domingo, agosto 17, 2008

Cinzas

Vamos lá!
Último tango, último trago...
O furacão que nos varreu um dia,
Hoje é só poeira.
Findo o carnaval,
Finda a fantasia,
Fica o gosto amargo
Da manhã de cinzas
Da quarta-feira.

E a minha vida é esta.
Uma fogueira me queimou por dentro,
Um tsunami fez de mim seu epicentro
E tudo devastou...
Eis o que resta.
Nosso amor, abandonado,
Agonizou no chão, ignorado,
Triste fim de festa!
Em vão te supliquei... Estavas bêbada.
De braços com o Palhaço... Trôpega,
Esqueceste o Arlequim tristonho,
Seu olhar pidão, seu canto enfadonho,
Sua vã seresta.
E então te foste, na clara manhã...
Nem viste o bobo nas calçadas da cidade
A rabiscar no chão sua saudade.
Nem o viste chorar, cruel cunhã!

Distraída,
Nem ouviste seu canto de dor.
Tu, a musa de todas as musas,
Que inspiraste os mais puros poemas,
Tu, a fonte de todos os temas,
Te perdeste nas ruas confusas
Da cidade sonolenta, sem cor.

Distraída,
Não o viste pisar a poesia,
Sob o céu de luz rajado,
E tristemente, esbanjar alegria,
Lançar serpentina e dançar...
Nem o sentiste exalar
Bêbado ai resignado.
Nem o viste a cantar, resoluto,
Apesar da dor e da careta,
Senhor de si, absoluto:
"Deixa a vida me levar..."
Seguindo gentil Borboleta.
Ah! Pena... Nem o viste
A se esgoelar na praça,
Sambando com as morenas,
As derradeiras Helenas
Do Bloco do “Tudo Passa”,
A cantar um samba-chiste:

- Aqui jaz um grande amor.
Levou para a eternidade
Os clarins de um carnaval
Que viveu intensamente
Em traição e poesia...
Agonizou quarta-feira,
De ressaca, indiferente,
Causa mortis natural,
Vomitando a fantasia...
Sem remorso, sem saudade.

Bsb, 03/08/2009

terça-feira, julho 08, 2008

Desencontro marcado

Quando o tapa me estalou no rosto,
Não foi dor que senti, nem raiva.
Não que seja estúpido ou santo,
Mas é que dominou-me tal espanto,
Que mal fitei a mão que estapeava...
E fiz-lhe ver o horror do meu desgosto.

Não sei quanto tempo se passou – eu mudo.
Segundos cruéis... Silêncios fatais.
Mas quando, enfim, recuperei o senso,
Já se esvaíra de mim aquele amor imenso
E me afloraram sentimentos tais,
Que revolveram fundo e misturaram tudo.

E, então, caí do furacão no vórtice
E sorvi do amor, o amargo fel.
Mas, não durou nem um minuto, acho,
Senti subir em mim um fogo, um facho,
Que iluminou e retirou o véu
E expulsou o medo e removeu o óbice.

E deu-se, então, o que se viu depois,
E foi tudo em seu lugar reposto
E nosso caso terminou – que pinta!
Exatamente às dezenove e trinta,
Daquele dia vinte e um de agosto,
Mil novecentos e noventa e dois.

Bsb 26/04/2008

terça-feira, julho 01, 2008

Anjo junino

Duas e meia da manhã. Um frio cortante tomara conta da cidade triste e escura. Dos festejos de horas antes, só restavam o zumbido e o gosto de cachaça na boca. Como todos os anos, o São João tinha sido bem tradicional, naquela cidadezinha do sertão, em casa de família. Leitoa, carneiro, quentão, comidas de milho, amendoim, bolo de arroz, cachaça, cerveja e aquele sanfoneiro que nunca pode faltar. Mas, a saúde do patriarca já não era mais a mesma. Em sua consideração, a festa acabara cedo.
Na praça das lembranças eternas, silêncio e sombras e o barulho do vento. Mas, um ligeiro movimento me chamou a atenção. Sentado na calçada em frente ao portão de casa, um menino. Loiro, magro, mal vestido, cabelo desgrenhado, com algumas caixas de fogos vazias na mão, olhando fixamente para o que restara da fogueira: algumas teimosas labaredas sobre o braseiro quase apagado. Parecia não ligar para o frio.
Quando sentiu minha presença no portão, assustou-se ligeiramente, mas logo se recuperou e ali, do outro lado da rua, enfrentou-me com um olhar desafiador. Encarou-me. Quis dizer alguma coisa, mas me limitei a sustentar o olhar por alguns custosos segundos. Não fiz absolutamente nada. De sua parte, após calar-me, ele simplesmente me ignorou. Levantou-se da calçada e ficou remexendo os restos de fogos na rua com uma varinha. Calmamente, revirava os papéis queimados dos vulcões, dos traques, dos buscapés, das chuvinhas, das bombas e das espadas que, pouco antes, fizeram a alegria de outras crianças. Sério e meticuloso, parecia determinado a encontrar algo.
Nunca o tinha visto. Era completamente estranho para mim. Seus cabelos de fogo refletindo as luzes da noite e seu porte altivo davam-lhe um ar angelical.
Normalmente, eu lhe perguntaria se estava com fome, se queria refrigerante, onde morava, se precisava de algo, quem eram seus pais, mas ali, naquele momento mágico, ele era o senhor da situação. Eu não ousei lhe dirigir a palavra. Apenas acompanhei seus movimentos, admirado daquela presença inesperada.
De repente, ele agachou e pegou algo no chão. Sua boca abriu-se num sorriso largo que pude ver perfeitamente. Era a pura felicidade. Após uns breves segundos de admiração, atirou o objeto dentro da fogueira e seguiu-se o espocar de um traque. Ele riu mais ainda e pareceu ter alcançado seu objetivo. Recolheu as caixas que deixara no chão e voltou a se sentar na calçada, olhar perdido na noite. Agora, era a pura tristeza.
Magnetizado no portão de casa, tudo acompanhei sem nada dizer. Nem me movia, em respeito absoluto àquela presença tão estranha, quanto dominadora.
Não sei quanto tempo permaneceu naquela contemplação quase religiosa. Sei que em determinado momento ele se levantou, ajeitou as caixas vazias nas mãozinhas pequenas, ficou ao lado da fogueira uns segundos e saiu cabisbaixo, rua acima. Só então pude descer o degrau para, finalmente, ganhar a calçada. Após passar a chave no cadeado, ainda intrigado, procurei o menino e não o vi mais na rua. Vasculhei cada poste e cada árvore da praça vazia e... Nada. Fui até o beco, a vinte metros da casa, e lá também nem sinal de vida humana. O menino simplesmente desaparecera.
Não sei o que me deu, mas peguei o carro e percorri todas as ruas e praças da vizinhança e não o encontrei mais. Não me pergunte por que fiz isso.
Quem era aquela criança? O que fazia sozinha, de madrugada, pelas ruas da cidade vazia? O que buscava? Para onde foi? Por que me encarou daquela forma desafiadora e paralisante? E por que eu não fiz nada?
Fiquei na cidade mais de uma semana, mas nunca mais voltei a ver aquele rostinho angelical. Não disse nada a ninguém, nem fiz perguntas. Simplesmente guardei na lembrança aquele estranho encontro. Desencanei e toquei a vida em frente. Hoje, porém, decorrido um tempo razoável, eu digo a quem tem ouvidos de ouvir, ou melhor, escrevo a quem tem olhos de ler: é nos mistérios que as verdades se escondem. E é nos sonhos que a realidade se desvenda. O que chamamos de vida real, não passa de uma farsa, uma ilusão a nos desviar, cotidianamente, do que faz sentido, do que importa. Afinal, a dita vida real é breve como o canto de despedida da cigarra. Mas os mistérios, os insondáveis mistérios, com esses é que passaremos a eternidade. É para lá que todos caminhamos, inexoravelmente, quer queiramos ou não. A imagem daquele anjo junino é tão real quanto a certeza da morte. A vida? Fico com Gonzaguinha, que sabia das coisas e se adiantou, na viagem inevitável: “...é uma gota, é um tempo que nem dura um segundo...”

domingo, junho 01, 2008

Panaceia

O livro é oceano, a palavra, areia
Quer navegar?
Abra o livro e leia...

O livro é banquete, a palavra, a ceia
Quer se alimentar?
Abra o livro e leia...

O livro é alqueire, a palavra, candeia
Quer se iluminar?
Abra o livro e leia...

O livro é Olimpo, a palavra, sereia
Quer se apaixonar?
Abra o livro e leia...

O livro é cidade, a palavra, aldeia
Quer se encontrar?
Abra o livro e leia...

O livro é engrenagem, a palavra, correia
Quer se transportar?
Abra o livro e leia...

O livro é inteira, a palavra é meia
Quer se emocionar?
Abra o livro e leia...

O livro é cabeça, a palavra é veia
Quer se comunicar?
Abra o livro e leia...

O livro é colheita, a palavra semeia
Quer se abastecer?
Abra o livro e leia...

O livro é granola, a palavra, aveia
Quer emagrecer?
Abra o livro e leia...

O livro é presídio, a palavra, cadeia
Quer se acorrentar?
Abra o livro e leia...

Rio, 28/05/2008

sexta-feira, maio 09, 2008

No avião

Primeiro, a expectativa, a excitação...
Depois, o calafrio, mas não ainda medo,
Algo como um fio de história sem enredo.
Atrai-me o indisfarçável disfarçar da emoção,
Quando a aeronave ganha, enfim, a pista:
Os olhos fingem devorar a moça da revista,
Enquanto os lábios balbuciam a oração.

O assento ao meu lado está vago...
Lembro-me a última viagem juntos.
Lembro-me tudo, as risadas, os assuntos...
E a aeromoça, que não traz um trago!?
A tua ausência dói como um petardo
A perfurar o peito, cruel dardo
De veneno e de saudade... Doce amargo.

Na turbulência, tua ausência é mais doída.
Instintivamente, minha mão procura a tua
Lá fora paira, alva e triste, a lua...
Misteriosa, entre nuvens, escondida.
Onde estás agora? No trânsito!? Em casa!?
Uma rajada quase arranca do avião a asa.
Que frio! Que medo! Como é frágil a vida!

Com grande alívio, vejo as luzes do aeroporto.
O céu clareia... A noite se apresenta calma
De alegre ansiedade se enche minh’alma.
O pouso é firme e em total conforto,
Mas outro vôo começa agora em mim:
Um sonho, um beijo... Ai, boca de alfenim!
Sou marinheiro errante... És meu farol e porto.

Rio, 17/01/2008

domingo, abril 27, 2008

Travessuras de Juca Mato Grosso II

Conforme prometi, aqui vão mais alguns causos do Juca Mato Grosso*, esse querido pantaneiro que já abandonou as lides geológicas, faz tempo, mas cujas lembranças continuam vivas e caras para nós, que tivemos o privilégio de com ele conviver, por algum tempo.
Naquela noite da sábado, na cidade, o Cacau*, um técnico de mineração, estava meio macambúzio, caladão. Na balbúrdia da noite, poucos perceberam a preocupação no semblante do colega. Menos o Juca, sensível e zeloso do moral de sua tropa. Com uma desculpa qualquer, deu um jeito de arrastar o Cacau para uma mesa ao fundo da algazarra e, minutos depois, como um velho padre de aldeia, lá estava ele a recolher os desabafos e pecados do sorumbático técnico. Entre copos de cerveja e doses de cana com limão, Cacau abriu as portas do coração reprimido, deixando escorrer, em turbilhão, mágoas inconfessáveis e ressentimentos mal-aparados de um casamento conflituoso. Sob o aguilhão ácido da dúvida, o confessor revelava, a cada nova dose, pontadas de segredos preservados a sete chaves, sentindo nesse extravasar, um grande alívio que era, ao mesmo tempo, motor de novas confissões.
Com grande maestria, o Juca ia dirigindo a catarse do Cacau, mas sempre procurando mostrar ao inseguro amante, ângulos diferentes dos fatos, ressaltando pequenos detalhes desprezados, de modo a infundir no amigo confiança e, principalmente, expectativas positivas quanto ao futuro do jovem casal. Mas, nessa empolgação toda, o Cacau já estava mais pra lá do que pra cá, inclusive recobrando sua habitual alegria. Mas só que a noitada já estava no fim. Garçons começavam a arrumar as mesas, casais procuravam refúgios nos recantos das ruas escuras, aquele ambiente típico de “fim de festa”. Só aí o Juca se deu conta de que o amigo o fizera “perder” a noite entre lamúrias infantis e dúvidas adolescentes. Meio puto, já se resignara, mas no exato momento em que pediu a conta, estourou uma briga feia no salão, com mesas e cadeiras voando, bêbado caindo pra todo lado e uma grande massa se afunilando na saída, bem próximo onde se encontravam os dois amigos. Quando um tiro ecoou, seco e grave, o que já era correria se transformou num estouro de boiada. Menos de um minuto depois, só ficaram no salão os dois brigões e uma meia dúzia de “deixa-disso”, num imenso esforço para conter os exaltados desafetos, um dos quais com o fumegante revólver na mão, ameaçando Deus e o mundo. Entre ambos, uma providencial mesa impedindo o corpo-a-corpo.
Juca e Cacau, alheios e interessados apenas no fim da confusão, pra pagarem a conta e irem embora, aguardavam em seu canto, fingindo que nem estavam vendo. Pra dar um tom de normalidade, pediram mais uma rodada. Nisso, chegam dois policiais, extremamente “educados”, trocam ríspidas palavras com os contendores e se embolam todos numa confusão dos diabos. Mais policiais chegam e entram na bagunça. Ninguém mais entendia nada. Com uma perna de mesa na mão, alguém abriu um rombo na cabeça de um policial que, em revide, sacou seu 38 e descarregou todo no oponente, mas sem atingir um só tiro, acredite se quiser.
Sei é que nessa confusão toda, os policiais conseguiram imobilizar o brigão que ferira o colega e saíram com ele, aos trancos e barrancos para a delegacia. Quanto ao outro, que tinha o berro na mão, não conseguiram desarmá-lo. Os policiais fizeram um círculo em torno dele, mas ninguém quis arriscar o pulo do gato. Abrindo caminho com ameaças e o dedo no gatilho ele foi se afastando até chegar à porta, passando bem rente à mesa do Juca e do Cacau, que nem se mexeram, tomando suas saideiras. Já na calçada, ele deu o último aviso:
- Olha aqui! Eu vou me embora, não quero mais confusão. Mas lembrem-se que ainda tenho cinco balas. Se algum filadaputa vier atrás de mim, pode ser polícia, não quero nem saber, meto bala. Agora vou pegar meu carro, vou para minha fazenda e deixo todo mundo em paz.
Dito isso, saiu andando de costas, mirando a porta do bar, com dois amigos ao lado, dando cobertura.
Quando o valentão já ia entrar no seu carro, no outro lado da rua, todos respirando aliviados, ninguém sabe porquê, o Cacau, que até então permanecera calado, imerso em seus próprios problemas, levanta-se, vai até a porta do bar e põe o dedo em riste, em direção ao homem armado e sapeca, para espanto geral:
- Ei valentão! Tá fugindo, é? Volte aqui covarde! Volte e lute como um homem!
Juca não acreditou no que tinha ouvido, mas num átimo de auto-defesa, saltou sobre o Cacau e em menos de cinco segundos o atirou para dentro do bar, escondendo-o debaixo do balcão, entre caixas vazias de cervejas e disse com energia:
- Fique calado aí, seu porra! Não dê nem um pio, se não vai se ver comigo!
Voltou lépido pra mesa, ao tempo em que o ex-fujão se postava na porta perguntando e apontando o revólver pra todo mundo:
- Voltei! Cadê o filadaputa que me chamou de covarde?
O dono do bar, bastante calmo:
- Não foi nada amigo! Foi só um bêbado que passava por aqui, mas já se foi. Vá em paz, que ninguém mais vai provocá-lo.
Meio desconfiado, o encrenqueiro se mandou e todos puderam agora, respirar aliviados. O Cacau então, sai de sob o balcão morrendo de rir, bêbado que só um gambá, como se tivesse contado uma piada. Temendo alguma agressão, Juca tratou logo de dar o fora, carregando o bebum, mas ficou tão puto que resolveu dar o troco.
Na estrada entre a cidade e o acampamento, havia vários mata-burros. Explico pra quem não é do ramo. Quando uma cerca de fazenda cruza uma estrada, o fazendeiro faz uma porteira, pra passagem de animais e cavaleiros e constrói um mata-burros, que vem a ser uma espécie de grade de madeira, sobre uma vala, no leito da estrada, para permitir a passagem de veículos. Devido à abertura da grade, os animais não se arriscam a passar nos mata-burros.
Pois bem, nessa noite de que vos falo, caía uma leve neblina ao final da farra, mas mesmo assim, o Juca, aproveitando-se do porre do Cacau, parou a Toyota em frente ao primeiro mata-burro e pediu pro bebum abrir a porteira.
- Porra! Passa no mata-burro, caralho!
O Cacau ainda tinha uma réstia de consciência que lhe sinalizava alguma coisa errada, mas ele não conseguia processar direito. Mas o Juca foi cruel:
- Não tá vendo que o mata-burro caiu, seu bêbado do caralho!!
- Puta que pariu!!
E lá foi o Cacau, trocando as pernas, abrir a porteira, enquanto o Juca, rindo como criança, passou pelo mata-burro, saboreando sua pequena travessura.
Lá pelo quarto ou quinto mata-burro, já encharcado da fina garoa, o Cacau arriscou outro lampejo de consciência:
- Caralho, Juca! Todos os mata-burros tão caídos, é? Que merda é essa, cara?
Quando chegaram ao acampamento, Cacau tiritando de frio, antes de entrar em seu barraco, soltou a última da noite:
- Juca, meu amigo, amanhã vou à cidade denunciar esse filadaputa que derrubou os mata-burros.
Juca ainda deu corda:
- Deixa pra lá, cara! Pode ser algum amigo nosso.
- Amigo, o caralho! Se eu pegar uma pneumonia, vou mandar dar cinco anos de cadeia pra esse corno. É... Eu sou fodão, cara!
Ao meio-dia do domingo, o Cacau, de ressaca até a unha do dedão do pé, procura o Juca:
- Você sabe porque minhas roupas estão molhadas?
Juca não ia deixar passar uma oportunidade dessas:
- Ué! Você não se lembra mesmo?
- Não, cara. Juro!
- Porra! Te deu uma caganeira, na volta, que tive de parar o carro cinco vezes, na chuva. Foi só isso.
- Puta que pariu! Preciso parar de beber... Não me lembro de nada, cara!
Esse era o Juca.
Outra vez, numa dessas voltas da cidade, quatro horas da manhã, todos dormindo, cheios de manguaça, Juca (ele sempre dirigia na volta) pegou, de propósito, uma trilhazinha no cerrado e saiu uns 50 metros da estrada. Parou o carro, acordou a bebaiada e sentenciou:
- Cambada! Estamos perdidos. Dormi no volante a acordei aqui. Não tenho a menor idéia de onde estamos.
Escuro que nem breu, cerrado denso, só as estrelas no céu, por orientação. Os bebuns acordaram e foi uma reclamação da porra. Cada um dava uma opinião e o Juca nem aí, só fazendo gozação. Sei que eu me aventurei a tentar voltar para a estrada, a pé, e me dei mal. Um galho de arbusto entrou no meu ouvido e quase atingiu o tímpano. Levei um tempão pra me recuperar, indo a vários profissionais.
Bom, mas voltando àquela fatídica noite, depois de se deliciar com sua brincadeira, o Juca voltou pra estrada, já dia claro, só que, ao invés de pegar pro acampamento, voltou pra cidade. Aí, fazer o que? Já que estávamos na cidade mesmo, acordamos o Palmiro*, dono de um boteco, que já veio com um violão, e foram mais oito horas de farra e diversão.
Nunca canso de repetir: ser geólogo foi um privilégio. Curti intensamente minha juventude, com muito trabalho, convivendo com a gente simples do interior, aproveitando o que a vida me pode oferecer e conhecendo as entranhas do Brasil. Nem tudo foram flores, mas se a ampulheta do tempo desvirasse, faria tudo de novo.
*Nome fictício de personagem real

quinta-feira, abril 03, 2008

Travessuras do Juca Mato Grosso I

O apelido vem de sua origem pantaneira. Juca Mato Grosso*, dos mais brilhantes profissionais com quem já trabalhei, dono de uma liderança inconteste, mas sobretudo, grande figura humana. Aquele tipo de pessoa que gostaríamos de ter sempre ao lado, em todos os momentos, pois com ele não tinha tempo ruim. Bem humorado, brincalhão, espirituoso, teatral e tremendo gozador. Sua presença era garantia de conversa agradável e papo descontraído. Lembro-me, por exemplo, do causo do "menino" que o acompanhava e que ele contava sempre com um proposital ar misterioso, revelando certo espanto e mostrando o braço arrepiado. Vamos relembrar juntos:
Estava o Juca fazendo check in no balcão de um hotel em Aquidauana, se não me falham os neurônios, quando o atendente lhe pergunta:
- Quer cama extra para o garoto, ou ele vai dormir na cama de casal com o Senhor?
Juca pensou ter entendido errado, já que não havia garoto algum com ele. Mas, ante o tom incisivo do moço, retrucou com seu sotaque pantaneiro:
- Que garoto rapaz? Tá falando comigo mesmo?
- Sim, com o Senhor mesmo. Cadê o garoto que entrou com o Senhor no hotel, agora há pouco?
Juca pensou estar sendo alvo de uma brincadeira.
- Que garoto rapaz? Tá ficando maluco ou tá de gozação comigo? Não está vendo que estou sozinho?
O atendente se mostrava tão surpreso quanto.
- Senhor José (José é o prenome do nosso personagem), não estou maluco, nem de brincadeira. O Senhor entrou por aquela porta acompanhado de um garoto. Qual o problema?
Vendo que o rapaz falava sério, Juca resolveu deixar tudo por conta de um equívoco e nada mais.
- Você se confundiu, meu jovem. Tudo bem, isso acontece. Mas eu cheguei aqui sozinho, como sozinho agora estou . Não havia ninguém comigo, muito menos um garoto.
- Me desculpe Senhor José. Mas havia, sim, um garoto de seus oito anos, sorridente, bem magrinho, cabelo em cuia, tipo índio, tênis, calção e camiseta azul e muito curioso. Chamou minha atenção o modo como ele o seguia, atrás e não de lado. Veio atrás do Senhor até o balcão e enquanto me agachei para apanhar o formulário, ele desapareceu. Pensei que teria ido ao banheiro, por isso perguntei.
Vendo que nunca sairiam da lengalenga, Juca resolveu dar o caso por encerrado, até porque já havia curiosos prestando atenção àquela conversa esquisita. Mas ficou intrigadíssimo. Por que diabos uma pessoa estranha inventaria tal história? Por via das dúvidas, enquanto se dirigia ao quarto, ele se virou várias vezes, repentinamente, tentando dar um flagra no moleque seguidor mas, não obtendo sucesso, debitou o episódio na conta de um estranho equívoco. Mas o causo marcou-lhe para sempre. Inúmeras vezes ouvi esse relato, para diferentes platéias e ambientes, e sempre registrei o mesmo espanto dos atenciosos ouvintes, para deleite do Juca, que aqui e acolá dava uns floreios de suspense.
Em noitadas de esbórnias, que não foram poucas, diga-se de passagem, quando voltávamos para casa "pé dentro, pé fora", ele costumava dizer, dedo em riste, dirigindo-se a um imaginário seguidor mirim:
- Olha aqui, moleque maroto, quer vir comigo, tudo bem, mas sem empurrar, por favor!
E ria um riso gostoso, de pura molecagem. E revelava também que em alguns momentos de preliminares sexuais, ao imaginar inocentes olhinhos curiosos o observando, várias vezes teve de interromper o interlúdio para se recompor, implorando em pensamento:
- Sai pra lá moleque, pelo amor de Deus! Isso não é coisa pra criança!
Nunca mais o guri foi visto, mas o Juca confessava, em momentos de retiro, quando "garrava a pensar nos seus", sentir estranhos arrepios que ele creditava à sua "presença invisivel ".
Acredita amigo? Não pergunte minha opinião, pois sou apenas contador e não decifrador de causo. Isso é com vocês. Diz um ditado, não sei se espanhol, argentino ou de que plagas castelhanas: "yo no creio en las brujas, pero que las hay, las hay". Pelo sim e pelo não, taí. Vendi do mesmo preço que comprei.
Falando em molecagem, no sentido de travessura, veja essa!
Estudante ainda, do último ano de geologia, durante uma prova de Geologia Econômica, um colega que esquecera o nome do mineral magnetita, de conhecidas propriedades magnéticas, passa ao Juca o seguinte pedido de socorro, em um papel amassado: "Qual é o nome daquele material magnético pra caralho?"
Juca respondeu na bucha: "Imã".
O colega ficou louco e devolveu a encomenda: "Mineral natural, animal!"
Quase tendo um orgasmo, Juca sapecou de volta: "Mineral, animal ou vegetal?"
Segundo seu relato, o cara quase engoliu o papel, de raiva. Mas devolveu irado, em letras garrafais: "SEU CÚ!"
Ao relembrar essa passagem, o Juca sempre tinha um ataque icontrolável de riso. Imaginem a cena!
Doutra feita, trabalhando na mesma área que a equipe de geofísica, Juca encontrou o esconderijo onde eles guardavam os carotes de água e os lanches, para o descanso do meio-dia. Sem pestanejar, ele colou uma folha de sua caderneta em cada carote, com os seguintes dizeres, em pincel atômico: "Cuidado! Contém mijo humano!" Pra dar mais veracidade, urinou num gurdanapo e deixou próximo aos vasos, pra que o aroma ficasse no ar.
Bom, há quem desminta, mas o que me disseram é que a equipe de geofísica passou toda a tarde sem beber água, por via das dúvidas, maldizendo o azar de terem dado mole pro Juca.
Muito cedo aposentou o martelo e foi explorar minas de gado no pantanal do seu belíssimo Mato Grosso. Mas deixou-nos, além do vazio técnico, o vazio de uma companhia inesquecível. Suas lembranças são patrimônio inalienável daqueles tempos tão sofridos e ao mesmo tempo tão saudosos, em que fazíamos geologia nos divertindo. No próximo post, relateremos mais travessuras desse matogrossense autêntico, feito laço de 12 braças.

* Nome fictício