativo do Homem, fui eu que planejei a Criação, em seus mínimos detalhes. Vamos fazer um plano de negócios pra botar uma ordem nessa zorra!

Tomou a pedra do economista, tentou riscar-lhe com uma lâmina de canivete, mas esta é que saiu toda arranhada, perdendo o fio. Sem pestanejar propôs:

- Esta pedra serve direitinho para segurar a porta lá de casa, que bate muito com o vento. O plano de negócios é o seguinte: eu fico com ela por duzentos reais, em quatro prestações mensais e iguais. Para sacramentar a transação, aqui está um contrato prontinho pra assinarmos sem mais perda de tempo.

Como naquela estrada passava de tudo, eis que chega um engenheiro, exatamente a tempo de impedir a insólita negociação. Dizendo-se responsável técnico pela Criação, pede para que todos se afastem e inicia um meticuloso exame na sanguinária pedra. Anota todas as dimensões, inclusive os ângulos das faces e arestas, expõe ao sol, olha com uma minúscula lupa (uma das últimas criações de Deus, antes de Adão e Eva), risca, cheira, lambe, ausculta, e o escambau. Depois, com a solenidade das grandes sentenças, anuncia:

- Tecnicamente falando, trata-se de um megacristal de coríndon incolor, mineralzinho chulo, que não serve pra nada, mas dá uma boa pedra de amolar. Gostaria de tê-la, para amolar minhas ferramentas. Sendo assim, pra acabar com o leilão que aqui se instalou, a pedra é minha por mil reais.

- UUHHHHHH! Fez a platéia em volta. Sim, porque, àquela altura já havia uma pequena multidão em volta do grupo e da polêmica pedra.

- Mil reais??? Por mim, negócio fechado, fez o bebum, doido pra pegar a grana e voltar pra sua taberna.

- Eu cheguei aqui primeiro e tratei a ameixa, isto é, o dedão do pé desse bebão. Tenho preferência, portanto. Fico com a pedra por dois mil reais! E ponto final!

- UUHHHHH! A platéia delirava.

- Bom, como prova do meu amor pelas ciências e pela educação, levo a pedra por quatro mil reais e não se fala mais nisso!

- Vende! Vende! Vende! A platéia berrava.

- Sem organização não chegaremos a lugar nenhum! E meu plano de negócios? Pois vou alterar a cláusula de valor e estipular em dez mil reais o preço da pedra. Fim de papo.

Três mocinhas da primeira fila da platéia desmaiaram. Uma mulher grávida pariu uma garotona, imediatamente batizada de Pedrita. Neguinho se animou:

- Quem dá mais? Quem dá mais?

Quando o engenheiro levantou o braço pra fazer sua contraoferta, um personagem novo entra na história. Nada mais, nada menos que um advogado. Ou, conforme se apresentou ao surpreso grupo, assistente jurídico do Homem, durante a Criação.

- Se não fosse eu, o Homem tava ferrado. Mais de mil ações por danos morais, já pensou?! Ganhei todas!

Diante da barulheira infernal, o advogado começou a berrar:

- Data vênia minha gente! Datíssima vênia! Quo vadis?

Sem mais recursos, pegou duas varas, exibiu-as no ar formando uma cruz e soltou os pulmões:

- Vade retro satanás! Vade retro cão das sete portas!

Um silêncio sepulcral se formou, quebrado apenas pelas risadas da moça que recebeu uma pomba-gira, na última fila da platéia.

O assistente do Homem, então, tirou de sua mochila (criada especialmente para ele, pelo Homem) o código penal, o código civil, a CLT, o Código Nacional de Trânsito, a Constituição Federal, um Regimento Interno e uma Portaria.

Invocando então, a Cláusula 17ª, Parágrafo 11º, Item XIV, Inciso XXIX, do Capítulo 4 do dispositivo legal pertinente, retomou seu discurso:

- Onde estamos minha gente? Data vênia, temos aqui quatro aproveitadores querendo explorar a infelicidade desse pobre bebum, que teve a sorte e o azar de arrebentar a cabeça do dedão do pé nessa pedra. Azar, porque perdeu uma unha, e uma unha, por mais unha que seja, é também obra da criação e merece todo nosso respeito.

O bebum, que era mineiro, encheu-se de brios:

- Uai sô! Intão vam fazê um minutin de silenz pur minh'unhona, uai!

E assim foi feito.

- Mas foi sorte também, retomou o advogado, porque era uma baita de uma unha encravada, provavelmente um pequeno descuido da equipe técnica auxiliar do Homem. Mas, nada disso justifica o que aqui se passa, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O fato objetivo é que temos aqui um crime cristalinamente cometido. Temos sangue e temos vítima. E, nesse ponto, a lei é implacável, dela não escapando nem o reino britânico, muito menos o reino mineral. Dura lex, sed lex. Portanto, sem mais delongas, a pedra está apreendia, em nome da lei, para averiguações, exames de corpo de delito, antecedentes criminais, etc e tal. Até a completa e cabal elucidação dos fatos. Duela a quien duela, no más!

Na platéia, a pomba-gira tinha agora a companhia de um preto-velho, que desceu doido por um marafo. O advogado prosseguiu:

- Quanto a esses salafrários aproveitadores, serão todos enquadrados na forma da lei, salvo melhor juízo. E saiu enquadrando todo mundo, a torto e a direito:

- Você está enquadrado no código do consumidor. Você na CLT. Você na lei das contravenções e você na 8.666...

Ao ouvir seu enquadramento, o engenheiro, inconformado, partiu para cima do causídico do Senhor, para tirar satisfações. Ao fazê-lo, contudo, deu um pisão na ameixa, digo no dedão do pé do bebum. Este, injuriado e não entendendo mais porra nenhuma, deu um contravapor na orelha do engenheiro, que foi se esbarrar com o médico, caindo ambos. Puto da vida, botou a pedra debaixo do braço e encostou-se numa árvore, em posição de defesa:

- Na minha pedra ninguém toca! Na minha pedra ninguém toca!

Sacudindo a poeira e dando a volta por cima, o médico sacou um bisturi de 15 cm, afiadíssimo, e ameaçou dissecar o engenheiro ali mesmo. O administrador, no meio da confusão, levou um sopapo do economista. Pra se vingar, pegou um chucho de madeira e mirou bem no coração do advogado, salvo pela capa dura da nova edição da CLT. A essa altura, o engenheiro se esgrimia com o economista, numa roda formada pela platéia. Este, com sua régua de cálculo, aquele com sua régua T. A platéia entrou em delírio, quando o tranca-rua, recém-baixado, deu um direto no queixo do preto-velho, derrubando-o em cima da pomba-gira, que, mesmo assim, continuava dando risadas. Enfim, como o diabo gosta.

Deus, que a tudo assistia (lembram-se do primeiro parágrafo?), vendo aquela zorra no Seu mundo, que deveria ser perfeito, suspirou:

- Meu De... Ops! Meu Filho, onde foi que eu errei?

E pensou, pensou, pensou... Já estava quase desistindo, quando Lhe veio um estalo:

- Caraca! Onde estava com a cabeça? Esqueci de criar o geólogo!

Imediatamente completou sua obra. Levou um susto quando viu o resultado, pois, na pressa, fez um ser mal-ajambrado pra caramba. Depois conserto, pensou. E, pondo a destra na cabeça da criatura, ordenou, amorosamente:

- Vai lá, meu filho, e acabe com aquela bagunça.

O geólogo, ainda meio zonzo da criação assim tão espontânea, já ia saindo, após receber uma capanga, também recém-criada, com todos os apetrechos de tabalho dentro, inclusive uma garrafinha e uns sanduíches velhos, com ovo estragado, provavelmente sobras de outro mundo, quando ouviu a última recomendação:

- Mas, aja rápido, que ainda tenho um mundo pra começar a criar amanhã cedinho, viu filho?

E assim, o geólogo adentra a lamentável cena. No caminho, tinha mamado metade da garrafinha enquanto traçava os sanduíches de ovo estragado. Afinal, não tinha comida nada ainda, desde que fora criado. Subiu num barranco, bateu palmas para chamar a atenção, ninguém ligou. O pau comia solto.

- Atenção minha gente! Por favor!

Começou a ficar puto! Tirou da capanga a garrafinha e levou-a, avidamente, aos lábios.

- Atenção cambada de filadaputa!

O ovo estragado começou a fazer efeito. O geólogo suava aos cântaros. Sorveu mais uns três goles do líquido quente, o que deve ter aumentado a fermentação estomacal. O calor era insuportável. A barriga do geólogo parecia uma bomba atômica. Até que o pino não aguentou e explodiu:

- PUUUMMMM!!!!

Foi o maior pum que jamais se ouviu sobre a face da Terra. O pipoco ecoou nas serranias e provocou uma reverberação estrondosa, que quase arrebenta os tímpanos dos brigões. O cheiro de enxofre inundou o ambiente, forçando os contendores a protegerem o nariz. Aos poucos, a balbúrdia se aquietou. Depois de três explosões secundárias, o silêncio era de cemitério. Nesse momento, todos se voltaram para aquela coisa estranha, aboletada sobre o barranco da estrada:
  • Uma figura imunda, coberta de poeira;
  • Colete sujo esquisito, cheio de bolsos;
  • Uns troços pendurados no pescoço;
  • Boné esculhambado, aba pra trás;
  • Óculos raiban escuros;
  • Barba imensa de troglodita;
  • Capanga bolorenta a tiracolo;
  • Cinturão de couro, com um monte de coisas penduradas, destacando-se um martelo, calibre 38, cabo longo;
  • Calça jeans surrada que nunca viu água;
  • Perneiras sobre as calças e botina de couro.
Depois de mais uma dose da divinal garrafa, o geólogo, assim falou:

- Olha aqui cambada, o Homem me mandou aqui pra acabar com essa baderna.

Assim dizendo, sacou o martelo, para utilizá-lo como banquinho, pois pretendia sentar-se pra fazer seu discurso. Achando que ia começar um tiroteio, a platéia se mandou. Em uma fração de segundo pomba-gira, preto-velho e tranca-rua desincorporaram e escafederam. Ficaram somente o bebum e os interessados na pedra.

O geólogo tratou, então, de terminar logo sua tarefa.

- Vou resumir o que temos aqui. Neguinho tropeçou num baita diamante, e agora sofre o assédio imoral de cinco espertalhões, cada um se fingindo de morto pra levar a pedra para si, por um preço irrisório.

Neguinho quase tem um ataque cardíaco, apertando a pedra contra o peito com as duas mãos:

- A pedra é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro!

O geólogo continuou:

- Bom, o fato é que alguém vai ter de ficar com o diamante... Mas, quem?

- Todos levantaram o braço, a um só tempo:

- Eu!!

- Então, vamos resolver isso rapidinho. Com a autoridade que me foi dada pelo Homem, farei uma, e uma só, pergunta a cada um dos interessados. Não haverá segunda chance. Aquele que acertar sua resposta, de primeira, será o feliz proprietário do diamante. Ok?

-Ok, todos responderam, menos Neguinho, claro.

- Comecemos então, disse o geólogo, não sem antes dar mais uma golada na inseparável garrafinha.

Dirigindo-se ao médico, perguntou de sopetão:

- Então homem dos medicamentos, diga-nos: qual o antitérmico específico para baixar a febre do ouro?

Desconcertado, o médico foi se desculpando:

- Seria a mesma coisa da febre amarela?!

O geólogo o encarou por uns bons 15 segundos. O médico, entendendo o recado, pega sua maleta e se manda.

Chamando o economista, o geólogo dispara:

- Vamos lá, homem dos custos: considerando o valor da matéria-prima, o que sai mais em conta para um programa de moradia popular: casa com telhado de vidro na praia, ou barracão de zinco sem telhado e sem pintura lá no morro?

- Bom... É... Seria para o "Minha Casa, Minha Vida"?

Sem nenhum comentário do geólogo, após 15 segundos de profundo silêncio, o economista pega sua régua de cálculo e cai na estrada.

Vendo que seria o próximo, o administrador já ia saindo de fininho, mas o geólogo interpela-o:

- Calma homem dos planos! O senhor que conhece de cabo a rabo os planos de negócios, me diga: qual é a estrutura de um plano de falha?

- Plano de falha?? Não seria um plano de falência?

O administrador nem esperou resposta. Baixou os olhos, pegou sua pastinha e deu no pé.

Para comemorar o bom andamento de sua missão, até ali, o geólogo deu uma beiçada na garrafinha e dirigiu-se, candidamente, ao engenheiro:

- Mas diga-nos, homem do tijolo e do cimento, com quantas placas de concreto se faz uma placa tectônica?

- É... Veja bem... Depende se a placa for para piso ou revestimento, entende?

Silêncio constrangedor.

- Bom, é melhor eu ir andando. Tenho uma obra pra fiscalizar ainda hoje.

Assim dizendo, caiu na estrada, a régua T debaixo do braço.

Naquele momento, o advogado acabava de recolher seus códigos legais espalhados durante a refrega.

- Muito bem, disse o geólogo, pelo que vejo, o senhor conhece todas as leis de todos os códigos.

- Isso mesmo, de trás pra frente, de cor e salteado.

- Pois então, homem das leis, quantos artigos existem na lei da sucessão estratigráfica?

- Data vênia, não seria lei da sucessão hereditária?!

Ante o olhar implacável do inquisidor, o advogado terminou de recolher seus códigos para ir embora, mas ainda pode ouvir:

- Aprenda de uma vez, homem das leis: há mais leis entre o céu e a terra do que...

O resto ele não ouviu porque já estava muito longe, estrada a fora.

Ufa! Missão cumprida, pensou o geólogo. Paz restabelecida, platéia dispersa, aproveitadores escorraçados... Só o pobre do bebum, que não tinha entendido porra nenhuma, continuava com sua pedra debaixo do braço:

- A pedra é minha e ninguém tasca!

Por duas vezes ameaçou atirá-la na cabeça do geólogo.

Nesse momento, Deus resolveu dar o toque final na história e apareceu, em pessoa. Usando de Seus poderes magnéticos, retirou a pedra do bebum e deu-a ao geólogo.

Inconsolável, Neguinho resistia a seguir viagem, mas Deus, a sinistra em sua cabeça, aconselhou-lhe:

- Vai meu filho, que tua ameixa, isto é, teu dedão já está curado. Vá para sua amada Minas e, lá chegando, torne-se um poeta e quando se lembrar dessa pedra do caminho, faça uma bela poesia. Ah! Leve esse barrilzinho contigo e, chegando lá, distribua o conteúdo com teus conterrâneos. Eles vão gostar pra caramba. Tem um papelzinho dentro, com a receita. Vai com De... Ops! Vai Comigo!

E assim foi. Neguinho montou um alambique, mas até hoje nunca esquece que havia uma pedra no caminho.

Ao geólogo finalmente, Deus disse:

- Meu filho, estou com muita pressa, vim apenas me despedir e agradecer, porque contigo, completei minha Criação. A Terra sem geólogo é como acarajé sem vatapá.

Tomando aquele imenso diamante de 10 quilos nas mãos, jogou-o para cima, e a pedra se esfarelou em bilhões de minúsculos fragmentos, levados pelos ventos e espalhados nos quatros cantos do mundo.

- Vai meu filho, estuda a Terra, mapeia as pedras, os rios, os vales, as montanhas e suas entranhas. Mostra aos homens que tudo de que eles precisam pra sobreviver, Eu provi aqui mesmo. Certo, que alguns bens metálicos Eu escondi nuns lugares esquisitos por aí, nem Me lembro mais onde, mas tu hás de descobrir, com tua perspicácia. E sendo a Terra o celeiro das minhas criaturas diletas, é preciso respeitá-la, entendê-la e, sobretudo amá-la. Ensina tudo isso aos homens, em Meu nome. Vai que é tua, Brucutu!

E após breve silêncio:

- Como recompensa pelo teu competente trabalho, jamais correrás o risco de perder a unha num diamantão desse quilate. Aos garimpeiros caberá a tarefa de reunir os pedacinhos que aqui hoje dispersei. Mas, para isso, terão que ralar muito. E essa garrafinha te acompanhará para sempre. Será o bálsamo para a vida sofrida que terás. Mas beba com moderação, viu meu filho?

Assim dizendo, pegou uma nuvem fria e se perdeu, céu a fora.

E é por isso que as coisas são como são.

Bsb, fev/2010

domingo, dezembro 20, 2009

Duelo de insanos

Primeiro Ato - Mexeu com meu amigo, mexeu comigo.

Naquele dia, Pepe* se desentendera fortemente com Abel*, na Empresa. Ambos eram geólogos do time titular, digamos assim. Muito conhecidos e respeitados entre seus pares. Os motivos do desentendimento? Perderam-se no tempo, mas asseguro que foi banalidade, nada que justificasse aquele tom de voz, aquelas ameaças... Coisa de ego, nada mais que isso. Mas o fato é que a discussão estava ficando fora de controle, perturbando o ambiente de trabalho.

Numa sala vizinha, Jonas*, grande amigo de Abel e conhecido estopim-curto, não se conteve e foi lá tomar partido, mesmo sem ter a menor idéia do porquê da briga. Passional como só ele mesmo, não iria permitir seu amigo-irmão ser desmoralizado assim, sem mais nem menos, debaixo de seu nariz, como ele me contou depois. Coisa de geólogo, cá pra nós. A justificativa dele:

- Porra! o cara chamou meu amigo de cagão!! Como eu poderia permitir uma coisa dessas?

A entrada teatral e furiosa de Jonas na sala pegou Pepe de surpresa e deixou-o completamente sem ação. Agora foi ele quem ouviu, pianinho, todos os impropérios que Jonas conseguiu vomitar, antes de resgatar seu amigo, não sem antes assacar seu ataque final:

- Vamos embora, que esta sala está contaminada com o virus da covardia e da filadaputice!

Assim arrematando, saiu, corredor a fora, com Abel, ainda atônito, pelo braço. Atordoado pela surpresa e pela autoridade de Jonas, Abel deixou-se levar sem mairores resistências, até mesmo com certo alívio, pelo que me disseram. Para quem conhece as coisas do futebol, Abel estava mais para Ademir da Guia do que para Edmundo.

E a tarde se foi e o expediente também e todos regressaram a seus lares na paz de todos os dias.

Peraí! Todos??

Segundo Ato - Pintou tragédia

Não foi bem assim. Naquela tarde, um coração voltou pra casa flechado pelo veneno da vingança. Pepe não se conformava. Quisera dar uma chamada de saco em Abel e acabara levando um tremendo esculacho de Jonas, no melhor estilo barraco, pra Deus e o mundo ouvir. Puta que pariu! Isso não ficaria assim!

De seu turno, Jonas, por ser do tipo que explode logo e alivia a pressão, já estava em outra. Para ele, os acontecimentos da tarde já pertenciam ao passado. Sem ressentimentos. Oito horas da noite, o Jornal Nacional já ia começar, quando o telefone toca em sua casa. Chamado pela mulher, lá foi ele atender, contrariado, pois o JN era o único programa que gostava de ver. E então deu-se esse impensável, mas impagável diálogo, entre dois geólogos da mais pura cepa:

- Alô!

- Olha aqui seu filho da puta! Você me pegou desprevenido hoje à tarde, mas não pense que isso vai ficar assim não!

Estopim-curto acendeu imediatamente:

- Vai tomar no cú, seu merda! O que você quer?

- Eu vou te ferrar, filho da puta! Tá pensando que é o bom, o valentão?

- Rarará!!! Tô me cagando de medo!

- Pra mim, você é um monte de bosta mesmo e eu vou te encher de porrada. Te desafio para um duelo na mão, hoje mesmo. Tem coragem?

- Claro babacão! Só me diga onde!!

- Daqui a uma hora, atrás do mercado, no bar da dona Jurema, sabe onde fica?

- Não se preocupe, eu encontro.

- Mas não vá faltar, viu seu cagão, senão eu vou te pegar aí mesmo na sua casa!

- Você tá morto, cara! Eu vou te matar!

Pronto, pintou tragédia!

Excitadíssimo, contou o surreal desafio para a esposa e já foi botando uma camisa para sair. A esposa, pessoa centrada, não acreditou no que ouvira.

- É uma brincadeira, né?

- Brincadeira, uma porra! Pode sair da frente que hoje eu dou uma lição naquele babaca.

E assim dizendo saiu feito um furacão, porta a fora, já com a chave do carro na mão.


Terceiro Ato - Angústia da procura


A esposa, desesperada, pois conhecia o gênio da fera, correu a vestir uma roupa, pois estava de camisola. Mas, quando voltou, o insano já tinha partido e ela nem sabia para onde. Ficou paralisada junto à porta, impotente ante tanta irresponsabilidade e sentindo o cheiro de tragédia no ar. Pensava em sua família distante e na filhinha de apenas seis meses que dormia tranquila nos braços da babá. Sem perder mais tempo, ligou para Abel, grande amigo do casal, e compartilhou sua aflição. Este, sentindo-se responsável, ligou para vários colegas e decidiram, após avaliarem todos os possíveis locais do inimaginável duelo, sair em duplas por alguns botecos selecionados, pois a única pista que a esposa capatara é que o duelo seria num bar.

Sem poder participar da busca, a esposa quedou-se ao lado da inocente filhinha, desfiando todas as orações de que se lembrava, na esperança de que seus santos trouxessem o marido de volta, são e salvo.

E o tempo passou.

Enquanto os ponteiros rompiam a noite, Abel e amigos vasculharam, uma por uma, todas as ruas, vielas e becos do bairro. Nenhuma informação. Ninguém deu a mais mínima notícia dos valentões. A cada dez minutos, Abel ligava para a esposa:

- E aí? Apareceu?

Mas, a única resposta que ouvia era um não angustiado.

Por volta de uma da manhã, todos reunidos na casa de Jonas e sem outra alternativa, resolveram ligar para a casa de Pepe. A outra esposa atendeu sonolenta:

- Não, Pepe saiu desde cedo e até agora não voltou. Aconteceu alguma coisa? Que horas são? Nossa! Aquele safado me paga!
Foi então que alguém se lembrou do irmão do chefe local da Empresa, delegado de polícia e contumaz quebra-galho da geologada descuidada da vida. No desespero, era um fio de esperança concreto, experiente e com a frieza necessária para tomar decisões nesses momentos. Afinal o silêncio deixava a todos com os nervos à flor da pele, olhando-se com medo de seus próprios medos, segurando as palavras. Teria a tragédia se consumado?

Por fim acionado, o prestimoso chefe acionou o irmão, que acionou seus pares delegados, que acionaram toda a frota de viaturas em serviço naquela noite calorenta tropical. Às duas horas da manhã, todos os policiais acordados da cidade procuravam os dois brigões, dando batida na periferia, checando com informantes e vasculhando pontos, bocas, casas de luzes vermelhas... Nenhuma possibilidade poderia ser descartada àquela altura.

De repente, o telefone toca na casa de Jonas. Todos correram ao mesmo tempo, mas foi a esposa quem atendeu, aflita. Era a segunda esposa que, extremamente preocupada, reslovera engrossar o time de buscas e deu a pista:

- Olha, se eles foram para algum bar, deve ser a birosca de dona Jurema, um pega-bêbo atrás do mercado... Não tem placa, é uma casa com um balcão nos fundos.

Quarto Ato - A birosca de Dona Jurema

Com as coordenadas fornecidas, partiram em comboio, com o coração apertado. Que cena os aguardaria? Em menos de 20 minutos o esquadrão de busca alcançou a malfadada rua, na verdade um beco. Pensem num lugar sinistro! Era o tal local. Sem iluminação e sem asfalto e cheio de vira-latas virando latas literalmente. Seguindo as indicações da segunda esposa, deram com uma casa-barraco de portas semi-abertas, uma minúscula sala com mesas da Antártica fechadas e encostadas na parede, indicando fim de expediente. Um corredor escuro, vazio, dando noutro salão à meia-luz, vazio, onde havia um balcão ensebado de madeira. No ar, um cheiro esquisito de salmoura.

Atrás do balcão, cochilando ao lado de uma dose não tomada, um velho esquelético, camisa aberta, bigode engraçado, que quase sai em disparada, quando viu a troupe invasora. Parece ter visto um bando de ETs.

Finalmente, lá no canto mais escuro do salão, a cena que até hoje ninguém consegue esquecer.

Na verdade, por mais que todos tivessem, cada um a seu modo, imaginado o final daquele duelo tresloucado, ninguém, nem de longe, se preparou para o quadro que, naquele momento, presenciaram, boquiabertos.

Seu Joca, o barista assustado, foi quem relatou, com os devidos detalhes, o que viu, com os olhos que a terra comeu, pouco tempo depois. E então ouviu-se a mais espantosa história de duelo que já se deu sob esse mundão de meu Deus.

Último Ato: O Gran finale

Com a palavra, seu Joca.

Era por volta de 9hs da noite, quando Pepe, velho conhecido, apareceu, para sua surpresa, vez que não fazia parte de sua clientela de meio de semana. Costumava, sim, frequentar sua modesta birosca, mas apenas aos sábados, quando vinha comprar coisas do Nordeste, no velho mercado, em frente e então aproveitava para umas rodadas de sinuca, ao embalo de uma cachacinha de rolha e suas tradicionais carne de sol e linguiça de bode, artesanais, as melhores da cidade, modéstia às favas!

Mas, como dizia, foi com surpresa que viu Pepe surgir de repente, naquela noite, pedir uma cerveja e se aboletar sozinho, na mesa mais isolada, aos fundos da casa, bem na entrada de uma sala lateral, onde ficava a mesa de sinuca. Depois da segunda cerveja, nitidamente esperando alguém que não vinha, resolvera aceitar o desafio do velho Quinca, um fanfarrão do taco, para uma rápida partidinha.

Mais ou menos 30 minutos depois, enquanto Pepe levava uma sova do velhote, chega Jonas, esbaforido, assustado, olhando para os lados, aparentemente procurando alguém. Perguntou se ali era mesmo o bar de dona Jurema. Sim, minha falecida esposa. Eu sou Joca, às suas ordens. Sentiu cheiro de encrenca no ar, primeiro porque tinha a presença estranha de Pepe em plena quarta-feira. Segundo, aquele cliente novo, bem vestido, não tinha o perfil dos frequentadores de sua humilde birosca. Que diabos estava acontecendo? Se é uma coisa que não tolerava era confusão em sua casa. Polícia?? Nem pensar!

Bom, mas o fato é que, com com ar de desapontado, talvez por não ver quem esperava, Jonas pediu uma cerveja e se postou, solitário no salão da frente. Fora do alcance, portanto, da vista de Pepe. No sala dos fundos o velho Quinca deitava e rolava em cima do nervoso oponente.

E o tempo passou.

No salão da frente, Jonas tomava uma cerveja, uma pinga, olhava no relógio e pedia mais outra, impaciente e agitado. Por várias e várias vezes esse ciclo etílico foi reiniciado.

Perto das 23hs, quando normalmente o boteco já estaria fechado, Pepe sai da sala de sinuca para mijar e só então vê Jonas na mesa cheia de garrafas vazias, na sala da frente. Àquelas alturas, ambos já estavam mais pra lá do que pra cá. Pepe, sem conseguir ganhar umazinha sequer de Quinca, tanto se concentrara no jogo, que até tinha esquecido do porquê estava ali naquele buraco imundo, plena quarta-feira. Ao ver Jonas, colega de mais de 20 anos de empresa, sua primeira reação foi a de quem viu um velho companheiro e não o adversário desafiado para duelar. Meio zonzo de tanta cerveja, caminha lentamente para o colega desafiado, que ainda não o tinha visto. A meio caminho foi pensando na merda que tinha feito.

Jonas, que já estava quase dormindo sobre a mesa, ao ver o desafiante em sua frente, levou um susto e tentou se postar de pé, com os punhos em guarda. Tentou, porque na tentativa, desequilibrou-se e se esborrachou no chão imundo da birosca. Ajudado por Pepe, recompõe-se e fica sem saber se parte pra cima ou agradece a solicitude. Um drama kafkiano vivido em frações de segundo, pois o que ouviu em seguida o deixou sem jeito:

- Faz tempo que está aqui?

Abobalhado, apenas respondeu, educadamente:

- É... E você? Chegou agora?

- Não cara, já faz um tempão! É que estou lá nos fundos, na sala de sinuca... Vamos pra lá!

Sem entender o que aquele convite significava, Jonas seguiu Pepe até a salinha escura, onde Quinca, inteiraço e todo pavão, aguardava com um copo de cachaça na mão. Pepe foi logo apresentando:

- Esse aqui é um colega de trabalho.

- Prazer, Quinca.

Querendo resolver logo a situação embaraçosa, Jonas perguntou a Pepe:

- E aí, como é que vai ser?

O velho Quinca, papudo e considerado o melhor taco da vizinhança, respondeu antes do indeciso Pepe:

- Podem vir os dois contra mim, que eu dou conta. Hoje estou com o diabo no couro!

- Nada disso! Eu sozinho vou lhe dar uma surra agora, seu convencido de uma figa. Se prepare!

- O que? Você sozinho? Olha rapaz, em você eu vou dar é com um braço só. Assim dizendo, escondeu um braço atrás do corpo e levantou o taco com o outro.

Nesse momento, Jonas tomou-se de um sentimento corporativo e postou-se, cambaleante, frente a Quinca, braços abertos:

- Só passando sobre o meu cadáver!

- Ah, é? Então tá bom, venham os dois!

Foi o que bastou. Como se fora o fecho de ouro  daquele diálogo do crioulo doido, Jonas deu um murro tão grande na cabeça do aparvalhado Quinca, que o velhote saiu catando cavaco até se esborrachar contra o quadro de tacos, na parede dos fundos, antes de cair em meio à avalanche de tacos esparramados pelo chão, uma cena típica de faroeste barato, do tempo do cinema preto e branco. Um corpo caído, dois bêbados, uma luz mortiça no meio da madrugada e um dono de boteco com as mãos na cabeça exigindo explicações, como se isso fosse possível naquele ambiente surreal.

Vendo o velhote semi-desmaiado, Pepe sensibilizado pela inesperada atitude de Jonas, pegou-o pelo braço:

- Vamos tomar uma saideira, enquanto esse velho fanfarrão acorda.

Mas o Joca não tinha gostado nadinha da agressão a um de seus mais antigos e constantes fregueses:

- Olha aqui, acho melhor vocês pagarem a conta e ir embora. Não deveriam ter feito isso com o pobre.

Aí, quem se queimou foi Pepe, que partiu para a defesa do amigo:

- Bota uma saideira sim! E quer saber de mais? Esse velho safado mereceu.

Sem esperar pela resposta, ele próprio dirigiu-se à geladeira, tirando uma garrafa vestida de véu de noiva.

Para não piorar a situação o rabugento, mas covarde Joca, voltou para o balcão e tratou de servir intermináveis saideiras.

O velho Quinca logo logo aprumou-se e ainda tomou umas duas por conta dos amigos valentões, sem ressentimentos.

E o tempo passou. E a bebida passou dos limites. E os adversários que deveriam se bater em duelo, passaram a contar histórias de campo, dos projetos em que trabalharam juntos e a noite tornou-se uma criança. Lembra daquela? Ih! Já tinha me esquecido, e aquela? Puxa, sabe que tenho saudades daquele tempo!?

E tomaram mil saideiras e se desculparam mil vezes e se abraçaram mil vezes e juraram mil juras de amizade eterna e desabaram sobre a mesa, um no ombro do outro.

E foi assim, nesse estado rocambolesco, dantesco, romanesco, mas, sobretudo, grotesco, que a dupla de duelantes foi encontrada e resgatada pela turma de Abel, para espanto e alívio geral.

É certo que as gozações depois foram terríveis, mas o assunto finalmente foi sepultado no cemitério do folclore geológico, exumado agora, para deleite de nossa inquieta memória. Afinal, que seria a vida sem essas deliciosas histórias? Uma chatice! Uma coisa porém é certa: nunca, em momento algum, aqui ou alhures, ninguém jamais verá um duelo como esse. Coisas de geólogo.

Bsb, 30/05/2010, dia do geólogo

sábado, julho 18, 2009

Nada foi em vão

Mas, nada foi em vão!
Pelo contrário,
Tudo foi preciso e bom
E necessário.
E, afinal, ficou o aprendizado.
A alma humana é tão pequena
Quão complexa,
E a dor que nos embota o entendimento
E humilha a razão e a faz perplexa
É, de fato, o grande ensinamento.
E os acessos de paixão,
Com suas chamas e brilhos de salão,
São raios que enceguessem a alma.
E a alma cega é como um vôo sem plano,
A descampar imensidões... Desertos...
É grito débil de pulmões vazios,
Sob o pulsar de um coração insano...
Canoa frágil, contra o mar bravio.

Não, repito, nada foi em vão!
Nem mesmo a dor,
Nem mesmo a traição covarde,
Pois, se afinal, o peito ainda arde,
Tenho a visão mais clara
E os olhos secos,
E a voz mais firme,
E o andar mais calmo...
E serenada a alma,
Agora sou mais forte
E as canções, mais doces
E os versos, mais sutis
E os dias, mais azuis.

Não, amigo, nada foi em vão!
Tudo foi apenas como havia de ser.
Se doeu? Não vou negar, doeu.
Mas já passou, já perdoei
E agora sou mais livre,
Agora sou mais eu.
Por isso não se engane:
Seja na aurora, ou no ocaso,
Na subida, ou no declive,
Sejas tu granfa, ou povão,
Tudo o que a gente vive,
Nada! Nada é por acaso,
Nada acontece em vão!


Rio, 18/07/2009

quinta-feira, maio 28, 2009

Geólogo beleza


Quem é esse louco que fita a barranca
E depois de contemplá-la em êxtase
Cai-lhe em cima, em fúria bruta
E a esburaca e a atormenta e a espanca?

Que faz aquele bando, no corte da estrada,
Em discussões febris, ao pé do mestre?
Por que o ataque rude, a marteladas,
A espantar o motorista e o pedestre?

Quem é aquele doido, que alisa a pedra,
Que lhe examina com lupa, os detalhes,
Que a tudo registra, com sutil presteza,
E, com afiada lâmina, lhe assesta um talhe?

Que faz aquele tonto, de aparelho em punho,
A medir, quem sabe lá, que estruturas
De planos surreais, imaginários?
Decifrando, da terra, suas santas escrituras??

E aquele outro ali que, insatisfeito,
Ainda cheira a pedra e a leva à boca!?
Que o recolham às grades, sob algemas,
Antes que saia por aí, de meia e touca!

Mas... Eis ali um jovem, na planície,
A contemplar a serra, inebriado e mudo,
Tecendo mil teorias, explicando tudo
Sobre a ascensão do magma à superfície.
A princípio, julguei ser um astrólogo,
Mas, agora, bem de perto... É um geólogo!
E o sei pelo martelo e a imundície.

Bípede falante, corpo ereto,
Dos gêneros humanos, o mais louco,
De tudo, tudo mesmo, ele é um pouco:
Meio médico, biólogo, arquiteto,
Meio poeta, meio vilão, meio artista.
Escrivão da Natureza e jornalista,
No chão imundo do mundo sem teto,
Bisbilhotando os fósseis escondidos,
Seus ventres estuprados, seus partos perdidos,

Rebentos da Terra... Seu filhos, seu fetos.

Bsb, 29/05/2009 - Homenagem bem humorada ao profissional geólogo, pelo seu dia, 30/05.

terça-feira, abril 21, 2009

Estou no quintal da casa do Amaro

Segundo Zoraide*, sua companheira, naquela sexta-feira fatídica do suicídio, ele não fez nada diferente. Pelo menos, nada que indicasse a tragédia que estava por vir. Mal o sol despontou, saltou da cama com seu corpanzil de 1,90m, tomou um copo d’água e se mandou para a cava da Irenã. Era assim que chamavam aquela escavação imensa, onde cerca de meia dúzia de homens trabalhavam 24 horas por dia, perseguindo um fugidio veio aurífero, no Garimpo do Saci. Ali, como fazia há dois anos, ouviu o relato da produção noturna, recebeu o saquinho com os gramas de ouro apurado, tomou café com os trabalhadores e orientou as próximas detonações, com seu faro de velho lobo dos garimpos amazônicos.

Por volta de dez horas, sob um sol de brasa viva, voltou ao barraco, com um envelope na mão, acompanhado por Amaro*, um mulato esquisitão, que morava sozinho, ali perto. Não era de muitos amigos, calado e arredio. Os maledicentes diziam que era fugido do Garimpo do Taioba, onde matara dois desafetos, por questões menores, coisas de ciúmes.

Uma das poucas pessoas que freqüentava seu barraco era exatamente o Paraná, o garimpeiro que vai se suicidar nessa sexta-feira. Zoraide nunca soube o porquê daquela aproximação. Ficavam semanas e até meses sem se falarem, mas, de repente, num belo dia, Amaro dava sinal de vida e os dois sumiam, barraco adentro, às vezes por uma tarde inteira. Ele nunca lhe disse o que tanto conversavam. Ela achava que eram questões de negócios e pronto.

Depois do acontecido, Amaro desapareceu e Zoraide começou a ligar alguns fatos... Hoje, ela tem certeza de que os dois se conheciam de muito tempo e que o Amaro era um elo entre o Paraná e algum fato tenebroso de seu passado, que ela nunca vai saber. Depois desses encontros, ela agora se dá conta, ele ficava misterioso, silencioso, pensativo. Certa vez, notou seus olhos vermelhos, mas ele negou que tivesse chorado. Tomou mais uma pinga e encerrou o assunto.

Voltando ao fatídico dia, devo dizer que nosso encontro no bar da Nely*, por volta das 20h00, também ocorreu como todas as outras vezes, na maior normalidade. Ele era fanático por músicas de seresta e enquanto eu estivesse na cidade, nos reuníamos quase todas as noites ali, sob a velha Gameleira, tomando cervejas, uma que outra cachacinha e saboreando o pato que a mãe da Nely nos preparava, a gente pedindo ou não.

Embora lhe chamassem Paraná, tenho convicção de que ele era mineiro ou goiano. Creio que não tinha mais de 40 anos, mas as adversidades da floresta, as agruras da lide garimpeira, os sofrimentos da vida nômade, talvez a ausência dos afetos, enfim, talvez tudo isso colocou sulcos precoces, em sua face clara, que lhe davam uma enganosa maturidade. Era do tipo bonachão, calmo, bem humorado e gostava de uma boemia como ninguém. Fazia enorme sucesso com as mulheres e, dizia-se, tivera uma fieira delas. Enfim, era um boa-praça, prestativo, desapegado, um tipo raro que deixou muitas saudades. Até hoje não me conformo com seu ato tão extremo, tão violento.

Como dizia, foi uma noitada como tantas outras. No outro dia bem cedo, viajei e só fui saber da tragédia, por telefone, dois dias depois. Confesso que me abalei, como poucas vezes me aconteceu depois. Fiquei recordando nossa última farra, a ver se entrevia algum sinal, alguma pista, uma espécie de remorso por não ter feito algo. Mas nada... A não ser... Bom, naquela noite, lá pelas tantas, ele me disse que queria ouvir uma música, mas não se lembrava do nome, nem da melodia. Estava martelando sua cabeça... Daí ele pegou um guardanapo e rabiscou dois versos:

“... Fracasso, por compreender que devo te esquecer, fracasso só por saber que não te esquecerei...”

Quando me mostrou e eu disse que conhecia, ele chamou Nely e ordenou, como um fã agradecido:

- Nely, traga a mais gelada que tiver lá dentro e duas doses de cana, porque essa merece uma!

Resultado: tive de repetir umas tantas vezes, até que ele se satisfez:

- Bom Baiano, você vale ouro!

Enquanto prossegui com outras músicas, notei que ele ficou com o olhar no vazio por alguns minutos. Parece que aquela música o fizera voltar no tempo. E foi só. Daí em diante, tudo transcorreu como dantes, até que nos despedimos, mais ou menos meia noite. Jamais imaginei que aquele abraço apertado seria o último. Já no carro, me perguntou quando eu voltaria e, ao ouvir a resposta, acelerou sua picape e sumiu para sempre, na noite amazônica.

Segundo Zoraide, ele entrou no barraco, mexeu numa maleta de documentos que ficava trancada no guarda-roupas e se demorou mais do que o normal na cozinha. Talvez tivesse chegado com fome, ela pensou, sem nem desconfiar que, na verdade, ele estava tentando rabiscar toscas explicações inexplicáveis. Quando a porta rangeu, à sua saída, ela nem ligou, pois já estava acostumada com seus fins de noite na casa da Ana Branca, como era conhecido o cabaré do garimpo. Só estranhou quando ele voltou e ficou em pé, na porta do quarto, por cerca de um minuto, olhando para ela, que fingia dormir. Sob o lençol, no lusco-fusco da madrugada, ela o viu suspirar e sair rapidamente, com passos decididos.

A casa do Amaro ficava lá no fim do garimpo, um barraco antigo, dos poucos com paredes de alvenaria no local. Ao fundo, seus donos primitivos cultivaram um extenso pomar de mangueiras, jaqueiras, laranjas, pinha e até uns coqueiros que não se desenvolveram, mas ali estavam resistindo ao tempo. Naquela noite, em torno de duas horas da manhã, as corujas que tinham ninho no coqueiro viram um vulto abrir o colchete da cerca do quintal. Espantadas, elas fizeram estardalhaço e deram vôos rasantes, no afã de afastar o intruso da ninhada de corujinhas recém-nascidas. Mas, nem mesmo seu pio agourento fez o vulto retroceder.

Do alto das estacas da cerca, elas viram o vulto andar meio cambaleante até o tronco da mangueira mais baixa. Viram, curiosas, o vulto sentar-se no chão e ficar manuseando uma corda que trouxera pendurada nos ombros. A operação demorou bastante. O vulto, evidentemente, não tinha pressa. De vez em quando ele levava à boca uma garrafa. Depois retomava o ofício de preparar a corda, quase em câmara lenta.

Depois, as corujas viram o vulto se levantar, dirigir-se até a cerca, contemplar o céu estrelado por um minuto e dar um suspiro. E acharam graça, quando aquele corpanzil pesado subiu na mangueira, pelos galhos baixos e se acomodou à meia altura, para desassossego das rolinhas que ali tinham seus ninhos. No meio da folhagem espessa, elas nem o viram prender uma ponta da corda no galho mais robusto e passar a outra ponta, em forma de laçada, em torno do pescoço. Mas ouviram, perfeitamente, o ruído de uma garrafa vazia lançada ao chão. E, logo em seguida, um barulho terrível... Algo enorme se desprendeu dos galhos e caiu da folhagem, numa confusão medonha de galhos se partindo e muitos sacolejos, terminando num baque que abalou toda a copa da mangueira e fez as rolinhas apavoradas deixarem seus ninhos. Tudo não durou mais que um minuto. Aos poucos o silêncio retornou, a noite seguiu seu curso e todos voltaram a dormir em paz.

Quando acordou no sábado e viu que o Paraná não voltara, Zoraide me disse que seu primeiro sentimento fora de raiva e ciúmes. Pensara mesmo que estava na hora de voltar pra sua cidade, pois o Paraná, que lhe prometera vida de rainha, só lhe dera abandono, trabalho e decepções. E foi assim, muito triste, que viu aqueles papéis amassados pelo chão da cozinha. E, sobre a mesa tosca, duas folhas abertas, com uma caneta sobre elas. Numa se lia, com letra trêmula: “Ninguém tem culpa”. Na outra: “Estou no quintal da casa do Amaro”. Embora, à primeira vista, não entendesse ao certo o que aquilo significava, um arrepio lhe percorreu o corpo. Algo, lá em seu íntimo lhe prenunciara a tragédia. Pegou os bilhetes no chão e ali se via como fora difícil ao seu homem escrever aquelas poucas palavras. Quanto desespero! Um temor imenso lhe invadiu, como se fora uma saudade antiga despertada. Sem nem preparar o café saiu como uma louca pra casa do Amaro. À medida que caminhava, uma certeza começou a lhe tomar e ela acelerava o passo. Agora já corria e não tinha mais dúvidas. Quando finalmente, abriu o colchete da cerca do quintal do Amaro, já estava preparada para a cena que a esperava. Foi com a mais doída calma que ela sozinha cortou a corda e estendeu seu desfigurado amor no chão, soluçando a pergunta que nunca encontrou resposta:

- Por que? Por que? Porque, meu nego?

No alto do coqueiro, duas corujas tristes amortalhavam a manhã de sábado com seus pios chorosos.

O Amaro já tinha sumido desde a noite anterior. O envelope que o Paraná recebera de manhã e que talvez pudesse esclarecer alguma coisa, esse envelope nunca foi achado. A única coisa que se soube é que, quando os dois saíram de casa, antes do almoço, foram ao posto telefônico do garimpo e ali o Paraná deu um telefonema de uns 20 minutos ao posto telefônico de outra cidade, onde alguém o esperava. Segundo a telefonista, ele saiu choroso da cabine. Mas isso não ajudou muito, porque a pessoa não foi localizada, de modo que meu amigo Paraná enforcou junto com ele seu segredo... Certamente um segredo terrível... E deixou-nos assim perplexos e saudosos.

Dois anos após esses fatos, retornei ao garimpo do Saci, em novas atividades. Nely tinha vendido o bar e se fora pra capital. Zoraide se mudara, logo após a morte do companheiro, com o que havia de ouro apurado sob o colchão e os trabalhadores assumiram a cava da Irenã e depois a venderam. Agora estava paralisada. Apenas o quintal sinistro da ex-casa do Amaro ainda permanecia intacto. Amaro?! Ninguém soube dar informações. Com grande dificuldade localizei o túmulo do meu amigo num arremedo de cemitério e fiquei sabendo que nenhum parente apareceu ou fez contato para reclamar o corpo. Dois anos somente e o Paraná já era apenas uma lembrança.

Pois é... Nessa minha vida de geólogo e seresteiro, de vez em quando alguém me pede pra cantar “Fracasso”. Então, essa tragédia me vem à lembrança e eu às vezes brinco: - Por acaso, você não está pensando em se suicidar, está?

Certo mesmo está o mestre Paulinho da Viola, que sabe das coisas:

“... E a vida continua... Esse é um dito que todo mundo proclama,

O consolo dos aflitos e a desilusão de quem ama...”

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* Nomes fictícios

terça-feira, abril 07, 2009

Conto mal acabado

Não!

Não me venhas com essa conversa mole,

De clichês e frases feitas de bordões!

Não quero que me consoles.

Não!

Não me venha com teu abraço frio!

Esse abraço que não aperta... Mas aparta.

Que não creio em afetos que não crio.

Não!

Não me olhes com esse olhar que não me vê!

Libero-te do gesto constrangido...

Não estamos em programa de TV.

Não!

Poupemo-nos dos risos maquinais, por hábito.

Pra bem longe com teus dentes de alcatrão,

Que tua boca exala cinismo e mau hálito!

Vai!

E quando passares por aquela porta,

Esquece que existi, despe o passado!

E vive em paz a tua vida torta.

Vai!

Apaga a luz, deixa o portão fechado,

Já te risquei do livro, és letra morta,

Um conto que escrevi, mal acabado.

Bsb, mar/2009