sexta-feira, outubro 24, 2008

Nos tempos do rádio I

Censura em prosa e verso

Das lembranças marcantes dos tempos em que fazíamos geologia desbravando os interiores do Brasil, qual bandeirantes do século XX, uma das mais fortes é a dos rádios transmissores. Com eles, falávamos com o mundo, fosse dos confins do Amapá, fosse do interior de Goiás. Telefone era coisa rara e somente disponíveis nas cabines telefônicas, graças à gentileza de simpáticas telefonistas, muito mais simpáticas do que telefonistas, na maioria das vezes. Nossa valência era mesmo o velho e bom rádio de cinco canais. Levávamos sempre um de reserva, pois não nos arriscávamos a ficar isolados do mundo. Quem acompanha minhas despretensiosas narrativas, há de se lembrar de um causo em que narro o sufoco para salvar o rádio do projeto Palmeirópolis, durante inesperado incêndio no acampamento.

Pois é... Sem o rádio, seria como ir para o campo hoje, sem o celular. Dá pra imaginar? Tinha os fixos, que eram, na verdade poderosas estações de comunicação, e os portáteis, menores e mais leves, que transportávamos em pequenas mochilas e que tinham incrível poder de transmissão, bastando, para isso, estender pequena antena, em direção perpendicular à reta imaginária do local até a estação receptora. Certa vez, em emergência, estendemos uma antena desse tipo dentro do rio Ipitinga, usando duas voadeiras e, graças a isso, acionamos socorro, em Macapá, para um peão que tivera o dedo decepado pela hélice de um motor de popa, no extremo sul do Estado, fronteira com o Pará (veja o post Adoráveis barrigadas).

Tínhamos o sistema oficial de comunicação por rádio, cuja base eram as mensagens por formulários, denominados radiogramas. Os radiogramas eram lidos por operadores práticos, que transmitiam, geralmente, boletins de andamento de serviços e pedidos de material. Como as transmissões não eram límpidas, pelo contrário, sempre carregadas de muito ruído, o operador normalmente ditava a mensagem por códigos: alfa, era a letra "a"; beta a letra "b"; charles, o "c" e assim por diante. Dinheiro era QSJ. Ficar na espera, era QAP e tome sopa de letras!. Assim como fazem hoje, os motoristas de táxi.

Domingo nos acampamentos dos projetos era dia de descanso e melancolia. Geralmente, suspendiam-se as atividades de campo e cada um buscava o lazer possível, a depender de onde se estava. E aí, batia a saudade da família, da namorada, dos amigos, enfim, aquele banzo! O jeito era minimizar o estrago com uma branquinha, que ninguém é de ferro e reunir a família, à distância, usando o rádio e a maricota. Calma que eu explico! Maricota, era uma geringonça, acoplada ao rádio da sede, que, ao comando do operador, transferia a comunicação para um aparelho telefônico. E, dessa forma esquisita, sem privacidade, já que o operador e o resto do Brasil que estivesse na frequência a tudo ouvia, era possível matar a saudade da patroa, da gurizada e saber das últimas. O diabo é que tinha o Dentel - Departamento de Telecomunicações, que era uma espécie de big brother, sempre atento e na escuta. Era o órgão que concedia as licenças e fiscalizava a comunicação. Lembremo-nos que a ditadura ainda vigia e espalhava seus tentáculos até pelos inocentes acampamentos de pesquisa da CPRM. No termo de concessão de licença, uma cláusula draconiana estabelecia que "as comunicações deveriam ser no exclusivo interesse da CPRM, vedado qualquer assunto de natureza particular, política, religiosa, etc". E não pensem que era uma cláusula morta. Quem assim pensa, não sabe o que foram os anos de chumbo.

A primeira vez em que constatei a ostensiva presença do Dentel, eu estava acampado no interior do Pará. Meninos, eu ouvi! Estávamos em plena apuração das primeiras eleições diretas para governador, desde o golpe militar de 64. Um companheiro de outro projeto entrou na frequência e quis saber do operador da Sede, em Belém, a quantas iam as apurações. Havia a grande expectativa de que o candidato da oposição (MDB), Jáder Barbalho, derrotasse a situação. Ainda não tínhamos urnas eletrônicas e as apurações, no Norte, duravam semanas. Éramos todos da oposição, claro! O diálogo, surrealista, foi mais ou menos assim:

- Atento 698, 794 chamando, câmbio!

Depois de várias tentativas, a Sede responde:

- Ok 794! 698 na escuta, câmbio!

- Okapa 698! Acá é Sinval* operando. Quem opera por aí, câmbio!

- Boa tarde Sinval! Acá é o Borges*. Adiante, câmbio!

- Boa tarde, Borges! Tenho três radiogramas, ok?

- Ok Sinval, pode mandar, câmbio!

Após a complicada transmissão dos boletins de sondagem, o técnico de campo quis saber, naturalmente, como ia a marcha das apurações e arriscou inocente indagação:

- Positivo Borges, positivo! Radiogramas encerrados. A propósito, aproveitando, o Jáder continua na frente, câmbio!

Nesse exato momento a comunicação foi interrompida por um infernal ruído extragalático. Após restabelecida a normalidade, o próprio Deus assumiu a operação, de algum lugar do universo:

- Atenção operador da estação 794 da CPRM! Aqui fala o capitão Dantes*, do Dentel. Repetindo, aqui é o capitão Dantes, do Dentel. Matrícula 010100001-111, DCC/DCCI/SVC/PA. Copiado, câmbio!

O técnico, naturalmente, não copiou porra nenhuma. Apenas respondeu desconfiado:

- Adiante, câmbio!

- Por favor, identifique-se e passe o prefixo completa de sua estação, câmbio!

Ih! Aí pegou! O técnico desconfiou que tinha feito alguma m...

- O que o senhor quer mesmo? Câmbio!

Percebendo o clima, o operador de Belém, que a tudo ouvia, resolveu ajudar o Borges e meteu a colher na sopa:

- Atenção Dentel, atenção Dentel, 698, Sede CPRM Belém chamando, câmbio!

Mas o burocrata do Dental não estava pra brincadeira:

- Um momento CPRM Belém! Estou numa conferência de notificação com uma estação móvel de vocês e preciso de informações locais, câmbio!

Embora a comunicação estivesse muito ruim, o Sinval ouvira a conversa e viu que a coisa era com ele:

- Pois não, Dr. Dentel, aqui é 698, Sinval operando, câmbio!

- Corrigindo... Dr. Dantes, do Dentel... Dentel! Entendido? Câmbio!

O ruído extragalático voltara, como se todos os grilos e cigarras da floresta resolvessem se meter na conversa:

- Positivo, hem! Mas não captei tudo, hem! Muito ruído! Só entendi até Pimentel, câmbio!

- Okapa, 698! Tudo bem. Por favor informe o prefixo completo da estação, câmbio!

- Ah.... Negativo! Muito ruído... Mas estou são sim. Tudo bem comigo, câmbio!

Agora foi o Dentel que pediu a interferência de Belém:

- Atento 698! Por favor peça a 794 para informar o prefixo da estação que se encontra no verso da licença do Dentel. Entendido, câmbio?

- Atenção 794, atenção 794! Favor ler o número no verso da licença que se encontra embaixo do aparelho, câmbio!

- Ok, 698, perfeitamente entendido... Já achei a licença, câmbio!

- Positivo 794, positivo! Agora leia o verso, câmbio!

- Ok 698, QAP!

Com esse código, Sinval pedira um tempo. Cinco minutos depois:

- Atento 698, 794!

- Adiante 794!

- Olha Borges, li a licença todinha e não tem nenhum verso. Só tem umas letrinhas miúdas, mas nada de verso, câmbio!

Borges, como se diz na minha terra, "queimou as priquita":

- Verso significa do outro lado! Outro lado, entendido, câmbio!

- Perfeitamente entendido... do outro lado... Mas qual lado? Já olhei os dois, de cabo a rabo... Não tem verso nenhum, câmbio!

Vendo que a comunicação não iria a lugar nenhum, o Capitão Dantes resolveu ser pragmático:

- Atenção 698! Capitão Dantes do Dentel chamando, câmbio!

- Adiante Capitão!

- Está complicada a comunicação direta... Sendo assim, através de Vossa Senhoria, o Dentel, no uso de suas atribuições legais, adverte a CPRM de que a licença para uso de estações móveis de rádio transmissor é para exclusivo uso no interesse da Companhia, vedada qualquer comunicação de conteúdo político. Entendido, câmbio?

- Positivo, câmbio!

E foi por aí afora, passando um sabão na CPRM, pelo fato "inusitado" de um cidadão querer acompanhar a marcha das eleições. E pensar que hoje as TVs mostram tudo, a cores a ao vivo, para todos os rincões do país. Pois é... Mas houve um tempo, é bom não esquecer, em que os grotões só recebiam aquelas informações, via Rádio Nacional, devidamente embaladas e acondicionadas pelos donos do poder. Acredite se quiser.

* Nomes fictícios
(Leia mais sobre fatos pitotescos e curiosidades dos tempos das comunicações por rádio, no próximo post)

domingo, setembro 21, 2008

Barrigadas adoráveis II

Segunda e última parte

Continuação do relato de aventuras e desventuras na selva amazônica, durante projeto de mapeamento geológico e prospecção geoquímica (Cérbero I), na divisa do Pará com o Amapá, no ano de 1982. Os nomes verdadeiros dos personagens foram omitidos, mas os fatos aqui narrados são reais e recriados com a maior fidelidade que o tempo e os neurônios permitiram.


Chefe não passa no teste

Não foi o que aconteceu com o geólogo da área contígua à minha, o Lula, nome fictício. Por não ter jogo de cintura, acabou angariando a antipatia da equipe. Um dia, ao voltar para o acampamento, começou a se sentir mal, com falta de ar. Ele era meio gordinho. Mesmo percebendo o cansaço do geólogo, os peões não se abalaram e continuaram em marcha avançada, deixando o chefe para trás. Este, não suportando mais, deitou-se no chão e ali ficou semi-acordado. Ao chegarem ao acampamento e relatarem o ocorrido, o cozinheiro apiedou-se e entrou na picada para resgatar o chefe, no que foi seguido pelo caçador (peão que, na equipe, tinha a incumbência de caçar).

Quando cheguei ao meu acampamento já tinha um aviso pelo rádio, de que o Lula não estava bem. Veio se arrastando na picada, amparado nos dois assistentes. Convoquei meu piloto e subimos o Ipitinga até o próximo acampamento, já noite fechada. O colega estava de fato muito debilitado, sem energia, suando em bicas com falta de ar. Avisei ao chefe do projeto e mandamos o piloto do colega adoentado descer à noite mesmo, levando o Lula para a base do Inferno. Dia seguinte, desceu para o Carecurú, de onde foi resgatado pelo “anjo” Barriga. Devolvi todos os peões, menos os dois que demonstraram solidariedade humana. O trabalho restante dessa área foi rateado entre os demais geólogos de modo que nem precisou enviar substituto. Depois, ficamos sabendo que o Lula tivera um princípio de infarto.

Malária não dá trégua

Mas a malária nos rondava, assim como a pintada e o Mandaguari, figura lendária, meio homem, meio macaco, que habita as matas amazônicas, aterrorizando os incautos. Ninguém jamais o viu, mas também ninguém tem a menor dúvida de sua existência. Bastava alguém reclamar de frio, ao final da tarde, não tinha erro: malária. Era arrumar a trouxa e descer no próximo barco. Mais de cem peões circularam pelas sete equipes, mais as bases, em rodízio, por causa da malária. Curiosamente, nenhum geólogo caiu de malária no campo, embora, ao retornar para Belém, dois deles estivessem contaminados.

Os trabalhos estavam previstos para durar um mês e meio, mas duraram exatos 69 intermináveis dias. A partir do trigésimo dia, mais ou menos, apareceu-me um caroço na coxa direita, tipo uma espinha, mas que doía muito à noite e expelia um líquido claro. Padeci com isso, em segredo, sem dizer aos peões, com medo de novo trote. Mas estava ficando insuportável e a espinha crescendo mais e mais, parecendo já um pequeno furúnculo. Porém, esse problema só será resolvido no último dia da campanha. Garanto que não será uma solução ortodoxa.

Últimas barrigadas

Finalmente, os trabalhos chegaram ao fim. Desmontados os acampamentos, todos descemos para o Inferno e de lá, em comboio, para o Carecurú. Parecia um sonho, voltar à civilização, depois de mais de dois meses. Ficamos três dias na pista, despachando o material e os peões através das “barrigadas” diárias para Macapá e aguardando o Comandante Flávio, que viria com uma aeronave um pouco maior, de Santarém, para pegar os geólogos.

Era impressionante ver o Barriga “calibrar” o peso da aeronave. Primeiro, ele testava cada saco de amostra, com suas próprias mãos, para estimar o peso. Ia separando os sacos de lado e depois determinava:

- Dá pra ir esses sacos e mais três peões.

Algumas vezes ele abortava a decolagem e pedia, de dentro do monomotor:

- Manda mais um peão!

Ou então:

- Não dá! Temos de descer um saco ou um peão!

Esse era o Barriga. Os peões confiavam cegamente nele e devo dizer que suas “barrigadas” foram todas tranqüilas e bem sucedidas, sem nenhuma ocorrência digna de relato.

Foi aí que um peão, vendo minha “espinha” na perna, diagnosticou, com aquela segurança de quem sabe das coisas: - O senhor tem um ura, doutor.

- Ura??

Um dos geólogos da região me explicou que ura é o mesmo que berne. É um bichinho minúsculo que se instala no corpo e se fixa com uma espécie de cílios. É muito comum em gado. O olhinho da espinha é por onde ele respira. Ofereceram-me duas hipóteses para me livrar do ura: tapar a espinha com fumo (isso forçaria o ura a sair para respirar), ou espremê-lo, manualmente. Essa última hipótese, me advertiram, seria muito dolorida, dado o tamanho do bicho e de suas pernas (cílios). Mas meu “médico” me tranqüilizou: - Se o senhor agüentar, eu espremo. Topei.

Todo o acampamento se reuniu para acompanhar a operação. Por mais que tivesse sido advertido, posso garantir que doeu muito mais do que eu esperava. E o bicho resistiu, aferrando-se a seus inúmeros cílios, que são, na verdade, minúsculas pernas. Finalmente prevaleceram a força e a perícia do meu cirurgião. Do pequeno olho da espinha, emergiu algo semelhante a um bicho de goiaba, só que cheio de pernas. O alívio foi imediato. Comemoramos com uma rodada de excelente cachaça que o Barriga tinha trazido de Macapá.

No último dia, tudo resolvido, tudo despachado, chegou o Comandante Flávio para nos resgatar. E chegou trazendo sinais da civilização que nos aguardava: um isopor cheio de cerveja em lata e sanduíches. Sabe o que significa esse reencontro, depois de 70 dias no meio da mata? Uma sensação de recompensa, de dever cumprido, de felicidade.

A cortina do tempo

Hoje, relembro esses fatos com funda nostalgia, mas com orgulho. O sofrimento que a mata e distância da família impõem se apequenam quando penso que fiz um trabalho importante para o país, que poucos teriam condições de fazer, que me engrandeceu como ser humano e como profissional e que me abriu o coração da Amazônia. Ali deixei mais do que companheiros de trabalho. Deixei amigos de verdade. Nunca mais os vi, mas tenho certeza de que se os revisse, em qualquer lugar, haveríamos de trocar aquele abraço gostoso e compartilhar um monte de histórias que não deu pra contar aqui. Como se o tempo não tivesse passado. Jorildo, Cara Azeda, Bartolo, Dias, Ganã... Brasileiros simples, peões das matas amazônicas, que temem o Mandaguari, como a Deus. Seus ensinamentos ainda estão comigo e as lembranças das nossas aventuras são um patrimônio de cultura e sabedoria, cujo privilégio de ter vivenciado muito me honra e engrandece.

(Fim)

Barrigadas adoráveis I

Primeira parte

Relato de aventuras e desventuras na selva amazônica, durante projeto de mapeamento geológico e prospecção geoquímica (Cérbero I), na divisa do Pará com o Amapá, no ano de 1982. Os nomes verdadeiros dos personagens foram omitidos, mas os fatos aqui narrados são reais e recriados com a maior fidelidade que o tempo e os neurônios permitiram.




O nome de batismo do Barriga? Sinceramente, não sei. Mas isso não tem a menor importância, pois todos que o conheceram sabem que ele será sempre o Barriga. Ponto final. Piloto de teco-teco na Amazônia, década de 80. Sua base era Macapá. Bem humorado e brincalhão, vivia zombando do perigo e onde houvesse qualquer brechinha na mata, ele pousava. Desafio era com ele mesmo. Aliás, ele dizia já ter caído várias vezes. Se é verdade, não posso garantir.

Seu volumoso abdômen dificultava abotoar a camisa e por isso ele andava mesmo era de peito nú, de bermuda, óculos Ray Ban legítimos, sandálias havaianas e um indefectível palito na boca, onde brilhavam vários dentes de ouro, fruto dos anos de trabalho nos garimpos perdidos naquela Amazônia de meu Deus.

Naquele projeto, o Cérbero I (1982), na divisa do Pará com o Amapá, área endêmica de malária, ele cumpriu um papel importantíssimo: fazia um vôo diário, no mínimo, de Macapá até a pista do Carecurú, onde tínhamos uma base. Carecurú era um antigo garimpo da região, do qual só restava a velha pista esburacada, cheia de carcaças de aviões em suas duas cabeceiras. O Barriga e o Comandante Flávio, de Santarém, eram dois dos poucos pilotos que se arriscavam nessa pista. Além de curta, ela tinha um “quebra-mola” bem no meio, que exigia, além de perícia, muita coragem do piloto.

Cada vôo do Barriga, para efeito de controle de custos, era registrado como uma “barrigada”. De Macapá, trazia provisões, correspondências, encomendas e os peões liberados pelo Hospital de Doenças Tropicais. Na volta, levava os peões caídos (que estavam com malária) e as amostras de solo e sedimento de corrente. Dentro da área do projeto, havia barcos que percorriam todas as sub-bases, diariamente, levando os peões curados e recolhendo os caídos (e as amostras), para trazer ao Carecurú. Assim era a rotina dos projetos na Amazônia naquela época. Não sei se hoje é muito diferente.

Cérbero, o guardião do inferno

Toda a logística do projeto fora montada a partir de Belém, usando fotografias aéreas da USAF, escala 1:70.000. Sete equipes se espalhariam ao longo do rio Ipitinga, afluente do rio Jarí. O acampamento-base ficaria na boca do Igarapé do Inferno e uma sub-base fixa ficaria na pista do Carecurú, nosso elo com o mundo externo. Cérbero, segundo a mitologia, era o nome dado ao cão que guardava a porta do inferno. Daí o nome do projeto. Bastante encorajador, não acham?

Do Carecurú ao Inferno era um dia de barco, com vários obstáculos terríveis de corredeiras (pedras no leito do rio). Conseguimos contratar um índio, nas proximidades, que era o único piloto que se arriscava com os barcos pelas corredeiras. Ele tinha de passar todos os barcos, pois conhecia os canais e as pedras, como se fosse a cozinha de sua choça. Mesmo, assim, no primeiro dia, um dos barcos virou e perdemos todos os mantimentos. Por segurança, os equipamentos eram transportados a pé pelas margens.

No Inferno, ficamos dois dias montando o acampamento, refinando a programação, separando o material e os peões. Éramos sete geólogos, mais o chefe do projeto. Quando o acampamento ficou pronto e instalamos a estação-base de rádio, me lembro que o chefe do projeto mandou fincar um mastro bem alto, no centro da praça e promoveu uma inusitada solenidade de hasteamento da bandeira, ao som de improvisado e desafinado Hino Nacional. Com direito a perfilagem geral e mãos sobre o peito. Mas que foi emocionante ver nossa bandeira tremulando naqueles cafundós, isso foi!

No dia da partida das equipes, o primeiro acidente. Ao tentar fazer pegar um dos motores de popa, um peão teve o dedo polegar decepado pela hélice, bem no meio do rio Ipitinga. Aí eu pude constatar a utilidade dos rádios que levávamos. Ali mesmo, no leito do rio, estendemos a antena (dois barcos, cada um puxando para um lado) e ligamos o rádio Telefunken portátil. Em minutos, o Barriga foi acionado e dali mesmo um dos barcos desceu para o Carecurú, com a primeira baixa das dezenas que teríamos nos próximos 70 dias que durou aquela aventura.

Chefe passa no teste

Já haviam me prevenido que não é fácil trabalhar com os peões na Amazônia. Eles costumam testar sua competência e liderança e se você não despertar confiança, fica acuado e sujeito a chantagens de todos os tipos. O meu teste se deu logo no segundo dia, quando a equipe da picada regressou dizendo que havia encontrado aviso de índios, e que era perigoso prosseguir dali para frente. Para dar maior dramaticidade, disseram que os índios tinham tocado fogo na picada. Na verdade, notei que um dos peões parecia incomodado, ficando sempre calado e não me encarando.

Bom, confesso que me deu um friozinho na barriga, mas lá em Belém, tínhamos feito contato com a FUNAI, mostrando a área de trabalho e nos foi declarado, com documentos, tratar-se de área livre de qualquer presença indígena. Mesmo assim, pelo rádio, fiz contato com o chefe do projeto que me recomendou ir pessoalmente ver os “avisos” antes de qualquer decisão.

Dia seguinte, lá fui, cheio de cautelas, fazer o reconhecimento. Importante frisar que quando determinei a volta ao local, senti certo nervosismo na equipe. Percebi certos cochichos e trocas de olhares suspeitos. Quando chegamos ao local do incêndio, não vi as tais palmeiras cruzadas, os avisos, segundo disseram. Mais ainda, bastou andar um pouco ao redor e encontrei uma caixa de fósforos vazia, ao lado de embalagens de cigarros. Mais algumas perguntas e logo me confessaram que foi um incêndio involuntário e, com medo de punições, inventaram a história toda. Apenas um peão não concordara com a lorota, por isso ficara incomodado, mas não entregara os colegas.

Ali na picada mesmo, disse que não haveria punições, por ser a primeira vez, mas determinei que contornassem a área incendiada e continuassem a picada. Retornando ao acampamento, contatei o chefe do projeto, na base do Inferno e pedi para me mandar três peões de picada. À tardinha, quando a equipe voltou, devolvi os três mentirosos e preservei o que não entregara os colegas, apesar de não fazer parte da trama. Foi meu teste de fogo e serviu para deixar claro que eu não era um bocó da capital.

Mas adquiri o respeito inconteste da equipe, alguns dias depois, quando, ao fim de um dia complicado, ao longo de drenagens, para coleta de amostras geoquímicas, ao invés de voltarmos pelo mesmo caminho por onde tínhamos vindo, propus voltar por outro caminho, sob meu comando na bússola. Garanti para eles que, se seguíssemos exatamente por onde eu indicasse, sairíamos bem perto do acampamento, em muito menos tempo. Vi a dúvida estampada nos rostos e até certa torcida para que as coisas não dessem certo e assim, me desmoralizar. Mas, o resultado é que tudo saiu conforme eu prometera e isso me deu a liderança inconteste da equipe. Todos me cumprimentaram e queriam saber como funcionava a bússola. A partir dali, minha palavra era sagrada e nunca mais tive problemas de comportamento entre os peões. Aliás, ficamos grandes amigos e acabei, com o tempo, tornando-me confidente e conselheiro de todos eles.

(Continua... Veja sequência do relato na próxima postagem)

domingo, agosto 17, 2008

Cinzas

Vamos lá!
Último tango, último trago...
O furacão que nos varreu um dia,
Hoje é só poeira.
Findo o carnaval,
Finda a fantasia,
Fica o gosto amargo
Da manhã de cinzas
Da quarta-feira.

E a minha vida é esta.
Uma fogueira me queimou por dentro,
Um tsunami fez de mim seu epicentro
E tudo devastou...
Eis o que resta.
Nosso amor, abandonado,
Agonizou no chão, ignorado,
Triste fim de festa!
Em vão te supliquei... Estavas bêbada.
De braços com o Palhaço... Trôpega,
Esqueceste o Arlequim tristonho,
Seu olhar pidão, seu canto enfadonho,
Sua vã seresta.
E então te foste, na clara manhã...
Nem viste o bobo nas calçadas da cidade
A rabiscar no chão sua saudade.
Nem o viste chorar, cruel cunhã!

Distraída,
Nem ouviste seu canto de dor.
Tu, a musa de todas as musas,
Que inspiraste os mais puros poemas,
Tu, a fonte de todos os temas,
Te perdeste nas ruas confusas
Da cidade sonolenta, sem cor.

Distraída,
Não o viste pisar a poesia,
Sob o céu de luz rajado,
E tristemente, esbanjar alegria,
Lançar serpentina e dançar...
Nem o sentiste exalar
Bêbado ai resignado.
Nem o viste a cantar, resoluto,
Apesar da dor e da careta,
Senhor de si, absoluto:
"Deixa a vida me levar..."
Seguindo gentil Borboleta.
Ah! Pena... Nem o viste
A se esgoelar na praça,
Sambando com as morenas,
As derradeiras Helenas
Do Bloco do “Tudo Passa”,
A cantar um samba-chiste:

- Aqui jaz um grande amor.
Levou para a eternidade
Os clarins de um carnaval
Que viveu intensamente
Em traição e poesia...
Agonizou quarta-feira,
De ressaca, indiferente,
Causa mortis natural,
Vomitando a fantasia...
Sem remorso, sem saudade.

Bsb, 03/08/2009

terça-feira, julho 08, 2008

Desencontro marcado

Quando o tapa me estalou no rosto,
Não foi dor que senti, nem raiva.
Não que seja estúpido ou santo,
Mas é que dominou-me tal espanto,
Que mal fitei a mão que estapeava...
E fiz-lhe ver o horror do meu desgosto.

Não sei quanto tempo se passou – eu mudo.
Segundos cruéis... Silêncios fatais.
Mas quando, enfim, recuperei o senso,
Já se esvaíra de mim aquele amor imenso
E me afloraram sentimentos tais,
Que revolveram fundo e misturaram tudo.

E, então, caí do furacão no vórtice
E sorvi do amor, o amargo fel.
Mas, não durou nem um minuto, acho,
Senti subir em mim um fogo, um facho,
Que iluminou e retirou o véu
E expulsou o medo e removeu o óbice.

E deu-se, então, o que se viu depois,
E foi tudo em seu lugar reposto
E nosso caso terminou – que pinta!
Exatamente às dezenove e trinta,
Daquele dia vinte e um de agosto,
Mil novecentos e noventa e dois.

Bsb 26/04/2008

terça-feira, julho 01, 2008

Anjo junino

Duas e meia da manhã. Um frio cortante tomara conta da cidade triste e escura. Dos festejos de horas antes, só restavam o zumbido e o gosto de cachaça na boca. Como todos os anos, o São João tinha sido bem tradicional, naquela cidadezinha do sertão, em casa de família. Leitoa, carneiro, quentão, comidas de milho, amendoim, bolo de arroz, cachaça, cerveja e aquele sanfoneiro que nunca pode faltar. Mas, a saúde do patriarca já não era mais a mesma. Em sua consideração, a festa acabara cedo.
Na praça das lembranças eternas, silêncio e sombras e o barulho do vento. Mas, um ligeiro movimento me chamou a atenção. Sentado na calçada em frente ao portão de casa, um menino. Loiro, magro, mal vestido, cabelo desgrenhado, com algumas caixas de fogos vazias na mão, olhando fixamente para o que restara da fogueira: algumas teimosas labaredas sobre o braseiro quase apagado. Parecia não ligar para o frio.
Quando sentiu minha presença no portão, assustou-se ligeiramente, mas logo se recuperou e ali, do outro lado da rua, enfrentou-me com um olhar desafiador. Encarou-me. Quis dizer alguma coisa, mas me limitei a sustentar o olhar por alguns custosos segundos. Não fiz absolutamente nada. De sua parte, após calar-me, ele simplesmente me ignorou. Levantou-se da calçada e ficou remexendo os restos de fogos na rua com uma varinha. Calmamente, revirava os papéis queimados dos vulcões, dos traques, dos buscapés, das chuvinhas, das bombas e das espadas que, pouco antes, fizeram a alegria de outras crianças. Sério e meticuloso, parecia determinado a encontrar algo.
Nunca o tinha visto. Era completamente estranho para mim. Seus cabelos de fogo refletindo as luzes da noite e seu porte altivo davam-lhe um ar angelical.
Normalmente, eu lhe perguntaria se estava com fome, se queria refrigerante, onde morava, se precisava de algo, quem eram seus pais, mas ali, naquele momento mágico, ele era o senhor da situação. Eu não ousei lhe dirigir a palavra. Apenas acompanhei seus movimentos, admirado daquela presença inesperada.
De repente, ele agachou e pegou algo no chão. Sua boca abriu-se num sorriso largo que pude ver perfeitamente. Era a pura felicidade. Após uns breves segundos de admiração, atirou o objeto dentro da fogueira e seguiu-se o espocar de um traque. Ele riu mais ainda e pareceu ter alcançado seu objetivo. Recolheu as caixas que deixara no chão e voltou a se sentar na calçada, olhar perdido na noite. Agora, era a pura tristeza.
Magnetizado no portão de casa, tudo acompanhei sem nada dizer. Nem me movia, em respeito absoluto àquela presença tão estranha, quanto dominadora.
Não sei quanto tempo permaneceu naquela contemplação quase religiosa. Sei que em determinado momento ele se levantou, ajeitou as caixas vazias nas mãozinhas pequenas, ficou ao lado da fogueira uns segundos e saiu cabisbaixo, rua acima. Só então pude descer o degrau para, finalmente, ganhar a calçada. Após passar a chave no cadeado, ainda intrigado, procurei o menino e não o vi mais na rua. Vasculhei cada poste e cada árvore da praça vazia e... Nada. Fui até o beco, a vinte metros da casa, e lá também nem sinal de vida humana. O menino simplesmente desaparecera.
Não sei o que me deu, mas peguei o carro e percorri todas as ruas e praças da vizinhança e não o encontrei mais. Não me pergunte por que fiz isso.
Quem era aquela criança? O que fazia sozinha, de madrugada, pelas ruas da cidade vazia? O que buscava? Para onde foi? Por que me encarou daquela forma desafiadora e paralisante? E por que eu não fiz nada?
Fiquei na cidade mais de uma semana, mas nunca mais voltei a ver aquele rostinho angelical. Não disse nada a ninguém, nem fiz perguntas. Simplesmente guardei na lembrança aquele estranho encontro. Desencanei e toquei a vida em frente. Hoje, porém, decorrido um tempo razoável, eu digo a quem tem ouvidos de ouvir, ou melhor, escrevo a quem tem olhos de ler: é nos mistérios que as verdades se escondem. E é nos sonhos que a realidade se desvenda. O que chamamos de vida real, não passa de uma farsa, uma ilusão a nos desviar, cotidianamente, do que faz sentido, do que importa. Afinal, a dita vida real é breve como o canto de despedida da cigarra. Mas os mistérios, os insondáveis mistérios, com esses é que passaremos a eternidade. É para lá que todos caminhamos, inexoravelmente, quer queiramos ou não. A imagem daquele anjo junino é tão real quanto a certeza da morte. A vida? Fico com Gonzaguinha, que sabia das coisas e se adiantou, na viagem inevitável: “...é uma gota, é um tempo que nem dura um segundo...”

domingo, junho 01, 2008

Panaceia

O livro é oceano, a palavra, areia
Quer navegar?
Abra o livro e leia...

O livro é banquete, a palavra, a ceia
Quer se alimentar?
Abra o livro e leia...

O livro é alqueire, a palavra, candeia
Quer se iluminar?
Abra o livro e leia...

O livro é Olimpo, a palavra, sereia
Quer se apaixonar?
Abra o livro e leia...

O livro é cidade, a palavra, aldeia
Quer se encontrar?
Abra o livro e leia...

O livro é engrenagem, a palavra, correia
Quer se transportar?
Abra o livro e leia...

O livro é inteira, a palavra é meia
Quer se emocionar?
Abra o livro e leia...

O livro é cabeça, a palavra é veia
Quer se comunicar?
Abra o livro e leia...

O livro é colheita, a palavra semeia
Quer se abastecer?
Abra o livro e leia...

O livro é granola, a palavra, aveia
Quer emagrecer?
Abra o livro e leia...

O livro é presídio, a palavra, cadeia
Quer se acorrentar?
Abra o livro e leia...

Rio, 28/05/2008