sábado, julho 18, 2009

Nada foi em vão

Mas, nada foi em vão!
Pelo contrário,
Tudo foi preciso e bom
E necessário.
E, afinal, ficou o aprendizado.
A alma humana é tão pequena
Quão complexa,
E a dor que nos embota o entendimento
E humilha a razão e a faz perplexa
É, de fato, o grande ensinamento.
E os acessos de paixão,
Com suas chamas e brilhos de salão,
São raios que enceguessem a alma.
E a alma cega é como um vôo sem plano,
A descampar imensidões... Desertos...
É grito débil de pulmões vazios,
Sob o pulsar de um coração insano...
Canoa frágil, contra o mar bravio.

Não, repito, nada foi em vão!
Nem mesmo a dor,
Nem mesmo a traição covarde,
Pois, se afinal, o peito ainda arde,
Tenho a visão mais clara
E os olhos secos,
E a voz mais firme,
E o andar mais calmo...
E serenada a alma,
Agora sou mais forte
E as canções, mais doces
E os versos, mais sutis
E os dias, mais azuis.

Não, amigo, nada foi em vão!
Tudo foi apenas como havia de ser.
Se doeu? Não vou negar, doeu.
Mas já passou, já perdoei
E agora sou mais livre,
Agora sou mais eu.
Por isso não se engane:
Seja na aurora, ou no ocaso,
Na subida, ou no declive,
Sejas tu granfa, ou povão,
Tudo o que a gente vive,
Nada! Nada é por acaso,
Nada acontece em vão!


Rio, 18/07/2009

quinta-feira, maio 28, 2009

Geólogo beleza


Quem é esse louco que fita a barranca
E depois de contemplá-la em êxtase
Cai-lhe em cima, em fúria bruta
E a esburaca e a atormenta e a espanca?

Que faz aquele bando, no corte da estrada,
Em discussões febris, ao pé do mestre?
Por que o ataque rude, a marteladas,
A espantar o motorista e o pedestre?

Quem é aquele doido, que alisa a pedra,
Que lhe examina com lupa, os detalhes,
Que a tudo registra, com sutil presteza,
E, com afiada lâmina, lhe assesta um talhe?

Que faz aquele tonto, de aparelho em punho,
A medir, quem sabe lá, que estruturas
De planos surreais, imaginários?
Decifrando, da terra, suas santas escrituras??

E aquele outro ali que, insatisfeito,
Ainda cheira a pedra e a leva à boca!?
Que o recolham às grades, sob algemas,
Antes que saia por aí, de meia e touca!

Mas... Eis ali um jovem, na planície,
A contemplar a serra, inebriado e mudo,
Tecendo mil teorias, explicando tudo
Sobre a ascensão do magma à superfície.
A princípio, julguei ser um astrólogo,
Mas, agora, bem de perto... É um geólogo!
E o sei pelo martelo e a imundície.

Bípede falante, corpo ereto,
Dos gêneros humanos, o mais louco,
De tudo, tudo mesmo, ele é um pouco:
Meio médico, biólogo, arquiteto,
Meio poeta, meio vilão, meio artista.
Escrivão da Natureza e jornalista,
No chão imundo do mundo sem teto,
Bisbilhotando os fósseis escondidos,
Seus ventres estuprados, seus partos perdidos,

Rebentos da Terra... Seu filhos, seu fetos.

Bsb, 29/05/2009 - Homenagem bem humorada ao profissional geólogo, pelo seu dia, 30/05.

terça-feira, abril 21, 2009

Estou no quintal da casa do Amaro

Segundo Zoraide*, sua companheira, naquela sexta-feira fatídica do suicídio, ele não fez nada diferente. Pelo menos, nada que indicasse a tragédia que estava por vir. Mal o sol despontou, saltou da cama com seu corpanzil de 1,90m, tomou um copo d’água e se mandou para a cava da Irenã. Era assim que chamavam aquela escavação imensa, onde cerca de meia dúzia de homens trabalhavam 24 horas por dia, perseguindo um fugidio veio aurífero, no Garimpo do Saci. Ali, como fazia há dois anos, ouviu o relato da produção noturna, recebeu o saquinho com os gramas de ouro apurado, tomou café com os trabalhadores e orientou as próximas detonações, com seu faro de velho lobo dos garimpos amazônicos.

Por volta de dez horas, sob um sol de brasa viva, voltou ao barraco, com um envelope na mão, acompanhado por Amaro*, um mulato esquisitão, que morava sozinho, ali perto. Não era de muitos amigos, calado e arredio. Os maledicentes diziam que era fugido do Garimpo do Taioba, onde matara dois desafetos, por questões menores, coisas de ciúmes.

Uma das poucas pessoas que freqüentava seu barraco era exatamente o Paraná, o garimpeiro que vai se suicidar nessa sexta-feira. Zoraide nunca soube o porquê daquela aproximação. Ficavam semanas e até meses sem se falarem, mas, de repente, num belo dia, Amaro dava sinal de vida e os dois sumiam, barraco adentro, às vezes por uma tarde inteira. Ele nunca lhe disse o que tanto conversavam. Ela achava que eram questões de negócios e pronto.

Depois do acontecido, Amaro desapareceu e Zoraide começou a ligar alguns fatos... Hoje, ela tem certeza de que os dois se conheciam de muito tempo e que o Amaro era um elo entre o Paraná e algum fato tenebroso de seu passado, que ela nunca vai saber. Depois desses encontros, ela agora se dá conta, ele ficava misterioso, silencioso, pensativo. Certa vez, notou seus olhos vermelhos, mas ele negou que tivesse chorado. Tomou mais uma pinga e encerrou o assunto.

Voltando ao fatídico dia, devo dizer que nosso encontro no bar da Nely*, por volta das 20h00, também ocorreu como todas as outras vezes, na maior normalidade. Ele era fanático por músicas de seresta e enquanto eu estivesse na cidade, nos reuníamos quase todas as noites ali, sob a velha Gameleira, tomando cervejas, uma que outra cachacinha e saboreando o pato que a mãe da Nely nos preparava, a gente pedindo ou não.

Embora lhe chamassem Paraná, tenho convicção de que ele era mineiro ou goiano. Creio que não tinha mais de 40 anos, mas as adversidades da floresta, as agruras da lide garimpeira, os sofrimentos da vida nômade, talvez a ausência dos afetos, enfim, talvez tudo isso colocou sulcos precoces, em sua face clara, que lhe davam uma enganosa maturidade. Era do tipo bonachão, calmo, bem humorado e gostava de uma boemia como ninguém. Fazia enorme sucesso com as mulheres e, dizia-se, tivera uma fieira delas. Enfim, era um boa-praça, prestativo, desapegado, um tipo raro que deixou muitas saudades. Até hoje não me conformo com seu ato tão extremo, tão violento.

Como dizia, foi uma noitada como tantas outras. No outro dia bem cedo, viajei e só fui saber da tragédia, por telefone, dois dias depois. Confesso que me abalei, como poucas vezes me aconteceu depois. Fiquei recordando nossa última farra, a ver se entrevia algum sinal, alguma pista, uma espécie de remorso por não ter feito algo. Mas nada... A não ser... Bom, naquela noite, lá pelas tantas, ele me disse que queria ouvir uma música, mas não se lembrava do nome, nem da melodia. Estava martelando sua cabeça... Daí ele pegou um guardanapo e rabiscou dois versos:

“... Fracasso, por compreender que devo te esquecer, fracasso só por saber que não te esquecerei...”

Quando me mostrou e eu disse que conhecia, ele chamou Nely e ordenou, como um fã agradecido:

- Nely, traga a mais gelada que tiver lá dentro e duas doses de cana, porque essa merece uma!

Resultado: tive de repetir umas tantas vezes, até que ele se satisfez:

- Bom Baiano, você vale ouro!

Enquanto prossegui com outras músicas, notei que ele ficou com o olhar no vazio por alguns minutos. Parece que aquela música o fizera voltar no tempo. E foi só. Daí em diante, tudo transcorreu como dantes, até que nos despedimos, mais ou menos meia noite. Jamais imaginei que aquele abraço apertado seria o último. Já no carro, me perguntou quando eu voltaria e, ao ouvir a resposta, acelerou sua picape e sumiu para sempre, na noite amazônica.

Segundo Zoraide, ele entrou no barraco, mexeu numa maleta de documentos que ficava trancada no guarda-roupas e se demorou mais do que o normal na cozinha. Talvez tivesse chegado com fome, ela pensou, sem nem desconfiar que, na verdade, ele estava tentando rabiscar toscas explicações inexplicáveis. Quando a porta rangeu, à sua saída, ela nem ligou, pois já estava acostumada com seus fins de noite na casa da Ana Branca, como era conhecido o cabaré do garimpo. Só estranhou quando ele voltou e ficou em pé, na porta do quarto, por cerca de um minuto, olhando para ela, que fingia dormir. Sob o lençol, no lusco-fusco da madrugada, ela o viu suspirar e sair rapidamente, com passos decididos.

A casa do Amaro ficava lá no fim do garimpo, um barraco antigo, dos poucos com paredes de alvenaria no local. Ao fundo, seus donos primitivos cultivaram um extenso pomar de mangueiras, jaqueiras, laranjas, pinha e até uns coqueiros que não se desenvolveram, mas ali estavam resistindo ao tempo. Naquela noite, em torno de duas horas da manhã, as corujas que tinham ninho no coqueiro viram um vulto abrir o colchete da cerca do quintal. Espantadas, elas fizeram estardalhaço e deram vôos rasantes, no afã de afastar o intruso da ninhada de corujinhas recém-nascidas. Mas, nem mesmo seu pio agourento fez o vulto retroceder.

Do alto das estacas da cerca, elas viram o vulto andar meio cambaleante até o tronco da mangueira mais baixa. Viram, curiosas, o vulto sentar-se no chão e ficar manuseando uma corda que trouxera pendurada nos ombros. A operação demorou bastante. O vulto, evidentemente, não tinha pressa. De vez em quando ele levava à boca uma garrafa. Depois retomava o ofício de preparar a corda, quase em câmara lenta.

Depois, as corujas viram o vulto se levantar, dirigir-se até a cerca, contemplar o céu estrelado por um minuto e dar um suspiro. E acharam graça, quando aquele corpanzil pesado subiu na mangueira, pelos galhos baixos e se acomodou à meia altura, para desassossego das rolinhas que ali tinham seus ninhos. No meio da folhagem espessa, elas nem o viram prender uma ponta da corda no galho mais robusto e passar a outra ponta, em forma de laçada, em torno do pescoço. Mas ouviram, perfeitamente, o ruído de uma garrafa vazia lançada ao chão. E, logo em seguida, um barulho terrível... Algo enorme se desprendeu dos galhos e caiu da folhagem, numa confusão medonha de galhos se partindo e muitos sacolejos, terminando num baque que abalou toda a copa da mangueira e fez as rolinhas apavoradas deixarem seus ninhos. Tudo não durou mais que um minuto. Aos poucos o silêncio retornou, a noite seguiu seu curso e todos voltaram a dormir em paz.

Quando acordou no sábado e viu que o Paraná não voltara, Zoraide me disse que seu primeiro sentimento fora de raiva e ciúmes. Pensara mesmo que estava na hora de voltar pra sua cidade, pois o Paraná, que lhe prometera vida de rainha, só lhe dera abandono, trabalho e decepções. E foi assim, muito triste, que viu aqueles papéis amassados pelo chão da cozinha. E, sobre a mesa tosca, duas folhas abertas, com uma caneta sobre elas. Numa se lia, com letra trêmula: “Ninguém tem culpa”. Na outra: “Estou no quintal da casa do Amaro”. Embora, à primeira vista, não entendesse ao certo o que aquilo significava, um arrepio lhe percorreu o corpo. Algo, lá em seu íntimo lhe prenunciara a tragédia. Pegou os bilhetes no chão e ali se via como fora difícil ao seu homem escrever aquelas poucas palavras. Quanto desespero! Um temor imenso lhe invadiu, como se fora uma saudade antiga despertada. Sem nem preparar o café saiu como uma louca pra casa do Amaro. À medida que caminhava, uma certeza começou a lhe tomar e ela acelerava o passo. Agora já corria e não tinha mais dúvidas. Quando finalmente, abriu o colchete da cerca do quintal do Amaro, já estava preparada para a cena que a esperava. Foi com a mais doída calma que ela sozinha cortou a corda e estendeu seu desfigurado amor no chão, soluçando a pergunta que nunca encontrou resposta:

- Por que? Por que? Porque, meu nego?

No alto do coqueiro, duas corujas tristes amortalhavam a manhã de sábado com seus pios chorosos.

O Amaro já tinha sumido desde a noite anterior. O envelope que o Paraná recebera de manhã e que talvez pudesse esclarecer alguma coisa, esse envelope nunca foi achado. A única coisa que se soube é que, quando os dois saíram de casa, antes do almoço, foram ao posto telefônico do garimpo e ali o Paraná deu um telefonema de uns 20 minutos ao posto telefônico de outra cidade, onde alguém o esperava. Segundo a telefonista, ele saiu choroso da cabine. Mas isso não ajudou muito, porque a pessoa não foi localizada, de modo que meu amigo Paraná enforcou junto com ele seu segredo... Certamente um segredo terrível... E deixou-nos assim perplexos e saudosos.

Dois anos após esses fatos, retornei ao garimpo do Saci, em novas atividades. Nely tinha vendido o bar e se fora pra capital. Zoraide se mudara, logo após a morte do companheiro, com o que havia de ouro apurado sob o colchão e os trabalhadores assumiram a cava da Irenã e depois a venderam. Agora estava paralisada. Apenas o quintal sinistro da ex-casa do Amaro ainda permanecia intacto. Amaro?! Ninguém soube dar informações. Com grande dificuldade localizei o túmulo do meu amigo num arremedo de cemitério e fiquei sabendo que nenhum parente apareceu ou fez contato para reclamar o corpo. Dois anos somente e o Paraná já era apenas uma lembrança.

Pois é... Nessa minha vida de geólogo e seresteiro, de vez em quando alguém me pede pra cantar “Fracasso”. Então, essa tragédia me vem à lembrança e eu às vezes brinco: - Por acaso, você não está pensando em se suicidar, está?

Certo mesmo está o mestre Paulinho da Viola, que sabe das coisas:

“... E a vida continua... Esse é um dito que todo mundo proclama,

O consolo dos aflitos e a desilusão de quem ama...”

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* Nomes fictícios

terça-feira, abril 07, 2009

Conto mal acabado

Não!

Não me venhas com essa conversa mole,

De clichês e frases feitas de bordões!

Não quero que me consoles.

Não!

Não me venha com teu abraço frio!

Esse abraço que não aperta... Mas aparta.

Que não creio em afetos que não crio.

Não!

Não me olhes com esse olhar que não me vê!

Libero-te do gesto constrangido...

Não estamos em programa de TV.

Não!

Poupemo-nos dos risos maquinais, por hábito.

Pra bem longe com teus dentes de alcatrão,

Que tua boca exala cinismo e mau hálito!

Vai!

E quando passares por aquela porta,

Esquece que existi, despe o passado!

E vive em paz a tua vida torta.

Vai!

Apaga a luz, deixa o portão fechado,

Já te risquei do livro, és letra morta,

Um conto que escrevi, mal acabado.

Bsb, mar/2009

domingo, março 22, 2009

Milagre da pororoca

É senso da tradição popular que milagre é obra apenas de santo. Sem pretender criar polêmica em torno dessa assertiva secular - há quem torça o nariz para essas coisas de milagres – quero apenas dar meu modesto testemunho de que, no causo de que aqui se trata, a tradição revela a mais pura e sacrossanta verdade.
Prepare-se, amigo ou amiga, para tomar conhecimento de curioso e secretíssimo milagre, operado por um Santo... Mas daqui mesmo, dessa terra velha de guerra. Dado e passado no ano de 1980, lá pelas bandas do rio Oiapoque, nos confins da Mãe Gentil, numa tarde morna de verão, sob as vistas incrédulas de duas testemunhas que juraram levar o segredo consigo para o túmulo.
O fato é que o fato, em seus mínimos e fiéis detalhes, a mim chegou e eu os guardei, por mais de duas décadas, sob força de inquebrantável compromisso moral. Mas é chegada a hora de levantar o véu do tempo e deixar vir ao palco a Verdade... Inteira... Nua... E espantosa.
Que a minha fonte descanse em paz, à sombra do salgueiro eterno, em algum bosque tranqüilo do sétimo céu, onde agora reside! E que me perdoe a incontinência escrita! Mas pesou-me demasiado ser o último portador desse mistério. Que unicamente a força da Verdade guie minhas mãos trêmulas! E que me sequem as veias e enrijeçam os dedos, se uma única vírgula do aqui registro, expressar a mais mínima mentira! Por testemunhas insuspeitas, invoco as sumaúmas silentes, os inquietos pirarucus e as hordas de carapanãs, senhoras insaciáveis das vaporosas tardes amazônicas.
Desde o nascimento, carregou o estigma de ser Santo*. Santo de nome. Na escola, nas brincadeiras de rua, no ginásio, na faculdade... O trocadilho infame com as referências da igreja católica o haveria de perseguir pela vida a fora. Apesar disso, forçoso é dizer que o Santo nunca foi um santo. Entendam-me! Não que ele tenha sido um demônio. Longe disso! Mas, também, um pecadinho aqui, outro ali, coisinha assim, de mineirinho come-quieto, isso ele sempre espalhou, por esse Brasil de meu Deus, onde exerceu o mister de geólogo desbravador de nossos mais recônditos segredos minerais.
Até que um dia aportou no Oiapoque, em campanha de amostragem geoquímica. Antes de empreender viagem, nosso protagonista, espírito pesquisador nato, buscou se inteirar sobre a região. E foi aí que tomou ciência do fenômeno da pororoca, algo que remontava, vagamente, às longínquas aulas de geografia primária. Afora a lírica lembrança da professora Dalila (que pernas!), o fenômeno não lhe despertou mais que displicente curiosidade.
Mas, além de Santo, nosso personagem, por precoce fatalidade, sofria de esquisita tremedeira nas mãos, incômodo que se acentuava dramaticamente, ante situações de estresse emocional. Tipo assim ser chamado à sala do chefe. Ou enfrentar turbulência, em viagens aéreas, seu maior suplício. Nessas circunstâncias, o mal se agravava e ele, constrangido, fazia coisas precipitadas, no afã de fugir ao vexame da tremedeira pública.
Sem mais delongas, entretanto, voltemos ao causo! Mas não julque, amigo ou amiga, que me alonguei desnecessariamente. Todo esse intróito é absolutamente importante para a cabal compreensão dos fatos que se passaram naquele bucólico fim de tarde. A estatura psicológica do nosso Santo, digamos assim, é que vai determinar o desfecho inesperado desse causo, sem nenhuma sombra de dúvida, um dos mais autênticos milagres já ocorridos nessa Terra voraz, desde que por aqui passou o Filho do Homem.
E note, amigo ou amiga, que o Filho, além do Homem, contava com doze fervorosos apóstolos aqui embaixo, para qualquer eventualidade. Quanto ao nosso Santo – coitado! - contava apenas com o nervosismo de um técnico descrente, cheio de pecados, e a quase-indiferença de um barqueiro bocó que, no afã de manter o barco a salvo, nem se apercebeu direito do que se passou bem diante de seu nariz.
Apois bem! Corria a tarde modorrenta e úmida. Perdido na vastidão do Oiapoque, singrava sereno, o barquinho de alumínio, no rumo da margem esquerda, para a coleta da última amostra do dia. Tudo era tepidez tropical e calma e mormaço, sob o enlevo sonolento do valente motor de popa.
De repente, assim... Muito sorrateiramente, um vago barulho começa a se ouvir. Distante. Grave. A princípio, ninguém liga. O barqueiro parece alheio ao mundo, em sua luta com as vagas. Mas, eis que o zumbido torna-se ronco... Algo assim, como o urro de uma fera. A superfície tranqüila entra em crispações rebeldes, marolas persistentes, pequenas ondas... Como que despertando da tediosa modorra, o barqueiro nota cardumes compactos a subir o rio... Estouro de boiada subaquática. Bandos barulhentos de aves em alvoroço pareciam exércitos em retirada: desordenados, excitados. O ar adensa-se. A tensão se instala.
Ninguém diz palavra. Os olhos buscam respostas, mas são os ouvidos que vão registrando, segundo a segundo, o aumento do barulho, como o troar terrível de tambores de guerra, assombrando a floresta. Trovão ricocheteando nas serranias. Sei lá!
Dentro do Santo, algo lhe dizia do perigo iminente, mas quando as ondas começaram a empinar o barco, tentando empurrá-lo de volta, nesse momento seus instintos aguçados liberaram toda a tremedeira represada, como se fosse o acionamento de escudo automático. Agora, já se ouviam barulho de árvores caindo. Num sonho surreal, o Santo reviu, enquanto avaliava o ambiente, a professora Dalila de pernas cruzadas, atazanando os alunos, nas aulas de geografia... O que mesmo ela disse sobre a pororoca? As lembranças eram muito imprecisas, menos as pernas roliças da professora.
Então se ouviu um estouro medonho, rio abaixo. Funcionou como um despertador. Pois, num piscar de olhos, todos gritaram, ao mesmo tempo:
- A pororoca!!!!
Bastou. A tremedeira do Santo passou a abalo sísmico. Dominado por um nervosismo indescritível, ele já se via tragado pela maré lamacenta que daqui a pouco engoliria tudo o que encontrasse pela frente.
Ninguém sabia o que fazer direito. O Santo entrou em cataclismo. O técnico descrente rezava baixinho, jurando converter-se, se escapasse daquela. O barqueiro tentava desesperadamente atingir a margem, que estava a não mais de 20 metros, mas a força das ondas era bem maior que a potência do pequeno motor. Com rara perícia, ditada pelo instinto de sobrevivência, ele postou o barco em posição enviesada, usando a energia das ondas a seu favor, o que lhe permitiu redirecionar o veículo no rumo da margem, embora de forma bem esquisita e para longe do alvo geoquímico. A margem estava ali diante dos olhos, mas a pororoca já lambia o barco. Era questão de segundos. Em manobra arriscadíssima, o barqueiro conseguiu “surfar” numa onda, esperando ser lançado contra a margem. Agora, era tudo ou nada, pois a onda principal já apontara na curva, num cenário de filme de terror. O barco já perdera a estabilidade e o naufrágio viria em seguida. E a terra firme, agora, estava a menos de dez metros.
Pois bem, meu amigo e minha amiga, foi aí, exatamente nesse momento, que o milagre se fez. Desafiando todas as normas de segurança e pegando todos de surpresa, o Santo levantou-se, postou-se na borda do barco, inspirou todo o ar que havia naquele momento nos céus do Oiapoque e... Saiu em disparada. Isso mesmo! O Santo, talvez impulsionado pelo vai-e-vem descontrolado das pernas, desembestou-se por SOBRE a superfície encrespada das águas, sem afundar um só milímetro, inclusive desviando-se do emaranhado de cipós, com inusitada maestria. Pousou em terra firme bem antes dos companheiros e ainda os ajudou no desembarque apressado, a tempo exato de se livrarem da onda assassina. Não sei se o leitor ou leitora se deu conta do que se passou: nosso Santo andou por SOBRE as águas, como São Pedro, como Jesus, como os santos da tradição. "O homem parecia de isopor!", foi a observação final feita por minha fonte, ao me contar esse causo.
Foi somente quando a adrenalina baixou e o vermelho dos lábios se refez, que os olhos das duas incrédulas testemunhas cravaram no Santo a pergunta que as bocas se recusaram a fazer:
- Como você conseguiu isso?
Mas ninguém ousou perturbar o silêncio pós-pororoca. Na verdade, havia mesmo certo medo, como se as palavras pudessem subtrair o encanto daquele milagre. A figura do colega, agora , emanava uma auréola respeitosa, que infundia silenciosa reverência, apenas isso.
E então, mais uma vez surpreendendo, foi ele mesmo que quebrou o silêncio, ao convocar os colegas, como se nada tivesse acontecido:
- Vamos lá minha gente, que ainda falta uma amostra!
E mais não disse e mais nada se lhe perguntou. E os anos voaram tão rápido como aquela pororoca. E as duas únicas testemunhas oculares deixaram de contar o ocorrido, por não suportarem as chacotas e a falta de crença das pessoas. E o milagre foi se desvanecendo sob o véu do tempo.
De minha parte, quando dele tomei conhecimento, não duvidei. Pelo contrário. Dele tenho a mais cristalina certeza e aposto que as coisas aconteceram exatamente assim. E inda digo mais, esses milagres não eram raros na vida do Santo.
Certa vez, a pequena aeronave em que viajava entrou numa turbulência amazônica, daquelas em que a gente acha que chegou o fim. As rajadas de vento faziam o avião subir e descer, como se fosse de papel. Então, um amigo viu com aqueles olhos que a terra há de comer. Ele jura que viu o Santo flutuar, 20 centímetros acima da poltrona, em transe, paradinho da silva, enquanto todos pareciam surfistas sem prancha. E meu amigo me disse que ficou tão espantado, que nem ousou lhe fazer pergunta alguma. Até porque, quando se restaurou a tranquilidade, ele só se preocupou mesmo foi em tomar uma dose de uísque.
Pois é...
Hoje, aqui no bem-bom de um quarto de hotel, lembrei-me dessas coisas passadas há mais de 20 anos! Inda bem que as registrei a tempo de salvá-las do esquecimento total. E constato, então que outro verdadeiro milagre se fez, pois meus neurônios não me traíram, permitindo que eu não perdesse o fio dos acontecimentos, reproduzindo-os, tintim por tintim. Como dizia o velho Bobôco, dá-se o causo e depois acontece.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Ao anjo da tribo

Disseste que não sabes mais quem sou...

Nem eu, minha querida, tudo bem.

Compreendo esse conflito que te estressa;

Mas, revendo o filme antigo que passou,

Não sou nada meu amor... Sou só alguém

Que hoje abre o coração e te confessa:

 

Sou o que sou:

 - o que vi,

 - o que fiz,

 - o que sei.

 

Sou o que vivi:

 - o que li,

 - o que escrevi,

 - o que calei.

 

Sou a dor das despedidas:

 - as saudades,

 - as ausências,

 - as mãos partidas.

 

Sou os risos das chegadas:

 - os abraços,

 - os olhares,

 - as mãos crispadas.

 

Sou as feridas dos meus amores:

 - os cortes,

 - minhas culpas,

 - suas dores.

 

Sou os prantos que ajudei secar:

 - o ombro amigo,

 - o silêncio,

 - um teto, um lar.

 

Sou as estradas que andei, inglórias:

 - as pessoas,

 - as paisagens,

 - as histórias.

 

Sou as cantigas que cantei na rua:

 - os poemas,

 - as serestas,

 - as noites frias, sem lua.

 

Sou os desenganos dos atalhos:

 - vãs paixões,

 - amores breves,

 - inúteis retalhos.

 

Sou uma história, enfim, movimentada:

 - ora reta,

 - ora em círculo,

 - nunca parada.

 

E, assim, cheguei ao que sou:

 - nem tudo foi bom,

 - nem tudo foi mau,

 - mas tudo me ensinou.

 

Mas, é preciso que agora saibam, todos,

Que eu sempre tive o amor de um anjo,

E esse anjo decretou-me a sensatez,

E eu sou, na verdade, o que esse amor me fez.

Qual produto de celeste arranjo,

De flores e adornos desse amor-criança,

E sob a força motriz do seu perdão,

Hoje já não sou... Agora somos:

 - olhos na mesma estrada,

 - bocas na mesma oração,

 - mãos na mesma esperança.

Jan/2009

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Rio arde e Brasília cai

Eu poderia chamar esse causo de "causo de um acidente anunciado", pegando carona no célebre conto de Garcia Marques (crônica de uma morte anunciada). Sim, porque desde que o Departamento de Estradas e Rodagens do Estado do Pará - DERPA, colocou a placa "DESVIO A 100 METROS", mas não derrubou a velha ponte de madeira sobre o igarapé Jarinã, era previsível que um dia alguém iria se dar mal. E se deu.
A idéia era substituir a ponte precária por uma estrutura moderna de cimento. Muito louvável, até porque o movimento local já justificava plenamente a iniciativa. Além da febre garimperia e mineral que tomava conta da região, havia intensa atividade agropastoril ali se instalando. Praticamente, todos os grandes grupos econômicos do país tinham adquirido latifúndios no sul do Pará e em meio ao ambiente de tensão agrária, o progresso ia modificando a paisagem natural, criando suntuosas sedes de fazendas, abrindo estradas, trazendo aviões, derrubando a floresta e atraindo levas e levas de aventureiros. Estou tergiversando, mas apenas para dizer que o movimento de carros na poeirenta rodovia Marabá - Conceição do Araguaia era tal, que impôs ao DERPA a urgência de mantê-la minimamente transitável, encascalhando os trechos mais baixos, alargando sua bitola e construindo pontes que não se desmanchassem no próximo inverno.
Nos primeiros dias da placa de desvio, todo mundo obedecia sua indicação, deixando a estrada à direita e embicando o carro na direção do leito seco do igarapé. Ocorre que a burocracia estatal emperrou a liberação dos recursos financeiros e a empresa não pôde iniciar a obra conforme previsto. Apesar do desvio, a velha ponte permaneceu lá, inteirinha da silva. E assim, os dias foram se passando e como a travessia do leito arenoso não era, assim, uma operação muito convidativa, os motoristas retomaram a passagem pela ponte, abandonando o desvio. Menos esse que vos escreve, claro. Velho instinto de preservação me dizia para não desdenhar do aviso. Não desdenhei. Rigorosamente, dia após dia, enfiava a cara da valente F-100 no areial e, lá de baixo, contemplava as táubas tortas de madeira, mal aprumadas e irregulares, a cerca de três metros de altura, rangendo ao passar dos carros. 
Corria o ano de 1976 e, juntamente com uma colega argentina, a Mag, fazíamos follow-up de campo em alvarás da empresa canadense que nos empregava. Havia mais de um mês que atuávamos na região, adotando a cidade de Marabá como sede, deslocando-nos todos os dias para as áreas, fazendo reconhecimento geológico e amostragem geoquímica.
Naquele dia, ao tomar o desvio, vi o pessoal da empreiteira se preparando para atear fogo à ponte. Na verdade, montaram algumas fogueiras sobre e sob o madeirame e já se podia sentir o fumaceiro de longe. Confesso que tive um desagradável pressentimento, comentado com minha colega, mas imaginávamos que os funcionários ali permaneceriam, orientando o trânsito. E, assim, tranquilizados, seguimos para mais um dia de rotina geológica, campo a fora. O assunto saiu completamente de nossa pauta de preocupações, até aquele momento em que a Brasília branca nos ultrapassou, cerca de 300 metros da ponte, quando retornávamos a Marabá, 17h00, mais ou menos, cansados, suados e sonhando com a cerva que nos aguardava na cidade. Estranhou-me a velocidade da ultrapassagem, uma imprudência que só poderia indicar uma coisa: O motorista da Brasília não sabia do fogo na ponte logo ali na curva. Acreditem em mim: Mesmo supondo que os funcionários da empreiteira estariam no local, antevi a tragédia que nos aguardava adiante. O pressentimento da manhã voltara, agora com força toltal, me dizendo: - Te prepara, vais precisar ser forte. Mag me olhou com olhar cúmplice. Pensamos a mesma coisa, mas não ousamos dizer palavra. No fundo, torcíamos para estarmos errados. Mas, infelizmente, não estávamos.
Ao entrar na curva que levava ao desvio, uma mistura de fumaça e poeira me confirmou que o pior acontecera. Quando pude enxergar com nitidez, vi um homem desesperado, as roupas ensanguentadas e as mãos sobre a cabeça, andando na areia, apontando para o carro sob a ponte. Estacionei como pude e me deparei com uma cena terrível: o carro sobre os restos do fogo que derrubara a ponte, com o risco de explosão iminente e, preso às ferragens, no banco do passageiro, um rapaz obeso, uivando de dor, que dizia ter as pernas esmagadas, implorando para que o tirássemos dali. Embora meu instinto me dissesse que a primeira coisa a fazer seria garantir a extinção completa do fogo, a compaixão pelo sofrimento do rapaz dentro do carro e de seu pai (depois fiquei sabendo que eram pai e filho), desmaiando na areia me levou a inverter a prioridade de ação, mesmo sabendo do risco que corríamos. Fui ao carro pegar ferramentas para abrir a porta da Brasília que estava emperrada e só então me dei conta de outra tragédia: A Mag tinha desaparecido. Por não suportar ver sangue, saiu correndo pela estrada e sumiu de vista. Resumo da ópera: eu ficara sozinho para tentar fazer o que fosse possível. O rapaz dentro do carro pesava cerca de 150 quilos. Mesmo com a porta aberta, como eu ira tirá-lo? Com a adrenalina a mil, adiei esse problema e me concentrei em como abrir a porta emperrada. Um problema de cada vez. Como tinha bastante ferramentas no carro, levei alavanca, picareta, marretas de vários tamanhos, martelos, o diabo. Aquela porta abriria por bem ou por mal.
Deitei o pai, que vomitava e ameaçava desmaiar, na areia, e iniciei a tarefa "arrebenta-porta" com toda a força que possuía, mas também com o cuidado de não causar mais uma fratura na perna do pobre. Mas não teve força, nem porrada que fizesse a danada da porta abrir. Cheguei a fazer um rombo na lataria, mas inútil... A noite começou a descer e agora era eu que estava ficando desesperado.
Quando estava tentando passar uma corda na porta, para puxá-la, com a F-100, um caminhão apontou no desvio, com vários peões na carroceria... Eram madeireiros. Com uma serra elétrica, rapidamente abrimos a porta, enquanto uma turma limpou a área ao redor do carro, tirando todos os focos de fogo ainda restantes. Aí teve início outro drama: Tirar o rapaz obeso do carro. Ao primeiro movimento de tentativa, ele gritou tanto que nos assustou e desistimos. Mas, ao mesmo tempo em que berrava, ele pedia:
- Pelo amor de Deus, não me deixem aqui, me tirem daqui, nem que eu desmaie de dor!
Então, depois de um trabalho infernal, serramos o teto da Brasília e passamos uma corda sob os dois braços do rapaz, como se fôssemos içá-lo para cima e, dessa forma, com todo mundo ajudando, o removemos, desacordado, para a areia. Ali, fizemos talas de madeira improvisadas, protegendo suas duas pernas (uma delas com fratura exposta) e o colocamos no fundo da F-100, mais confortável que o caminhão, para o trajeto de cerca de 30 km que nos separava do hospital de Marabá.
Não preciso dizer, mas di-lo-ei, que o percurso até a cidade, por aquela estrada esburacada, em noite de breu, foi um drama particular. A Mag, entre apavorada e aparvalhada, parecia necessitar tanto de assistência quanto nosso amigo lá nos fundos do carro, a quem, por absoluta deslembrança, chamarei de Chico. Sua palidez me assustava e eu não sabia o que me preocupava mais, se os lamentos do Chico e seu choroso pai, ou as ameaças de desmaio dela, cada vez que olhava para trás e via a bagaceira sobre nossos sacos de amostras geoquímicas. Mas, enfim, lá pelas 9h00 encostei a F-100 na porta do único hospital da cidade e, a partir de então, compartilhei a responsabilidade por aquela assistência improvisada, mas providencial, nas circunstâncias e no local em que as coisas se deram. Internadas as duas vitimas, ainda tive de prestar depoimento e ficar como responsável pelos dois ilustres desconhecidos até que a família aparecesse e assumisse a encrenca.
Naquela noite, ficamos até altas horas, eu e a Mag, tomando todas e filosofando sobre o sentido da vida. Por fim, ambos bastante borrachos, nos recolhemos à nossa insignificância e nos rendemos aos encantos de Morfeu, que o dia já vinha serelepando ali pelas bandas do Tocantins, a nos lembrar que "amanhã será outro dia".
O pessoal socorrido era de uma importante família da cidade de Castanhal, no Pará. No dia seguinte, aportaram em Marabá umas dez pessoas entre esposa, irmãos, advogados, empregados, enfim, era uma família unida na alegria e na tragédia. Ficaram muito agradecidos pelo socorro que prestamos, queriam nos recompensar em dinheiro e se admiravam de nossa recusa, a não ser a cerveja nossa de cada dia que ficou, digamos assim, mais farta. Trocamos endereços e durante muitos, anos nunca deixei de receber cartões de Natal e de aniversário. Mas, acho que de tanto eu não responder, acabei perdendo contato.
Pois é... A vida de geólogo é assim. Além de dialogar com as pedras brutas e tentar extrair-lhes o passado de neve e fogo, às vezes é aos homens que temos de tentar entender sua natureza estranha. E assim vamos levando os dias. Mas, entre o silêncio sábio das pedras sofridas e as parlapatices dos homens frágeis, há muito que observar e aprender. Não creio que me tornei geólogo por acaso. Algo nessa esquisita profissão me atraiu, me fisgou de forma irresistível. Talvez a aventura de viver por aí, feito hippye assalariado. Talvez a ventura de poder viver longe dos centros urbanos neuróticos. Talvez a curiosidade de entender como tudo começou. Mas, com certeza, a oportunidade de "pegar o Brasil com as mãos", sentir o cheiro de sua terra, o calor de suas gentes, suas dores, seus odores, suas danças, suas línguas. E é isso que vejo hoje, no meu passado. Cada pequenino causo, como esse, mostra como me integrei ao meu povo, como vivi e sofri com ele, como me abrasileirei. Não me orgulha tanto os relatórios que fiz, quanto as amizades que deixei por onde andei. E se tanto me incomodou a falta da pós-graduação gratificante, hoje agradeço o doutorado que fiz, sem saber, sobre Gente, sobre um Povo, sobre uma Terra.